AMORES EM TEMPOS DE BALDEAÇÃO



Nos trilhos da vida, já conheci muitos amores, como se o bater dos corações fosse o responsável por girar as minhas engrenagens. Eles estão em todos os lugares: em olhares desatentos na linha amarela, em marchas apressadas que partem de Jabaquara até a Sé, perdidos na Vila Madalena em direção ao Paraíso. O amor está constantemente cruzando o mapa colorido do metrô de São Paulo, indo de estação em estação. Tem sempre aqueles que se encontram na porta e seguem juntos até o fim da linha e outros que se separam logo na primeira baldeação. Tem alguns que começam em alta velocidade, como se fosse impossível segurar os freios do coração e tem aqueles que estão sempre esperando o momento certo para chegar na próxima estação. Tem até mesmo os passageiros usuais, os que vivem presos na catraca de suas rotinas, que esperam suas almas gêmeas todos os dias na mesma entrada do mesmo vagão, se esquecendo que, de vez em quando, o amor acaba entrando pela saída em meio à confusão.


Para ser honesto, tenho certeza de que já vi mais corações do que celulares roubados dentro dos meus vagões. Não consigo evitar uma nostalgia efêmera dos dias em que vi o amor pela primeira vez, quero dizer, ele sempre esteve lá, mas era o tipo de coisa simples que eu, ocupado demais com a vida, nunca tinha parado para olhar. Havia dias nos quais ele andava escondido entre os passageiros, palpitando em um pequeno toque de dedos que se entrelaçavam preguiçosamente em meio à multidão. Já em outras ocasiões, o amor gritava pelos alto-falantes avisando que dois corações haviam finalmente chegado ao seu destino, prontos para embarcar na incerteza do acaso.


Havia semanas nas quais, em meio ao cheiro doce do caos diário das plataformas lotadas, eu podia jurar que o amor havia acabado. Quando alguém se recusava a ceder seu lugar para um par de pernas já cansadas de andar pelas ruas do tempo, quando os passos apressados eram mais rápidos que o ritmo compassado da vida, quando as mãos desenfreadas dos homens davam início aos seus trajetos sob os corpos das mulheres… Nesses momentos, eu tinha certeza de que faixas amarelas interditavam os batimentos já cansados do meu coração. Entretanto, eram nesses dias que eu me forçava a recordar dos toques singelos, dos olhares interessados e das palavras nunca ditas, me obrigando a ter um pouco mais de paciência. Eu sabia que tinha algo pelo qual esperar. Que, às vezes, é preciso olhar fixamente para o trilho vazio antes da inevitável chegada do próximo vagão. Assim, deixava o condutor da esperança me guiar para a estação da Luz, onde sabia que os passageiros antigos sairiam junto às minhas angústias, abrindo espaço para novas histórias sobre almas atarefadas em busca de algo tão simples e complexo como o amor no metrô.


Autoria: Victorya Pimentel

Revisão: André Rhinow e Beatriz Nassar

Imagem de Capa: Wingingstones NTAB STUDIO/Dribbble