A MÁSCARA DA MORTE VERDE E AMARELA

No artigo de hoje, nossa redatora Laura Mastroianni Kirsztajn utiliza-se do conto “A Máscara da Morte Rubra” de Edgar Allan Poe para fazer uma analogia com o cenário político atual que o Brasil enfrenta.


Em 1842, Edgar Allan Poe publicou o conto The Masque of the Red Death, traduzido como “A Máscara da Morte Rubra”. A “morte rubra” era uma peste que vinha devastando todo o país, recebendo esse nome por causa da cor vermelha do sangue que tomava a face das suas vítimas. Seus sintomas incluíam uma súbita tontura, dores agudas, um forte fluxo de sangue pelos poros e, como resultado inevitável, a morte. Bastava o intervalo de meia hora entre o contágio e a execução da vítima.


Esse país era reinado pelo Príncipe Próspero, que, destemido, observava a morte e a devastação de seu povo, mas nada fazia, pois a ele a morte rubra não chegava. Atrás de muralhas enormes, portas de ferro e de uma construção gigantesca, o Príncipe refugiava-se da morte junto aos nobres de sua corte.


Nessa fortificação, o monarca ofereceu aos seus convidados o melhor da diversão e do entretenimento, e preparou a decoração de seus sete salões, cada um com cores e ornamentos próprios. De hora em hora, um relógio de ébano soava e a música era imediatamente interrompida, sobrando apenas suas badaladas e o silêncio. Findo esse instante, a alegria e a música retornavam.


Entretanto, naquele momento, com a chegada do anoitecer, um dos salões estava vazio, e nele fluía uma forte luz vermelha através dos vitrais de sangue e a escuridão das cortinas pretas. No salão preto, o som do relógio de ébano ressoava mais que em qualquer outro lugar. Dessa vez, à meia noite, com doze badaladas e um intervalo mais longo de silêncio, alguns convidados puderam perceber que entre eles havia uma figura mascarada na pura cor rubra, borrifada de sangue, e foi dessa forma que se iniciou o império do terror e do medo entre as paredes do castelo.


O Príncipe percebeu a figura mascarada, e ela dele se aproximou. O monarca correu por entre os salões coloridos, até que, uma vez alcançado pela criatura vermelha, enfrentou-a com um punhal. Foi nesse momento que um grito agudo tomou o local e o punhal caiu no tapete negro da sala, seguido do cadáver do Príncipe Próspero. Imediatamente, um grupo de convidados reuniu-se em torno da figura rubra, tirou-lhe a máscara e o manto, revelando-se o mais aterrorizante: não havia nada por baixo. Foi assim a descoberta da Morte Rubra, que tomou cada um dos convidados, um por um expelindo sangue e caindo sem vida no chão. A Morte Rubra tomou, dessa forma, todos os cantos, completando a dizimação que se iniciara com a plebe.


Na leitura desse conto, muitos já se perguntaram quais foram as inspirações de Poe e a lição que ele buscava com essa história. De qual príncipe ele estava falando? E qual era essa doença? Como muitos autores, sua explicação limitou-se ao seu próprio texto. Mas, como fã e leitora, assim como criatura do meu próprio tempo, posso retirar algumas lições das palavras de Poe, ainda que não tenha sido essa a intenção.


Desde o princípio do conto, diante de todos os temores que uma doença como a Morte Rubra poderia trazer, percebeu-se que, em torno dos nobres que cercavam o Príncipe, havia uma redoma de tranquilidade. Havia também uma redoma física, construída a partir de todos os recursos que o monarca tinha em mãos, e todo o espaço que ele poderia ocupar da forma mais distante possível da plebe que morria copiosamente, abandonada.


Mesmo sendo o representante do seu povo, aos olhos de Deus e da lei, o Príncipe Próspero olhou apenas para dentro dos seus próprios muros, que permaneciam firmes e estáveis, diria até... prósperos. E essa prosperidade cavava as covas do outro lado do muro para que o palácio pudesse reluzir.


Muitos entendem que a Morte Rubra não passava de uma metáfora de Poe sobre as pessoas que não aceitam a inevitabilidade da morte, e que por isso se consideram imortais, ou acreditam que ela é uma realidade distante para os seus iguais. É uma irracionalidade plena, revestida de nenhum rigor científico, mas bastante fé.


Só que as badaladas do relógio não mentiam: a vez delas ia chegar, e o silêncio ficava maior a cada hora que se passava, obrigando até a mente mais vazia a pensar por algum instante. Foram precisos o terror e o desespero revestido na figura rubra mascarada para que os gritos emergissem e a noção da realidade que assolava a população chegasse à corte.


Em face disso tudo, questiono-me, e levo essas perguntas para você que lê este texto: seria o Príncipe um ignorante da Morte Rubra, que pouco sabia quem era essa figura mascarada, quem dirá a doença que ela representa? Ou ele tinha plena certeza do seu potencial mortífero, mas acreditava fortemente que naquele palácio ela não entraria? E por que razão ele faria uma grande festa enquanto tantos morriam da maneira mais dolorosa e cruel do outro lado do muro? O que restara daquela população? Como que a Morte atravessou aquela muralha e quando que ela chegou no castelo? Chegando ou não a Morte Rubra, existiria um amanhã depois daquela festa?


Um príncipe e uma corte são o que sozinhos? E o que é um povo inteiro abandonado?

Existe príncipe sem Povo? Existe Povo sem príncipe?


Amy Su

*Discussão semelhante fez Yvonne Maggie, mas em uma época em que nem sonhávamos com o que estava por vir. https://g1.globo.com/pop-arte/blog/yvonne-maggie/post/2020/02/07/a-mascara-da-morte-rubra-ii.ghtml



Ilustração da capa: Amy Su

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