ADEUS À RUA ROCHA

No Espaço Aberto de hoje, nos é contado sobre o forte boato (mas que, provavelmente, terá sua veracidade atestada) da mudança da GV Direito da rua Rocha para a Avenida Paulista. E você, estudante de Direito da GV, vai sentir falta dos lugares e das personalidades que há 18 anos contribuem para a caracterização da Escola de Direito?

A Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (GV Direito) mudará de lugar. O boato, cada vez mais real, é que a volta da pandemia será direto para o prédio novo na Av. Paulista. Para quem não sabe, a sede da GV Direito fica hoje numa ruazinha que separa a região nobre daquela avenida da diversidade do Bixiga. Para muitos, essa rua discreta passaria despercebida. Mas não para nós.


A GV Direito está na Rua Rocha, 233, desde a sua fundação em 2002. Quinze turmas já passaram por lá. O prédio atual nunca foi grande. Pelo contrário, é inversamente proporcional ao ego da "elite jurídica" que o frequenta. Minúsculo.


Tudo estava do lado de fora: xerox, almoço, lanche, festa e bar. Foi desse modo que um misterioso vínculo surgiu entre os alunos e a rua, que os une até hoje.


Cenas assim são comuns: como a gazela idiota que adentra sem perceber o território do leão faminto, um calouro ousa pagar uma impressão de R$ 0,50 no cartão de crédito.


  • Tá louco? Aqui não é banco não, diria dona Nice, antiga sindicalista e dona enfurecida da Nice Cópias.


  • Segundo o Código de Defesa do Consu…, tentaria responder o careca infeliz, antes de ter sua inocência maculada.


O resto quem viu sabe. Dona Nice guarda com carinho cadernos das primeiras turmas, mas não trata com a mesma graça "pequenos ministros". Toda razão a ela. A cópia é R$ 0,25; a paulada de humildade, gratuita.


Nos últimos anos, outro fenômeno na rua foi a expansão vertical do Bella. O primeiro negócio de Lucas, o Lobo da Rocha Street, foi o Bella Gastronomia, depois o Bella Park e agora o Bella Açaí. Pelo avanço do monopólio, o próximo será Bella Escola de Direito. Ou loja de explosivos. Pode ser qualquer coisa.


Entre refeições, o Café Família sempre foi o lugar de pouca fome e muita conversa. Para os íntimos: "Vamos no Evaristo?". Para os burros: "Vamos no Everaldo?". Deus sabe quantas ressacas já foram curadas ali. Dica: o suco "antigripe" não é só antigripe.


Menção honrosa aos lugares não tão tradicionais, mas que tocam nossos corações e mentes: All Pães com seu carisma inexplicável, Gil Cabeleireiro para afinar o bigode antes do Churras dos Bixos, o delicioso Donas Café, as vendinhas do milho e da tapioca, a feira de terça, o Delizi (na Itapeva, mas ok), o RIR Park, a Livraria Simples, o Xaveco, o Little Saigon, entre muitos outros. Um minuto de silêncio pelo fechamento do Titus Bar, local de congraçamento dos professores, e de alunos sem muitos amigos.


Deixamos o melhor para o final. E não é o melhor por ter mais classe que os outros. Não tem. Mas o ponto é exatamente este: é o melhor pelo que representa.


O FJ Lanches, chamado de Chico em alusão ao balconista mais famoso da região, é o bar dos alunos da GV Direito por excelência. E não o Shokitos - pelo amor de Deus.


Quem nunca levou uma fungada no cangote do Chico, ou foi chamado por ele de "Caio" independente do seu nome, não sabe o que é viver. O que torna o bar tão especial, contudo, é que ele não pertence só aos alunos, mas à toda rua e aos seus personagens icônicos que surgem com o pôr do sol.


É lá que temos hora para chegar mas não para ir embora. Chegada: quando acaba a aula ou antes. Depois das 18 horas, a Rua Rocha é outra. Os seres da vida noturna vêm ao encontro dos jovens: o Serjão, nosso patrono da boemia; o Mago da Rocha, com seu chapéu de bruxo; o "Wagner Moura" da Rocha; o Paulinho e o Pedrinho do Bella; o Senhor Miyagi; o Espírito Empírico; o Trio Napoleão de goldens retrievers; a Família Enzo de pugs, e tantos outros.


De lá que saímos ao violar a regra que proíbe entrar alcoolizado nas dependências da faculdade, levando o método socrático ao extremo (levanta a mão primeiro, pensa no que falar depois). É o Direito freestyle.


Foi lá, enfim, que vivemos com dedicação, amor e coragem a maior parte da graduação. Engana-se quem pensa que o bar é só bebida. É sobretudo união. União entre calouros, veteranos e ex-alunos (todos "Caio" para o Chico), com copo na mão e um "duvidoso" no bolso. União, principalmente, entre universitários e sua rua, sempre a postos para uma Festa do Pren ou para um Esquenta da Peruada.


Tomar umas no Chico com amigos enquanto o sol se põe é ato de uma grandeza épica. Difícil, para não dizer impossível, que as novas gerações de alunos encontrem uma fração desse universo na Av. Paulista.


A história universitária da GV Direito é daquelas que quando se conta ninguém entende. Dizemos: "É que contando assim fica ruim, na hora foi melhor", etc. A verdade é que só quem viveu sabe. Temos uma história breve, sem antigas tradições, cantos e ritos centenários, mas temos uma rua que nos precede. É impossível contar a nossa história sem contar a da Rua Rocha. A identidade do universitário que passou por aqui foi construída no seu asfalto, em cada grão mineral que havia sob os nossos pés, do dia em que caminhamos de "elefantinho" até o famoso estacionamento, até o dia em que deixamos o Sublepi pela última vez.


Foto da capa: FGV DIREITO SP

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