BACO EXÚ: ENTRE A SOCIOLOGIA E A RELIGIÃO


Por Bruno Pekler


Na tentativa de responder à pergunta “o que são os judeus?”, Bernardo Sorj, em seu livro intitulado “Judaísmo para todos", elabora um capítulo destinado a contar sobre o que ele chama de judaísmo bíblico. Nele, o sociólogo judeu descreve como se consolida o judaísmo na Bíblia, passa brevemente por diferentes livros e em determinado momento nos fala sobre os profetas, que segundo ele “ocupam um lugar central” na história e na trajetória do povo judeu:

“O grande desafio dos profetas foi explicar as derrotas, a ocupação, o exílio e a destruição dos reinos de Israel e Judeia. Afinal, a Bíblia construía uma história de um povo pequeno que consegue enfrentar os inimigos mais poderosos graças a sua aliança com Deus. O que teria acontecido com essa aliança? A resposta dos profetas foi que o abandono dos mandamentos divinos pelos reis, e por vezes também pelo povo, teria levado Deus a retirar a proteção a Israel. Os grandes impérios teriam sido instrumentos de Deus para castigar o povo judeu. Mas o pacto de Israel com Deus seguiria vigente, e finalmente, com a chegada do Messias, Israel voltaria a recuperar seu esplendor e ser or lagoim, luz para os povos.” (Pág.27)


Gostaria de chamar a atenção para um aspecto específico do trecho acima, a fim de nos encaminhar ao questionamento que motiva a presente escrita: Sorj conta que, pressionados a explicar o porquê das derrotas do povo judeu ao longo da história (o exílio, a destruição dos templos, etc.) mesmo sendo o povo com o qual Deus teria feito uma aliança, os profetas respondem que esses trágicos acontecimentos teriam sido um castigo por terem se desviado dos mandamentos divinos.


Saindo do texto e trazendo-lhes uma experiência, já há alguns anos, estava eu em um típico “shiur” (aula) de uma típica sinagoga ortodoxa na cidade de São Paulo. Durante a aula, o Rabino, homem que se apresentava como conhecedor de muitas causas e causos, inclusive com uma forte narrativa anticomunista, por ter nascido e sofrido em terras soviéticas, falava ao grupo de uma dúzia de alunos judeus sobre o Holocausto e a difícil trajetória dos judeus naquele momento.


Eis que, em determinado momento, um dos alunos faz uma importante pergunta: “Mas Rabino, onde estava Deus na Shoá?” O aluno queria saber afinal como Deus permitiu que a tragédia acontecesse, como não interveio?


O Rabino responde que a Shoá (palavra hebraica para o Holocausto) aconteceu porque os judeus, naquele momento, estavam se distanciando das leis judaicas e entrando no tão temido (por parte de alguns judeus) mundo da assimilação, portanto, como Deus não queria que seu povo se afastasse da aliança pré-estabelecida no tempo bíblico, enviou mais esse acontecimento, que poderia entrar para a lista de castigos dos quais os profetas falavam.


A narrativa é, no mínimo, assustadora. Ora, quer dizer que Deus, figura popularmente conhecida como “bom” no ditado “Deus é bom”, é capaz também de castigar? Quer dizer então que há judeus que creem que o Holocausto pode ter sido uma resposta divina ao processo de assimilação em curso na Europa?


A ideia de castigo é, por definição, uma sanção que reprime um comportamento considerado inadequado. Se algo é considerado inadequado, há também o que seja adequado, e da mesma maneira a qual 1+1=2, vemos um julgamento moral entre o certo e o errado feito por Deus.

A não ser que entendamos o castigo a partir de uma perspectiva perversa em que vem para o “bem” do castigado, podemos concordar que exilar um povo, destruir seu templo ou praticar genocídio é, por si, uma prática maldosa ou vingativa. Ora, então Deus também é maldoso e vingativo?


Passamos então para a segunda parte de nossa reflexão:



O trecho acima é lido em Gênesis 1:26, e pouco importando no momento o problemático domínio do homem sobre os peixes, os outros seres e a própria terra, Gênesis conta de que forma Deus fez o homem: à sua imagem e semelhança. Então há um pouco de Deus no homem.


Homem este que, ao longo da história, em nome da religião, do dinheiro ou do poder, foi capaz de: exilar, destruir e matar. Assim como fez Deus, de acordo com o Rabino ortodoxo soviético.


O homem é mau e vingativo, assim como Deus. Ou será que Deus é mau e vingativo, assim como o homem?


Deixando a sociologia e a Bíblia de lado por um momento, convido o leitor a abrir um reprodutor de mídia de sua preferência e pesquisar por uma música de um dos ícones da cena do rap brasileiro dos dias de hoje: “Ésú”, composta por Baco Exu do Blues. Desfrute do incrível som e volte aqui ao terminar.


Reprodução Base 071/David Campbel


Na última estrofe da canção, Baco questiona:


“O mundo é fruto da nossa imaginação Será que somos deuses ou sua criação O mundo é fruto da nossa imaginação Será que somos deuses ou sua criação Sua criação, sua criação Nós somos deuses ou sua criação Sua criação, sua criação Nós somos deuses ou sua criação”


Se Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, o homem também é mau e vingativo. Mas, nos deixando inspirar pela música brasileira, talvez tenha sido o homem quem criou Deus. Então foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança, e talvez por isso Deus também seja mau e vingativo.


E então leitor, o que acha? Somos criação dos Deuses? Ou nós mesmos os criamos, e por isso somos nós os Deuses?




Revisão: Glendha Visani

Imagem de capa: Reprodução Base 071/David Campbel

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