A BRIGA ENTRE A AÇÃO E A CRÍTICA


Era cedo quando a Ação chegou para trabalhar. Na sala do escritório, havia uma pilha enorme de relatórios-problemas para serem resolvidos. Ela foi ao local esculhambada. Como trabalhou sem parar no dia anterior, nem tempo para dormir teve, quem dirá escolher uma roupa e arrumar-se. Um tempo depois, chegou atrasada a sua colega de trabalho — e, em alguns momentos, rival — a Crítica.


Como era vaidosa, a Crítica chegou de tailleur, salto alto e maquiada. Havia tempo de sobra para se preparar. No entanto, o tamanho da pilha de problemas a preocupava. Ao contrário da Ação, que mal lia e já ia resolvendo tudo de uma vez, sem se preocupar com a qualidade, ela analisava com calma cada um dos relatórios-problemas. O lema da Ação era “ser pragmática”. Já o da Crítica era “ser coerente”. A manhã estava longe de terminar, e as duas já entraram em conflito.


O chefe das duas percebeu que a resolução dos problemas não estava adequada. Quando a Ação fazia sozinha, terminava todos rapidamente, contudo, muitas vezes ficava incompleto. Quando a Crítica o faz, fica próximo da perfeição, entretanto, demora uma eternidade — e em alguns casos nem começava a trabalhar. A Crítica pensava tanto antes de agir, que, às vezes, nem agia. E a Ação agia tanto antes de pensar, que, às vezes, nem pensava. Portanto, a ordem do chefe era a seguinte: a partir de agora, todos os problemas deveriam ser resolvidos em consenso entre as duas. “Que azar” pensaram. Não trabalham bem juntas, tinham personalidades opostas.


A Crítica tinha um currículo impecável e nunca havia sido demitida de um trabalho. Tinha sucesso nas redes sociais e seus discursos eram excelentes — colocá-los em prática era outra história. A Ação começou a trabalhar cedo e não gostava de estudar. Era corajosa, todavia, era uma cega otimista, pois constantemente negava as incertezas. Em algumas situações, era tão pragmática que agia de forma irresponsável. Seu trabalho acontecia, mas era permeado de irregularidades.


Entretanto, como era uma ordem do chefe, a Ação sugeriu que ambas tentassem trabalhar em nome da produtividade. A Crítica resolveu livrar-se de suas frescuras e ajudou a Ação, que, pela primeira vez na vida, aceitou ser orientada e corrigida pela Crítica. Ao final do dia, elas conseguiram trabalhar juntas e os relatórios-problemas foram sendo resolvidos.

O chefe ficou surpreendido. É fato que as brigas existiam. Porém, o resultado do equilíbrio entre ambas foi satisfatório. Ali, perceberam que não é possível ser crítico sem agir; e não dá para agir sem ser crítico. O segredo reside na ponderação.




Autoria: José Lucas Rossin

Revisão: Bruna Ballestero

Imagem de capa: Pinterest