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A ECONOMIA NA INDÚSTRIA DA ARTE

Sobre o I Seminário Acadêmico de Economia do Mercado da Arte FGV EESP - Período Manhã



Em um mundo artisticamente dominado pela música e pelo audiovisual, é inegável que a arte pintada – os famosos quadros – é um tanto quanto subestimada, especialmente no Brasil. Ainda que exista uma valorização do passado, pouco se abraça o presente e quase não se discute o futuro. O pincel e a tinta já não possuem a mesma força que outrora e, em terras nacionais, existe um crescente desinteresse por parte da população mais jovem. Dito isso, o anúncio do I Seminário Acadêmico de Economia do Mercado da Arte foi uma grata surpresa.


Realizado no dia 21 de setembro de 2023, no auditório da FGV EESP, o evento foi coordenado por Katya Hochleitner, economista e doutora em História da Arte e pesquisadora da FGV EESP - FGV INVEST, e reuniu a apresentação de 19 artigos por diferentes acadêmicos e pesquisadores. Tinha como principal objetivo a exposição do funcionamento ao longo dos anos do mercado da arte, de forma a dar maior relevância e importância para o tema, tão pouco debatido e comentado. Porém, os artigos apresentados não tinham como foco somente a economia que movimenta a indústria artística, como também expandiram para temas como democracia, igualdade entre artistas e o crescimento da arte no Brasil.


Um dos artigos que mais chamou atenção foi o escrito pelo professor Anaildo Baraçal, docente da UNIRIO, com a coautoria de quatro de seus alunos. Em sua pesquisa, Baraçal falou das origens comerciais da arte no Brasil, após o ano de 1808, que marcou a chegada da Família Real Portuguesa; deste ponto de partida, o pesquisador apresentou a maneira como o comércio se ampliou e se desenvolveu. A partir deste momento, o crescimento do mercado foi viabilizado especialmente por negociantes estrangeiros, que trouxeram consigo correntes estéticas que contribuíram na progressão da arte brasileira. Baraçal também afirmou que o artigo exposto era somente o início de sua pesquisa, cujo objetivo é chegar até os dias atuais.


Outro artigo de grande destaque foi o do professor Gustavo Perino, sobre as aproximações metodológicas na avaliação do valor de obras de arte no Brasil, na Colômbia e na Argentina. Perino é fundador e diretor da GIVOA Art Consulting, empresa dedicada à pesquisa de arte no Brasil e na Argentina, e também criador e organizador da International Conference Artwork Expertise, ICAE, que se tornou o primeiro congresso internacional de expertise em arte da América Latina. Em sua pesquisa, Perino analisa as dificuldades da precificação de obras de arte e expõe a importância de não levar em conta apenas dados comerciais na análise de valoração destas, mas também contextos e sentimentos pessoais do artista em relação a sua produção artística, de maneira que a avaliação de sua valia converse com a realidade. A similaridade na metodologia de precificação entre os países latinos, especialmente a Argentina, o Brasil e a Colômbia, se deve ao fato de, nos anos de 2019 e 2020, mediante um comitê interdisciplinar composto por profissionais dos respectivos países, ter acontecido uma adaptação normativa do Registro Nacional de Avaluadores, RNA (alterada pelo Instituto Colombiano de Normas Técnicas y Certificación, ICONTEC; ambas organizações tratam do estabelecimento de metodologias e/ou normas para a mensuração de valor a produtos e/ou serviços), que desencadeou em uma normatização específica para obras de arte e artigos de luxo para que possa ser alcançado o preço mais justo possível, sendo um método atualmente utilizada não somente nos três países, mas também em outros países latinos (como a Venezuela).


Dentre um dos infortúnios do evento, foi a ausência de Paulo Varella, que infelizmente não pôde estar presencialmente no evento. Ainda que sem grandes holofotes midiáticos, aos que acompanham a arte brasileira contemporânea, Varella é um nome conhecido. Formado em administração de empresas na FGV (quem diria, hein?), estudou direção de fotografia na National Film and Television School, prestigiada instituição de ensino de cinema e televisão britânica, a qual recebeu grandes nomes da indústria, como Mark Herman (diretor de O Menino do Pijama Listrado) e David Yates (diretor de diversos filmes da saga harry Potter). Varella ainda ganhou prêmios em Cannes e no Festival de Londres, sendo uma das grandes figuras nacionais no ramo da fotografia e da arte. Atualmente, dirige a empresa que criou, a Photoarts Company. Apesar de sua ausência, o artista deixou um curto vídeo para ser exibido. Com cerca de 10 minutos, seu artigo tratou principalmente da formação de artistas no Brasil, escancarando uma desigualdade histórica entre os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro em comparação com o resto do Brasil, assim como a quantidade muito maior de homens no ramo em comparação às mulheres – neste último caso, há uma perspectiva mais otimista em relação às expectativas de mudança.


A última apresentação que vale ser comentada é, também, aquela que mais chamou atenção e se destacou. Luiza Portelli, consideravelmente mais nova e a de menor currículo entre os pesquisadores, pesquisou sobre a história da arte urbana brasileira e sua relação com o mercado. O primeiro fator a ser compreendido em sua pesquisa é o significado de arte urbana, também conhecida como street art. Simplificadamente, a street art trata-se, como diz o nome, da “arte de rua”, ou seja, a produção artística realizada em locais públicos do meio urbano. Sendo de origem popular, a arte urbana possuía, a princípio, um antagonismo com o mercado em geral – se, de um lado, existia o sentimento de desvalorização e opressão, do outro, existia uma visão elitista de repulsa à street art por ser considerada vandalismo e/ou poluição visual. Todavia, o passar dos anos evidenciou que uma relação entre os artistas populares e o mercado poderia ser benéfica para ambas as partes; da ótica comunitária, pelo crescimento pessoal que trabalhar ao lado da indústria poderia fornecer, enquanto da perspectiva comercial, pelos ganhos econômicos que poderiam vir a existir.


É nesse momento que entra o conceito de art infusion effect, que Portelli foi bem sucedida em explicar, apesar da sua complexidade. Resumidamente, o art infusion effect pode ser definido como a “conexão” entre uma produção artística (não necessariamente de origem popular) e um determinado produto que, ao ocorrer, gera a atribuição de reputação, beleza, emoções e qualidade da obra à mercadoria, que passará ser mais atraente aos olhos de consumidores. Um exemplo conhecido é a antiga parceria entre a marca Louis Vuitton e o artista japonês Takashi Murakami, que durou cerca de 12 anos, até acabarem 2015. Os produtos pertencentes à linha da parceria entre a empresa e Murakami, normalmente bolsas e carteiras, marcaram os anos 2000 como peças muito valorizadas e requisitadas.


Contudo, um ponto levantado pela pesquisadora trata-se de, comumente, o art infusion effect ainda ser mais relacionado a obras clássicas (como as pinturas de Van Gogh, Michelangelo, Da Vinci, etc), de modo a abrir um questionamento: como tem sido a relação entre o conceito e a arte urbana? A repressão e o preconceito histórico com esse meio de expressão, de fato, ainda o afetam, contudo, com o passar dos anos, houve um crescimento na colaboração entre o mercado e as “artes de rua”, como, por exemplo, a parceria entre a marca de calçados Yuool e o famoso artista brasileiro Eduardo Kobra no final de 2022. Desta forma, Luiza Portelli conclui sua apresentação com a ideia de que, ainda que possua um longo caminho, o reconhecimento da arte urbana já está crescendo e sob forte ritmo.


Em suma, o I Seminário Acadêmico de Economia do Mercado da Arte, realizado pela FGV EESP – FGV Invest, pelo menos em seu período da manhã, foi um grande sucesso. Com ótimas pesquisas e apresentações, a primeira edição do evento (cuja previsão para retorno é somente em setembro de 2024) não somente agradou os ouvintes e entregou um vasto aprendizado como também exibiu potencial para se desenvolver ainda mais ao longo dos anos, contribuindo para a propagação de um debate hoje pouco discutido, mas de grande importância social e econômica. Como último lembrete antes de finalizar o texto, aos interessados nos artigos, eles já estão disponíveis no site da FGV EESP, na área da FGV Invest – e sua leitura muito tem a agregar.



Autoria: Rauhã Capitão

Revisão: Artur Santilli e Gabriela Veit

Imagem de capa: Pinterest


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Muito obrigado pela menção e pelo excelente recorte desse evento que todos organizamos com muito carinho.

Beğen
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