ABRAÇO


Fazia muito tempo que não tinha insônia. Seus hábitos de sono não eram exatamente ideais, dormia tarde todos os dias e acordava mais tarde ainda, mas essa sempre fora uma escolha deliberada. Gostava de roubar para si as horas entre a meia noite e as duas ou três da manhã, quando o mundo podia ser inteiramente seu. Depois, acordava pouco antes do meio-dia, optando por trocar o começo da manhã pelas horas silenciosas da madrugada.


Contudo, o que aconteceu naquela noite não foi o furto deliberado de algumas horas, mas a perda absoluta da capacidade de dormir. Não a perda de sono, pois a verdade é que sentia muito sono, mas não conseguia fazer nada a respeito. Seus olhos pareciam incapazes de permanecer fechados por muito tempo, o travesseiro tornara-se desconfortável, o cobertor era hora muito quente, hora leve demais.


Depois de muitas horas deitada no escuro, finalmente desistiu e caminhou até a cozinha. O sol já nascera, penetrando pelas janelas da casa com uma luz fraca. Ela supôs que passasse um pouco das cinco e meia da manhã, mas não olhou o celular para ter certeza. Fez uma torrada e uma xícara de café preto para si mesma, mas a comida lhe caiu pesada no estômago. O resto do corpo também reclamava de fatiga: seus olhos ardiam e seus movimentos estavam lentos, mas sabia que não seria capaz de dormir, então o melhor seria se contentar com ficar acordada. Estirou-se no sofá da sala e esperou calmamente enquanto a cidade à sua volta começava a despertar e fazer barulho.


Naquele estado de ligeiro desconforto, deixou que sua mente divagasse. Pensou no abraço. Primeiro sem lhe dar grande importância. Depois pensou nele com raiva. Com raiva porque queria outro. Ainda conseguia sentir a emoção que lhe subira pelo peito na tarde anterior, ameaçando colocar lágrimas em seus olhos. Analisou a reação intensa que tivera diante do gesto de afeto, incapaz de compreendê-la. Fora apenas um abraço, e isso não era algo que lhe faltava. Era abraçada pelo pai, pela mãe e pelos irmãos diariamente. Eram bons abraços, pensou consigo mesma, mas eram os únicos que recebia.


Tomou um longo gole do café que, por não ser dos melhores, só seria prazeroso enquanto estivesse muito quente. Os abraços de seu pequeno núcleo familiar foram os únicos que havia recebido no último ano, percebeu, desconcertada. Todas as outras interações sociais tinham se resumido, toques de cotovelo, acenos distantes e, em raras ocasiões, um abraço dado pelas costas; um abraço unilateral, sem correspondência. E mesmo esses abraços cuidadosos e incompletos por vezes pareciam delituosos, uma brincadeira perigosa com a sorte. Sua pequena bolha familiar tinha se fechado rigorosamente atrás de máscaras de pano meses atrás, e os abraços ficaram do lado de fora.


Entretanto, nem todos pareciam vinculados às mesmas regras, pois na tarde anterior ela recebeu um abraço de alguém vindo de fora. Cruzara com ele na rua enquanto passeava com o cachorro. Reconheceram-se instantaneamente, apesar das máscaras e de não terem se visto por muito tempo. Era amigo de seus pais, um homem grande, já de cabelo ralo e quase todo branco, que ela conhecia desde pequena.


Ao se aproximarem, ela ergueu uma das mãos, preparada para um aceno, mas foi surpreendida por braços abertos: um convite para um abraço. “Posso?”, ele perguntou, ao ver que ela hesitava diante do gesto.


Não houve resposta imediata. Era incrível a ansiedade que uma palavra tão pequena lhe causara. Ele pode?, perguntava-se. Não devia, uma parte dela alertou, mas seria grosseiro recuar diante do homem mais velho, outra parte arguiu. Sentia-se tensa. Chegaria em casa e tomaria um banho, disse a si mesma. Não haveria problema. Sorriu e se aproximou, engolindo a ansiedade da melhor forma que pode.


O abraço veio apertado, "abraço de urso", de corpo inteiro, como um pai abraça uma criança pequena. Talvez os adultos que nos conhecem como crianças nunca aprendam a nos abraçar de outra maneira. Passam a nos ver como adultos, a falar conosco como adultos, a demandar de nós o que demandam de outros adultos, mas ainda nos abraçam como crianças. Ela sentiu-se tomada por uma forte emoção, cuja fonte não foi capaz de rastrear. Entregou-se ao abraço, sentindo toda a sua ansiedade diminuir, comprimida no pequeno espaço entre braços e tronco, toda a sua angústia contida, apertada, até que não pudesse lhe fazer mal nenhum. Quase chorou, mas não o fez porque lhe pareceu algo ridículo de se fazer naquelas circunstâncias. O sentimento de alívio que tomou seu peito, ela sabia, era desproporcional ao momento.


Seguiu-se uma conversa breve, comum, “como estão seus pais?” “Já terminou a faculdade?” “O que seu irmão está fazendo da vida?”, “O que fazemos com esse governo, hein?", “Quando isso acabar temos que nos ver, tomar um vinho...”, “Mande um beijo para todos”. Sem abraços na despedida.


Chegando em casa ela passou álcool nas mãos, colocou as roupas para lavar e entrou no banho. Que procedimento terrivelmente longo por conta de um único abraço… Contou aos pais quem tinha encontrado, eles ficaram felizes, disseram que precisavam realmente marcar um jantar quando tudo passasse, e a mãe disse que mandaria uma mensagem para o amigo mais tarde para saber como estava a família. Ninguém ficou sabendo sobre o abraço. O pai diabético, um dos irmãos com asma, não tinha porque dar a qualquer um, razão para ansiedade. Guardou a lembrança para si.

Agora, estirada no sofá, observando a luz que tomava conta do céu aos poucos, revivia a sensação com seu corpo todo: o aperto, o afeto de alguém que não via há muito tempo, o contato de outro corpo que não o das quatro pessoas com quem vivia. Sentia o abraço e sentia sua ausência. Sentia seu corpo todo comprimido contra o de outra pessoa, e sentia na pele o vazio da falta de contato. Em algum momento nos últimos meses convencera a si mesma de que estava bem, de que não sentia tanta falta assim. Já havia notícias da chegada das vacinas, só faltavam alguns meses. Não seria um problema, afinal nunca fora uma pessoa muito física. Beijinhos na bochecha e acenos sempre lhe foram mais comuns. Abraços leves e educados quando lhe parecia natural.


Abraços apertados, fortes, que tragavam a outra pessoa para dentro, raramente partiam dela. Não se opunha quando vinham de outra pessoa, gostava de ser abraçada, mas raramente abraçava. O gesto era reservado aos familiares, velhos amigos e aos poucos amantes que tivera na vida e, mesmo nessas circunstâncias, em doses homeopáticas. Não se considerava fria. Era mais como se às vezes se esquecesse de abraçar e o trabalho de lembrar daquela etapa fosse da outra pessoa. Que grande erro, pensou consigo mesma. Que grande, enorme desperdício.


O encontro da tarde anterior, entretanto, havia despertado nela uma profunda necessidade de contato. Uma fome que apertava cada vez mais o seu peito, uma necessidade física de ser envolvida e de envolver outra pessoa em resposta; de sentir toda a sua angústia diminuindo, comprimida para caber em um espaço diminuto, tão pequena que não fosse mais capaz de machucá-la. Deitada no sofá, sozinha, a falta imposta pelos meses de isolamento lhe causou ódio, instigando uma vontade profunda e visceral de gritar.


Não gritou.


Ao invés disso, procurou pelo livro que tinha deixado na sala na noite anterior, um romance grosso, daqueles que dão a sensação de que o marcador mal caminha entre as páginas, mesmo depois de horas de leitura. Encontrou-o ao lado da TV.


Estirou-se novamente sobre o sofá, livro em mãos, e leu até que a cidade, do lado de fora da janela, começasse a fazer barulho. Havia uma obra em andamento atravessando a rua. Quando começava a concretagem, o som se tornava ensurdecedor. A partir daí, já não era mais capaz de pensar em mais nada.




Revisão: Glendha Visani e João Vitor Vedrano

Imagem de capa: Alisher Kush

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