A RAZÃO DE SERMOS CONSCIENTES



Embora cientistas e filósofos tenham dificuldade para caracterizar o que é a consciência, intuitivamente temos uma boa noção do que é: nós mesmos. A consciência é o que faz com que nós e outros animais sintam, percebam e reajam àquilo que está a nossa volta ou em nossas cabeças. Para nós, como indivíduos, sentir e pensar é o que nos confere existência, que pode ser traduzida como vida, ou melhor, viver.


No entanto, embora não seja tão fácil determinar o que é exatamente que leva ao despertar da consciência em seres vivos, é possível traçar uma lógica evolutiva da consciência para perceber que ela efetivamente é um resultado da seleção natural. Um indivíduo capacitado a perceber se há comida ao seu redor possui uma vantagem evolutiva na medida em que pode coordenar sua movimentação com base nessa informação sobre o mundo. A espécie Trichoplax adhaerens, por exemplo, é um simples animal microscópico que se move aleatoriamente, e que, porém, desacelera na presença de comida, assim passando mais tempo em locais com abundância de alimentos do que naqueles em que há ausência.


Um verme achatado é capacitado não só para perceber a presença de comida, mas também para orientar-se em sua direção. Uma mosca que consegue enxergar pode não apenas locomover-se em direção à cesta de frutas, mas também evitar colisões com obstáculos como teias de aranhas ou poças. Um sapo alimentado que se sente satisfeito não gasta esforços e se põe a risco para caçar insetos dos quais não está precisando, em lógica parecida com a de que um elefante que está se sentindo com calor entra em uma represa para refrescar-se. Os animais processam inputs sensoriais que recebem de informações colhidas sobre o mundo ou sobre si mesmos e produzem outputs comportamentais com base nessas informações.


Há algo nesse processamento de informações, na forma de impulsos nervosos, que “produz” a consciência. Mas a palavra “produz” não parece bem representar o que realmente acontece, já que é em razão da própria consciência que os outputs comportamentais se efetivam. O sapo alimentado descansa por conta do risco de estar sempre buscando comida - vez que esse é um comportamento evolutivo que o favorece, mas na perspectiva individual do sapo, ele descansa por estar se sentindo satisfeito. O que motiva internamente o elefante a mergulhar na represa não é sua necessidade por controle de sua temperatura, mas sim a busca pelo alívio que a água proporciona frente ao calor que está sentindo. Para melhor dizer, a consciência é intrínseca a esse processo, sendo parte do mecanismo evolutivo que possibilita os indivíduos a modularem seus comportamentos com base em seus sentidos, memórias e pensamentos.


Para nós, enquanto humanos, vivemos sem considerar que toda nossa experiência provém de um mecanismo que modula nosso comportamento com base em vantagens evolutivas compatíveis aos modos de vida de nossos ancestrais. Ao contrário, experimentamos a vida como se estivéssemos no total controle de nossas ações e criamos justificativas para o modo como nos sentimos - e consequentemente de como agimos - que ignoram suas razões evolutivas de ser. Em outras palavras, nossas consciências corriqueiramente criam narrativas sobre a maneira como estamos nos sentindo, e é improvável que no dia-a-dia incluamos nessa narrativa a perspectiva de que grande parte de nosso comportamento é orientado por predisposições naturais psicológicas, como, por exemplo, ao pensarmos em um caso de dois irmãos brigando ao repartir um doce. O irmão mais velho reparte o doce e entrega uma das partes ao irmão mais novo, que por sua vez acredita que ficou com o menor pedaço e sente-se injustiçado, revoltando-se e revidando fisicamente o irmão. Perceba que, na cabeça do mais novo, o que lhe motiva a agir de tal forma é a sua raiva latejante. O fato de que evolutivamente possuímos predisposições comportamentais a nos indignarmos quando estamos sendo prejudicados e a reagir para não sermos impelidos à exploração por terceiros passam despercebidos por toda essa equação.


Justamente porque não experimentamos as razões evolutivas de nossos comportamentos, - e essas, por sua vez, permanecem ocultas de nossos sentidos e pensamentos corriqueiros - muitos chegam à errônea conclusão de que elas já não desempenham papel em nossas vidas. No entanto, esse recorrente erro, presente em diversas correntes das ciências sociais (como todas que se baseiam na ideia de pleno livre arbítrio), leva a uma percepção mal fundada acerca não só do comportamento individual do ser humano, mas como de seu comportamento social e também, portanto, da própria sociedade.


Foto da capa: Myriam Wares


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