A GUERRA COMO UM JOGO – UMA ESTRATÉGIA PARA A PAZ

Nossa redatora, Carolina Zweig, compartilhou conosco uma análise do discurso do economista vencedor do Prêmio Nobel, Robert Aumann. Será que somos capazes de entender os segredos da Paz e da Guerra?

Em 2005, Robert Aumann recebeu, junto com Thomas Schelling, o Prêmio Nobel de Economia. Em seu discurso, o matemático americano-israelense foi além da sua contribuição científica para a Teoria dos Jogos – foi um pedido de que se realizem verdadeiros e eficientes esforços para estabelecer a paz. Sua proposta, de modo mais amplo e metafórico, é de concentrar dedicação em entender o que leva à guerra, e não apenas em como encerrar ou evitar uma batalha específica. É compreendendo as múltiplas facetas da Guerra que podemos nos propor uma maneira concreta de impedir que ela aconteça. Realizando paralelos explícitos o conflito Israel Palestina, o professor Aumann foi apreciado e condenado pelo seu discurso ao receber o prêmio.


O cerne do seu discurso estava no incentivo ao estudo da Guerra. Mais especificamente o estudo da Guerra como fenômeno, seja sobre um viés histórico, sociológico, psicológico ou racional. Usando a definição econômica de racionalidade, que diz que um comportamento humano é racional se é do seu melhor interesse faze-lo, dado a informação que se tem disponível, a guerra pode, sim, ser racional. Esta primeira premissa é simples, porém de importância fundamental. Se descartamos a hipótese da racionalidade da guerra, assim como a racionalidade da discriminação (seja ela por raça, origem, religião, gênero etc.), estamos tirando esses conceitos do nosso campo de análise. Chama-los de irracionais é torna-los incompreensíveis e afastar-se da solução.


A economia trata, em grande parte, de incentivos. Uma vez que assumimos que guerra é um comportamento racional, quais são os incentivos que levam muitos a considerar ela como melhor opção? Sem se propor essa pergunta, não podemos formular e construir incentivos contrários que promovam a paz. Vale lembrar que incentivos podem interagir entre si de maneira complexa, então ainda podemos outros fatores como vingança, ameaças e credibilidade na nossa equação, de modo que nossos resultados podem vir a ser realmente contra intuitivos.


O professor Aumann aplica seu estudo em Teoria dos Jogos ao falar sobre a Guerra Fria. E a guerra é aqui tida como um jogo, em que os participantes se deparam com a decisão de lutar ou não e dependendo da combinação de escolhas obtém-se um retorno específico. Na Guerra Fria, ele afirma que justamente porque ambos lados estavam tão armados que nenhum tinha incentivo para atacar ou se desarmar – o conflito levaria a uma destruição mútua indesejada.


Mais que isso, é um jogo repetido: a cada dia os participantes tomavam essa decisão baseado no que havia ocorrido nos períodos anteriores. Os resultados das escolhas de ontem influenciam nas escolhas de hoje – e torna-se possível que o desvio em um período tenha como consequência a punição (vingança) no período seguinte.


Assim, um dos cenários plausíveis é que a cooperação – no caso da Guerra Fria seria se armar, mas não atacar – se repita em todos os jogos menos o último (não havendo o risco de ser punido no futuro, não há ameaça que funcione). Em jogos repetidos indefinidas vezes, como são muitos na vida real, não se sabe qual vai ser o último jogo. E se sempre considerarmos a possibilidade de sermos punidos no próximo período, a cooperação se torna viável em todos os períodos.


Vingança, por mais que pareça irracional, é importante para que esse equilíbrio se mantenha. Um comportamento cooperativo é possível em um ambiente em que ambos lados tem medo da vingança caso desviem. No exemplo, ambos blocos durante a Guerra Fria cooperavam em não-agressão por medo das consequências de ser o primeiro em atacar – a expectativa era de que a vingança fosse tão grande que não valeria a pena desviar (aqui, desviar é “atacar” ou “se desarmar” ou qualquer outra coisa diferente de “se armar e não atacar”).


Para que a cooperação seja viável, não podemos ser muito ansiosos por resultados imediatos. Matematicamente, se você der muito peso para o período atual, a vingança em períodos futuros não te prejudicará o suficiente para te convencer a continuar cooperando. Mas se o presente não tiver tamanha importância, a ameaça da vingança futura te obrigará a cooperar no presente. “O presente, o agora, não pode ser importante demais. Se você quer paz agora, pode ser que nunca a tenha. Mas se você tem tempo – se você pode esperar – isso muda tudo, e pode obter a paz agora”, explica Aumann em seu discurso. Ele ressalta ainda que, para que a vingança seja de fato uma ameaça crível (e não apenas palavras sem fundamento), ela deve ser colocada em ação quando necessário. “Precisamos estar preparados para a guerra, precisamos ter intenção de lutar para evitar a luta” declarou Aumann.


Baseando-se nos conceitos apresentados acima, Aumann se manifestou diversas vezes sobre o conflito Israel Palestina: “Todos querem paz no Oriente Médio, mas proclamar esse desejo pode nos afastar de alcançá-lo”. Ao seu ver, isso se aplica também as concessões que na época eram feitas ao retirar colonos judeus e tropas israelenses da faixa de Gaza: “De um ponto de vista de Teoria dos Jogos, foi uma má jogada. Mas se eu não estudasse teoria dos jogos, eu diria a mesma coisa” afirmou o professor. Ele ressalta que Israel deve prestar mais atenção aos incentivos que está oferecendo aos Palestinos. Em entrevista, Aumman diz que “em um jogo, algumas concessões podem ser necessárias, mas sempre com uma contrapartida. Do contrário, o adversário torna-se mais e mais intransigente e segue em frente com seus planos, sentindo-se impune”.


A decisão de entregar o Nobel a Aumann foi então criticada pela mídia europeia, e a fala dele foi apontada como belicista por acadêmicos de todo o mundo: demandavam que o comitê do Nobel voltasse atrás com a escolha de pesquisador. Em uma petição assinada por 1000 pessoas, acusa-se o professor Aumann, que é membro de uma organização política de direita (o Professores de um Israel Forte - PSI, sigla em inglês), de utilizar sua análise de Teoria dos Jogos para justificar a ocupação israelense e a opressão a palestinos, entre outras questões de cunho político.


Na sua fala, o professor aponta a cooperação como paz e o desvio como guerra. E sim, ameaças críveis são importantes para manter a cooperação – mas podemos realmente afirmar que dois povos armados, com mísseis apontados em direção ao outro estão em paz até que se aperte o gatilho?


Sob a perspectiva do filósofo Thomas Hobbes, a guerra abrange não apenas a batalha, mas toda disposição a batalhar. A tensão, o medo e preocupação permanente pela sobrevivência já são suficientes para caracterizar um estado de Guerra. E por mais que as pessoas se organizem em um Estado, em que um planejador central garante a paz, o Estado de Guerra ainda prevalece entre nações. A busca da paz é o objetivo central do Estado Político hobbesiano, cuja criação exige o domínio adequado do uso da linguagem – a linguagem é para Hobbes a maior invenção humana.


Na visão do filósofo, é da capacidade de desenvolver a linguagem que se deriva a razão. A racionalidade humana, diferenciando-nos de todos animais, é que nos torna os únicos capazes de encontrar caminhos para paz. E é usando a racionalidade como meio e como premissa principal, que acadêmicos como Robert Aumann parecem estar cada vez mais próximos de desvendar os mistérios da Paz e da Guerra.


Leitura recomendada:

https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/2005/aumann/biographical/

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