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ATÉ ONDE SUA INDIGNAÇÃO TE LEVA?



Na última semana (09), viralizaram vídeos de uma mulher branca chicoteando um entregador de delivery com uma coleira de cachorro em São Conrado, no Rio de Janeiro. Por mais chocante que seja a cena, ela não se trata de um episódio incomum na rotina dos negros brasileiros.


Sandra Mathias, a agressora, está sendo investigada pelo crime de injúria racial e foi banida do aplicativo iFood [1]. Max Ângelo, o entregador, recebeu apoio nas redes sociais, uma vaquinha que já alcançou a marca de R$206.379,88 [2] para comprar uma sonhada casa própria, além de ter ganhado uma moto e uma bicicleta elétrica da plataforma de delivery. Parece que tudo se encaminha para um desfecho satisfatório, se daqui uma semana nós não víssemos a história se repetindo, com uma outra Sandra, um outro Max, em algum outro lugar do Brasil. E o ciclo se reproduz, todo dia, toda semana, todo mês, sem previsão de fim.


Mas voltemos ao passado:


25 de maio de 2020, Mineápolis, Estados Unidos: George Floyd morre asfixiado por um policial que ajoelha em seu pescoço, impossibilitando a sua respiração. 25 de maio de 2022, Sergipe, Brasil: Genivaldo de Jesus Santos morre asfixiado por policiais que o prenderam em um porta-malas com uma bomba de gás lacrimogêneo, impossibilitando a sua respiração.


Dia 02 de junho de 2020, por um dia, todos serão antirracistas: #blackouttuesday (em português, terça-feira do blecaute). “Vamos todos dar uma pausa nas nossas redes sociais por 24h para mostrar como nos importamos com o movimento negro”, sugeriu algum branco.


Após a morte de George Floyd, os Estados Unidos entraram em chamas, e o mundo inteiro acompanhou, inclusive o Brasil. Todos se solidarizaram com a cruel e brutal morte do 121° homem negro assassinado por um policial nos EUA em 2020 [3]. Naquele mesmo ano, cerca de 5.062 negros morreram no Brasil por algum tipo de intervenção policial [4]. Quantos dias de antirracismo cada jovem negro brasileiro mereceu? Quantos compatriotas se solidarizaram com suas famílias? Exatos dois anos depois do assassinato de George Floyd, Genivaldo Santos teve sua vida ceifada por policiais. Mas quem se importa? Afinal, todo dia cinco negros morrem por aqui [5].


Uma professora negra se despe em um supermercado, um entregador é açoitado com uma coleira de cachorro, participantes do maior reality show brasileiro sofrem com racismo recreativo, 523 vítimas são resgatadas em condições análogas à escravidão, tudo isso nos quatro primeiros meses de 2023. Mas quem se importa? Afinal, o que são alguns registros de injúria racial e racismo ou centenas de pessoas escravizadas comparado a 388 anos de escravidão?


Talvez, nós negros, devamos ser gratos por não vivermos mais no período escravocrata, por não termos senhores ou sermos diariamente chicoteados. Esse papo de racismo só alimenta as diferenças, no fim, a raça é humana, somos todos iguais. Eu pergunto, honestamente, a você, leitor, me responda: nossas diferenças, de fato, ficaram no passado? Você realmente se importa com as centenas de vidas negras interrompidas pelo racismo? Ou elas só valem a tela preta postada no feed do seu Instagram há 2,5 anos?


Em 2020, o legado dos 400 anos de escravidão no Brasil veio à tona: uma criança faminta bate à porta de uma família abastada e durante 38 anos é mantida em condições análogas à escravidão. A família Milagres Rigueira privou Madalena de acesso à educação, ao lazer, a uma família, ela não pôde ser criança. Com 46 anos, Madalena não sabia se expressar verbalmente, tampouco escrever, pois ela não viveu sua vida, mas sim as de seus patrões. Quantas Madalenas existem Brasil afora? Quem está se preocupando com as crianças que têm suas vidas roubadas pela elite colonizadora? Quais são as políticas de prevenção e punição?


Em junho do ano passado, episódios da série de podcast “A Mulher da Casa Abandonada” foram baixados milhões de vezes. O podcast, feito com base em jornalismo literário e investigativo, expôs um caso de trabalho análogo à escravidão. Por duas décadas, Margarida Bonetti e seu marido, René Bonetti, mantiveram uma mulher negra em uma regime de “semi-servidão”, em que a humilharam, a agrediram fisicamente e a privaram de cuidados médicos, nos Estados Unidos, onde René foi investigado e condenado, e Margarida é procurada [6]. O podcast evidencia e explica que “a mulher da casa abandonada” deixou os EUA para não ser investigada e condenada pelos abusos contra a sua empregada, não se pode ignorar esse fato.


A produção que poderia ser utilizada como um canal de denúncia e alerta ao que chamam de escravidão moderna, se tornou um espetáculo de horror: o público em geral não se revoltou com o crime cometido, não buscou por justiça ou demonstrou sua insatisfação com a impunidade da foragida, pelo contrário, parte dos ouvintes deram fama e notoriedade para Margarida.


Transformaram a mansão abandonada em um ponto turístico, tiraram fotos, gravaram vídeos, aguardavam ansiosamente pela aparição da proprietária e até chegaram a dizer que, em razão da sua falta de higiene, do seu rude comportamento e das condições precárias da casa, Margarida Bonetti precisava da nossa ajuda. Ninguém se importa que uma mulher teve vinte anos de sua vida roubados e carregará cicatrizes desse período por toda a sua existência.


Em 2023, pela terceira vez, uma prestadora de serviços contratada pela produção do festival Lollapalooza foi denunciada pelo Ministério do Trabalho e Emprego por sujeitar trabalhadores a condições degradantes. O ciclo de 2018 se repetiu em 2019, que se reproduziu em 2023 e, sejamos realistas, irá se repetir ano que vem. Ninguém se importa se o segundo maior festival de música do país, e o maior do estado, permite que pessoas em situação de rua trabalhem 12 horas por dia para receber R$50.


Não quero aqui dizer que você, leitor, deve protestar em frente às casas de Margaridas, Sandras ou Milagres Rigueira, nem boicotar um supermercado ou o seu festival de música favorito. Muito menos que vaquinhas e publicações em redes sociais não são relevantes. De imediato, toda ação é importante, mas, a longo prazo, não faz diferença alguma. Todos os dias, o racismo é perpetuado nas suas, querido leitor, pequenas ações.


Como mulher negra, eu poderia lhe dizer como o racismo me afeta todos os dias ou como juntos podemos combatê-lo. Mas este texto não é um manual. Não busque em seus amigos pretos um letramento antirracista, você tem 523 anos de história que te mostram o que não fazer.


Revisão: Anna Cecília Serrano, Artur Santilli e Gabriela Veit


 

FONTES:

[1]: Ex-jogadora de vôlei que chicoteou entregador é atacada em suas redes sociais: "Racista" | Folha PE. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: < https://www.folhape.com.br/noticias/ex-jogadora-de-volei-que-chicoteou-entregador-e-atacada-em-suas-redes/265907/>

[2]: Famosos apoiam e vaquinha virtual para entregador “chicoteado” ultrapassa objetivo | Revista Fórum. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/brasil/2023/4/16/famosos-apoiam-vaquinha-virtual-para-entregador-chicoteado-ultrapassa-objetivo-134365.html>

[3]: Mapping Police Violence. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: <https://mappingpoliceviolence.us/?gclid=CjwKCAjw8-OhBhB5EiwADyoY1TrlPwbwSI28i2MnMkeIts9FU5YXTCqLPcmEJiRfOMikezsWIKJiDhoCmkAQAvD_BwE>

[4]: Mortes de negros em ações policiais no Brasil são 2,8 vezes maiores que de brancos. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/mortes-negros-acoes-policiais-brasil-vezes-maiores-brancos/#:~:text=Dados%20do%20F%C3%B3rum%20Brasileiro%20de,78%2C9%25%20eram%20negros>

[5]: Cinco pessoas negras morreram por dia em ações policiais em 2021 no país; RJ registra o maior número de mortes, diz pesquisa | Rio de Janeiro | G1. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/17/cinco-pessoas-negras-morreram-por-dia-em-acoes-policiais-em-2021-no-pais-rj-registra-o-maior-numero-de-mortes-diz-pesquisa.ghtml>

[6]: Relembre o caso de escravidão contado no podcast 'A mulher da casa abandonada' - Notícias - Estadão. Acesso em 14 de abril de 2023. Disponível em: <http://m.acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,relembre-o-caso-de-escravidao-contado-no-podcast-a-mulher-da-casa-abandonada,70004121252,0.htm#:~:text=%2D%20Bonetti%20foi%20condenado%20a%206,havia%20viajado%20para%20o%20Brasil>



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