A CENTRAGEM TÁ DESREGULADA: SAI DA RUA, MULHER!



Dedico este texto à memória de Marina Kohler Harkot *



Eu nasci ontem. É o que dizem os amigos da minha avó ou da minha mãe. Tenho 20 anos e alguns meses. E, perdoem-me os céticos, mas eu sou escorpiana, e nós, do final de outubro e de boa parte de novembro, nascemos de novo de vez em quando. Há pouco mais de um mês, comprei minha primeira bicicleta, chamada Maria Bethânia. Na verdade, ela foi a primeira depois da de rodinhas que ganhei dos meus pais, há uns 15 anos.


Façamos, antes de tudo e depois de um devaneio astrológico, as devidas delimitações: além dos meus 20 anos, sou uma mulher cisgênero, branca, de classe média e sempre morei em bairros elitizados e centrais de São Paulo. Ah, não sei dirigir e nem tenho vontade de aprender. Esse meu lugar importa muito pro tema deste texto. E, além disso, devo dizer: não sei o que é centragem, não sei se a regulagem do meu freio tá boa, não tenho bombinha de encher pneu, ainda não entendi a diferença entre pneu e câmara, não lavo minha bicicleta nem quando passo por cima de cocô de cachorro (não porque sou suja, mas porque tenho medo de danificar a Maria Bethânia), dou nome de musa da MPB pra minha bicicleta e ainda não ando mais de 7 km em um dia, muito menos pego avenidas movimentadas, sem ciclovia e em horário de rush. Em resumo: não sou profissional, nem uma amadora especialista ou que já fez inúmeras descidas para a praia pedalando.


Voltando para a aquisição: nasci de novo. Depois de anos de aluguel ou empréstimo, fiquei me sentindo. Agora tenho uma bicicleta, agora pedalo no Minhocão, agora mostro a bicicleta pro porteiro do prédio onde moro e falo “linda, né?”. Agora passo na casa dos meus amigos pra dar oi de longe de bicicleta, agora mando foto da minha bicicleta pras minhas amigas com versos da música “Não fica apaixonadinha”, do MC Lorenzo, que está no auge de seus 6 anos de idade, na legenda: “agora tô de motinha, agora tô de motinha, tô passando na sua rua (...) é que agora eu tô na moda porque tô motorizado”. Sim, cheguei ao ridículo de chamar minha bicicleta de possante.


E agora, levo meu possante no bicicleteiro. Liguei para três bicicleteiros diferentes antes de sair de casa empurrando Maria Bethânia, recém-comprada, mas usada: suja, com o pneu murcho e todo torto. Não fui nos dois primeiros porque não tinham os acessórios que eu queria, mas, nas ligações, só ouvi vozes normativamente masculinas e autorreferências no masculino, “é que hoje eu tô ocupado com outra bicicleta, vem amanhã”. Cheguei no bicicleteiro que tinha tudo o que eu precisava e fui perguntando pra mulher que estava atrás do balcão sobre os preços, o que ela achava que eu precisava, qual era o melhor espelhinho, tudo isso, meio esbaforida. “Ô Ceará, vem cá me ajudar, tem que olhar a centragem dessa moça?” Comecei a ficar descentralizada nessa brincadeira de ter um possante.


Ceará e seus filhos já consertaram meu veículo duas vezes. E fiquei com vergonha de perguntar pra eles coisas como “e essa marcha da esquerda aí, como usa?”. Nunca tinha usado por tanto tempo uma bicicleta que tem marcha dos dois lados (dianteira e traseira). Tentei parecer experiente, segura, com cara de quem sabia o que é centragem. Com cara de quem vira a bicicleta de ponta cabeça no meio do Minhocão, apoia-a no chão, tira uma chave de fenda da pochete e arruma qualquer coisa que soltou, tipo a corrente, acho. Cara dos homens que vi fazendo isso. Era essa a cara que eu tentei fazer. E depois dei um google na marcha.


Se fiquei com vergonha de perguntar ao Ceará, que eu já conhecia e é especialista no assunto (e que, aliás, é um ótimo bicicleteiro, fica no centro de São Paulo e recomendo), o que fazer com a marcha, eu não ia pedir ajuda na rua pra alguém. Ô, moço, não sei seu nome, você pode odiar bicicleta, mas vê se meu pneu tá um pouco murcho? Foi o que aconteceu outro dia. Eu já tinha visto o pneu, já tinha providenciado um empréstimo da bendita bombinha, mas tava andando. O cara interrompe a vida dele, a caminhada contemplativa que ele teve sorte de conseguir fazer, pra averiguar minha bicicleta e me parar pra falar do pneu. Isso aí foi vergonha alheia. Queria ter todo o tempo livre e falta de preocupações que esse cara parecia ter. Além da autoconfiança de dar conselho na rua pra qualquer um.


Fico com vergonha de outras coisas: não sei o que é um gol impedido, não sei o que é a embreagem do carro. E tem muitas coisas que eu não sei o que são e não vou falar aqui porque não sei o nome, de tanto que não sei. Esse conjunto corresponde ao que, historicamente, era “coisa de homem”. Futebol, carro, outros esportes, incluindo ciclismo... Não sei nada disso e fico babando quando minhas amigas sabem: “Dora, um impedimento é quando …” - desculpa, Carol, esqueci. Também porque não tenho interesse em futebol, apesar de torcer pro time que tem Jaqueline no ataque (e que ataque!).


Morri de vergonha e outras coisas quando parei na ciclofaixa da Martim Francisco, rua comercial no centro de São Paulo, pra esperar o farol abrir. Tinha um buraco bem no lugar que eu deveria parar e parei mais pra frente, um pouco em cima da faixa de pedestres, sabendo que teria que recuar caso alguém quisesse atravessar bem ali. Mas os carros que estavam na rua transversal, a Martinico Prado, viravam em minha direção. Ok, talvez eu tivesse que sair dali para evitar um susto. Acidente, impossível, mas susto, podia rolar. Até que virou um carro que teve que desviar de mim. “Sai da rua, mulher!”.


A minha centragem desabou. O freio travou. Todas as palavras daquele sujeito me paralisaram. Era como se a rua fosse o espaço dele, em seu carro. Como se eu não pudesse estar ali na rua. Vou ficar devendo um texto menos pessoal sobre as recentes políticas públicas voltadas para os ciclistas na minha cidade. Mas essa é a primeira coisa que me limitou. A segunda é que ele precisava explicitar quem tava ali, em cima daquela bicicleta. Talvez vocês me provem o contrário, mas não o imaginei falando “sai da rua, homem!” Era o que eu deveria ter falado pra ele, que, querendo ou não, passou por cima da minha rua.


E, quando sou rápida pra pensar boas respostas, por mais mal educadas ou equivocadas que sejam, eu respondo. Quando o freio não trava. Foi o que aconteceu ontem, na ciclovia da Avenida Pacaembu. Estava pensando sobre o André Sant'Anna, escritor que não conheço, mas que meus pais disseram que posta tudo no Facebook com apenas três legendas: #tomanocu, #tamofudido e #vivaosmaluco ou #vivaasmaluca. Concluímos que essas três frases resumem tudo. Mas atrapalharam a brisa. Era fiufiu, psiu, algo assim, assédio. Um cara que tava dirigindo um veículo ao meu lado. De pronto, soltei “toma no cu”. Já sabemos que “vai tomar no cu” é uma expressão de origem homofóbica, que deve ser evitada. Mas foi isso que veio. Tento ser coerente, então, da próxima vez, tentarei mudar.


Tem uma coisa que fica na minha cabeça desde que, logo depois de entrar na adolescência, eu andava de bicicleta alugada por aí. É impressionante alguém ter tesão numa pessoa só porque ela tá numa bicicleta. Veja: suando, com possíveis marcas de graxa e, pasme, de capacete! Outro dia, uma amiga falou: “não consigo ter esse desconforto sozinha”. E me mandou um vídeo de um casal que tem um estilo peculiar e gosta de usar diferentes tipos de capacete no rolê. Acho, só acho, que essa afeição por capacetes como estilo e sedução não é comum ou popular. Capacete de ciclismo é uma coisa desprezível esteticamente. E eu também acho roupa de esporte um negócio muito feio, mas isso talvez seja problema meu. Enfim, não entendo esse tesão em gente andando de bicicleta e agora, falando sério, não admito assédio em qualquer situação.


Foi na mesma ciclovia que, hoje, eu decidi escrever este texto. A pista para bicicletas no sentido Barra Funda estava em obras. A no sentido Pacaembu, não. Eu ia sentido Barra Funda, mas era impossível andar ali sem parar a cada 50 metros para desviar dos canteiros de obras, que estavam parados, porque é domingo, mas que podiam ter sido liberados, mesmo que ainda não estivessem 100% prontos. Mas isso é praquele outro texto. Enfim, pedalava no sentido Barra Funda, mas na pista de quem ia pro Pacaembu. Era domingo, 9 da manhã. Não tinha congestionamento de bicicletas, e congestionamento de bicicletas, infelizmente, quase nem existe. Se alguém viesse em minha direção, eu encostaria. Foi o que aconteceu com casais caminhando, um pai com seu filho num carrinho e outros ciclistas, como eu.


E com um rapaz, também de bicicleta. De longe, já vi o braço dele abanando. Queria que eu fosse pro outro lado. Eu falei o óbvio, como se ele não tivesse enxergado: tá em obra, meu senhor, não dá. “Nesse trecho não tá em obra”, eu via o véu laranja a 10 metros dali. Não gostei, mas deixei o cara passar, saí da pista só pro príncipe. Essa, eu perdi. Pessoas ao meu redor, mesmo que de longe, perceberam a petulância do cavalo, e tentaram me consolar: “não liga não”.


Além de teimosa, vocês já sabem meu signo solar, sou uma mulher, ciclista (mesmo que novata) e ligo - sim. Ligo porque, além da negligência dos governos com as nossas vidas (de pessoas que se locomovem na cidade de bicicleta), ainda sou obrigada a aturar as estruturas de gênero me atravessando até no momento mais legal do meu dia - quando tiro meu possante da garagem pra usar a centragem reguladinha. Deve ser muito bom se falar o que pensa o tempo inteiro, mesmo quando se está errado, ou até cometendo crimes. Mas ainda bem que não tenho esse prazer. Deve ser muito bom ver muitas pessoas como você, do seu gênero, andando de bicicleta na cidade.


Dei alguns exemplos de situações em que, nos últimos 40 dias, me senti menor ou menos merecedora de respeito por ser uma mulher ciclista. Momentos em que a centragem ficou desregulada. Repito que devem ser guardadas as devidas proporções, já citadas: não tenho experiência e moro em um bairro privilegiado para ciclistas paulistas (apesar das pirambeiras). Sou uma mulher privilegiada. A situação pode ser muito diferente em outros bairros da cidade e com mulheres negras ou indígenas, que, além do machismo e do preconceito por serem ciclistas, sofrem racismo. E o fim disso não pode ser a nossa morte e, sim, a possibilidade de nascer de novo, e de novo, e de novo, com políticas públicas que protejam os e as ciclistas e nos permitam ocupar a cidade da maneira menos poluente e desigual possível.




* Marina Kohler Harkot, cicloativista, morreu atropelada aos 28 anos, em novembro de 2020. Era pesquisadora na área de mobilidade urbana: sua tese de mestrado na FAU-USP tem como título: “A bicicleta e as mulheres: mobilidade ativa, gênero e desigualdades socioterritoriais em São Paulo”.



Revisão: Glendha Visani e Cedric Antunes

Fotografia: Dora Cavalcanti

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