ANOS CONFUSOS E ATORDOANTES: UMA ANÁLISE DE DAZED AND CONFUSED

O texto de hoje foi enviado para a Gazeta Vargas por nosso membro Joaquim Villar enquanto ele prestava nosso Processo Seletivo, e discorre sobre o filme Dazed and Confused e a temática "coming-of-age" que norteia o filme. Vem saber mais!


É notório o sub-gênero de filmes “coming-of-age”, ou filmes “de amadurecimento”, em tradução livre. De American Grafitti (1973) aos recentes Superbad (2007) e Lady Bird (2018), são muitos os exemplos que retrataram de maneira sensível o processo de crescimento, com suas angústias e deleites. Em Dazed and Confused (1993), o diretor Richard Linklater eleva esse modelo ao seu ápice. A história do último dia de aula de um grupo de jovens do Texas no meio da década de 70 se tornou um clássico cult e demonstrou como a adolescência pode ser abordada de maneira profunda, ainda que despretensiosamente.


A época na qual a trama se passa já é, por si só, um aspecto enriquecedor do filme. Os anos 70 foram, de certa forma, a “adolescência” do Ocidente. Se na década de 50 e na primeira metade da de 60 o bloco capitalista teve no crescimento econômico do pós- guerra a sua infância alegre e esperançosa, o final dos anos 60 trouxe as desilusões da juventude. A Guerra do Vietnã, Watergate e o Choque do Petróleo levaram milhões de estadunidenses a perceberem a insustentabilidade do American Way of Life. Os jovens de Dazed and Confused, portanto, estão, como o título indica, confusos. Além de se preocuparem com namorar, beber e se formar, eles se afligem com economia e as incertezas da vida adulta em uma realidade diferente daquela que lhes prometeram quando crianças. Os versos de Show Me The Way, de Peter Frampton, ecoam esse sentimento na trilha sonora. Qual é o caminho? Para onde vou depois daqui?


Ainda assim, o último dia de aula é, inicialmente, percebido por Pink e seus colegas como mais um dia qualquer. Ao seu decorrer, porém, crescem. Nada é mais como era há poucas horas. Os jovens calouros, como Mitch, são perseguidos ao longo do dia por seus veteranos, e encerram-no menos crianças do que antes. Os veteranos, por sua vez, se despedem, de maneira agridoce, da sua juventude. Ao mesmo tempo que pacata e por vezes sufocante, a vida suburbana dos jovens texanos é divertida e despojada. O clima é de despedida, de perda, como na canção Tuesday’s Gone, de Lynyrd Skynyrd, tocada no terceiro ato da película.


O mérito de Linklater está, porém, em retratar essa transição dolorosa de maneira leve. Sua direção transporta o espectador para dentro da tela; a sensação é de estarmos dentro dos carros, conversando com nossos amigos, rindo e ouvindo música. Suas frustrações, assim como suas alegrias, também são nossas. A viagem da adolescência é tortuosa, porém é compartilhada. A letra de Free Ride, escutada na rádio dos personagens, é clara: “Venha e faça um passeio livre/Venha e leve-a ao meu lado”.


Talvez seja essa a melhor característica de um bom filme “coming-of-age”: lembrar que crescer ao lado de seus amigos é uma dádiva.


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