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A ÚLTIMA AMIGA



Meu grupo de amigas nunca mudou drasticamente desde que eu fiz catorze anos. Kaká é minha melhor amiga desde que nós temos quatro anos e isso nunca mudou, mesmo com um quarteto que se dividiu em duas duplas, mudança de escolas e uma pandemia. Jo foi uma amiga de catequese que reencontrei no ensino médio. Alaine e Helena eu conheci no primeiro dia de aula do primeiro ano graças a um pedido de um absorvente e uma súplica desesperada para que eu corrigisse um vício linguístico, respectivamente. Mille e Nick se uniram graças a opiniões políticas semelhantes e uma vontade de seguir carreira jurídica. Ana e Júlia, por fim, eu fui unida graças a Helena, que nos apresentou, e à FGV, para onde eu e Ju estudamos juntas durante os vestibulares.

Quando a Mille começou a namorar, não houve surpresa alguma por parte de nenhuma de nós, apenas felicitações e frases com leves tons de ameaça para o sortudo. Mille é belíssima, parece uma Barbie, loira com um corpo lindo e sorriso de comercial da Colgate, e tem uma personalidade tão exuberante que para mim, ela é a definição de “garota de ouro”. Nunca pagou para entrar em nenhuma festa, e sempre está bem acompanhada. Nick foi a próxima. Dois anos de namoro com um príncipe-feito-sapo, por assim dizer, e algo que, em seu término, deixou todas nós gratas, e agora encontra-se felicíssima namorando um colega de faculdade que faz todas nós rirmos com a síndrome de Narciso dela, pois ele poderia ser sua versão masculina em tudo, inclusive aparência.

Sobre a Helena e a Jo eu posso pular comentários sobre os namorados de ambas, pois sendo uma opinião unânime – ou quase, talvez com um ou dois votos nulos – no grupo, eles só vão sair da fase de probatio – isto é, parar de serem vigiados de perto por todas nós, e talvez serem considerados pelo grupo como “recuperados socialmente” para serem bons o bastante para elas – depois do nascimento do quarto filho dos casais, e apenas se mantiverem uma conduta exemplar, pois toda a novela que tivemos que acompanhar me provou que ambas conseguem fácil coisa melhor – ainda torcemos por um término. Alaine tem o recorde de namoro mais curto, um dia e meio com pedido de início e término, e se encontra em um relacionamento muito sério que não é um namoro, como ela fez questão de ressaltar após conhecer os pais dele.

Ana e Júlia são bonequinhas de porcelana – apelido dado por um amigo nosso – do grupo, e tem namoros dignos de qualquer história de contos de fada que você possa imaginar. Rapazes bons, estudiosos, educados, a nata das opções, com direito a todo o romantismo de cartas escritas à mão e buquês de flores. Nunca tiveram uma crítica sequer aos meninos e os poucos conflitos foram resolvidos em questão de horas depois de começarem. Definitivamente, ganharam na loteria dos bons namoros.

Isso deixava de fora eu e Kaká, e por nós, tudo estava ótimo a respeito disso. Nossos pais nem sequer sonhavam em nos deixar namorar antes dos dezessete, quase dezoito, e quando deixaram, nem eu e nem ela tínhamos interesse e, honestamente, não tínhamos pressa e nem tempo para isso, com a pressão dos vestibulares, o que foi bem recompensado – eu passei na Fundação Getúlio Vargas e Kaká, em primeiro lugar em medicina na Universidade Federal de Uberlândia. As amizades não mudaram, apesar da distância. Acompanhei o término e começo de um novo namoro de Nick, sigo não gostando dos namorados da Jo e da Helena, Alaine e Mille não namoram, mas não estão sozinhas e Ana e Júlia seguem tendo os namoros perfeitos e eu sigo solteira, assim como Kaká. Ou pelo menos eu pensava até nossa ligação semanal – toda sexta, sete da noite até às três da manhã se não tivermos nenhum compromisso.

“Estou namorando, o nome dele é Gael e…” daí em diante, foram uns bons sessenta segundos para eu raciocinar. Meu primeiro pensamento foi: haha, que engraçado. O segundo foi uma sequência de xingamentos mentais. O terceiro, um pouco cruel: por que a Kaká conseguiu antes de mim, se a vida toda sempre estivemos na mesma escala para as coisas? Na mesma hora vi a bobeira, claro. Não é uma corrida, uma maratona de quem namora primeiro ou namora melhor. Helena está namorando e Jo também e estariam bem melhores solteiras, o famoso “antes só do que mal acompanhada”. Ao mesmo tempo, um sentimento ruim está no peito, pensando em Ana e Júlia. Por que eu não tenho isso?

Não quero um namorado apenas para falar que concluí essa etapa na vida, que finalmente estou namorando. Eu quero as coisinhas pequenas junto das coisas grandes. Quero apresentar e ir jantar com meus pais, conhecer a família dele, mas também quero o chamego, a mensagem de ‘bom-dia boneca, dormiu bem?’, as flores de vez em quando, a ida ao restaurante à dois. A pressão dos outros também não ajuda, o que é engraçado. O “sempre no seu tempo” e “dedique-se aos estudos” da família virou o “nunca vai trazer alguém aqui?” e “vai ficar para tia”, ou ainda, o “e aquele seu amigo fulano de tal?”, como se realmente fosse uma corrida e eu estivesse a quilômetros da linha de chegada, e talvez meus amigos homens sejam a resposta para o enigma da neta, filha e sobrinha solteira.

Penso um pouco quando minhas amigas brigam com os respectivos namorados e falam que o romance está morto. Não acredito nisso, sempre fui uma romântica por natureza. Acredito no pedido de namoro, na conversa com o pai, nos buquês de flores e no “te busco às sete na porta da sua casa”. Meus próprios pais precisaram de um “empurrãozinho” de amigos para ficarem juntos, mas houve a questão do esforço, do ir atrás do outro, do descobrir o telefone fixo da casa da minha mãe para chamá-la para sair — uma época sem as comodidades do Instagram ou Whatsapp. Minha mãe só começou a namorar com vinte, o primeiro e único namorado dela, meu pai, e em outubro celebram vinte e três anos de casados. É isso o que eu quero.

Não acho que tem nada errado com isso, com o ser solteira em um grupo de amigas que namoram. Às vezes os planos mudam, ou você dá conselhos excelentes sem ter a menor prática no assunto. Não vejo por que ter pressa para deixar de ser a última amiga solteira.


Revisão: Enrico Recco


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