A VERDADEIRA AUTOCRÍTICA



Muito se fala sobre a necessidade de autocrítica da esquerda e - principalmente - do Partido dos Trabalhadores. Falharam na emancipação política/educacional do povo. Falharam ao permitir o discurso anticorrupção se tornar o carro chefe dos conservadores e reacionários e a Lava Jato se tornar “a grande operação que salvaria o país”. Falharam ao colocar uma Presidente com pouca habilidade política, que não dialogava o suficiente e pouco ouvia deputados, governadores - e que tivera diversos erros em questões econômicas. Mas, sejamos honestos ao olhar para nossa democracia e também para nossa história: nossa elite política sempre foi conservadora e reacionária, a corrupção sempre existiu como mecanismo e o PT não destruiu o Brasil. A ascensão e eleição de Bolsonaro foi arquitetada pelo centrão e pela nossa direita e, sem a sua autocrítica, não conseguiremos reconstruir e consolidar uma democracia.


Decerto, não busco afastar os erros do governo petista, do qual tenho severas críticas, mas faço questão de observar melhoras significativas para confrontar o discurso de que ele acabou com o país. Inegavelmente, Lula foi o melhor presidente pós-redemocratização, instaurando programas sociais que classes privilegiadas quiçá conhecem por nome e que para muitos foi a chance de sair da extrema pobreza, do mapa da fome, de ter a tão sonhada casa própria e de ser o primeiro da família a entrar na universidade. Nosso Itamaraty era altamente respeitado, nossas políticas externas eram consolidadas, as vagas nas faculdades praticamente dobraram, os investimentos no SUS também, chegando a 120 bilhões no último ano de governo Dilma.


Foram 18 novas universidades, mais de 170 campus criados, ultrapassando 400 mil novas vagas criadas em faculdades públicas. O Bolsa Família - um dos principais programas sociais criados no governo Lula - chegou a contemplar 14 milhões de beneficiários que vivem em situação de vulnerabilidade e pobreza. Lula foi o governante com maior taxa de aceitação, com aprovação superior a 80% ao fim de seu mandato. Não obstante, conseguiu com seu governo postergar a chegada da crise de 2008 ao Brasil, que foi explodir no governo Dilma, junto à sua falta de habilidade política, às políticas econômicas falhas e ao vencimento da credibilidade que o mercado havia dado ao PT.


Independente das críticas ao governo petista e à sua necessidade de protagonismo na eleição de 2018, a escolha entre Haddad e Bolsonaro nunca foi uma escolha difícil. O “não é hora para extremismos” deveria favorecer Haddad, advogado, professor, ex-ministro da educação, ex-prefeito da maior cidade do Brasil com avaliações significativamente positivas em ambas as atuações. A importante alternância de governo ou mesmo qualquer outro fator crítico ao governo petista - como a corrupção - JAMAIS serão suficientes justificativas para qualquer defensor da democracia. Jair Bolsonaro é um ex-militar renegado que nunca escondeu seu apreço pela ditadura militar, seus flertes com torturadores e milicianos, além de seus discursos reacionários, machistas, misóginos, homofóbicos e racistas (e corruptos, também). Tampouco, Bolsonaro se mostrou competente em suas décadas como deputado - ou mesmo com conhecimento em qualquer área que seja. Pelo contrário, um incompetente declarado que nunca fez questão de esconder isso.


Categoricamente, para qualquer um do campo democrático a escolha não era difícil. A verdade é que o mandato do atual presidente deveria ter sido caçado em MUITAS oportunidades quando ainda era Deputado Federal, de forma semelhante ao que foi feito com Daniel Silveira. Não foram poucas as oportunidades em que ele exaltou a ditadura, torturadores, atacou o STF, nossa democracia ou mesmo nossa Constituição. A quebra de decoro sempre esteve presente em seus diversos mandados como deputado, mas foi nosso centro e nossa direita a sempre tratar tais atos com leniência. Como podemos, portanto, reconhecer que esses setores de nossa política estão comprometidos com a democracia? E não com interesses próprios ou mesmo escusos no Planalto?


Deles cabe uma autocrítica. Defender a democracia não deve ser um ato isolado, apenas quando um neofascista tupiniquim está no poder, mas uma luta constante para manutenção dessa estrutura. E foi esse setor político que se negou a apoiar o candidato da democracia no segundo turno de 2018. Em 2022, o setor progressista apoiará qualquer candidato no combate a Jair Bolsonaro e sua laia, mas levanto o questionamento aos outros espectros políticos do campo democrático: Vocês estão prontos para fazer o mesmo? BolsoDoria está pronto para isso? João Amoedo e sua renovação, estão? PMDB? Mandetta? Estão prontos para parar com o discurso de que “o PT e o Bolsonaro são farinha do mesmo saco” e possivelmente apoiar Haddad ou Lula?


O preço que estamos pagando por eleger essa “escolha difícil” ou não progredir com processo de impeachment vale - e valeu a pena? A omissão de vocês e a falta de caráter para defender o setor democrático está cobrando com milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas. Vocês precisam de uma autocrítica urgente, precisam estar preparados para apoiar quem estiver lá para combater o bolsonarismo. Poderá ser o Doria ou o Luciano Huck, mas poderá ser o Lula ou o Fernando Haddad. Caso não estejam prontos para isso, só seguem a tradição de se abster na hora. Vocês não defenderam a democracia em outros tantos momentos?... será que o farão agora?


Revisão: Guilherme Caruso e Cedric Antunes

Imagem de capa: Eduardo Cezimbra

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