BAHIA: FIM DE ANO MARCADO POR CHUVAS TORRENCIAIS



Vinte e seis vidas foram levadas pela água. Cento e cinquenta e sete municípios decretaram estado de emergência. Vinte e nove mil duzentos e quarenta e três pessoas desabrigadas. Esses são alguns dos vestígios da intensa temporada de chuvas no sul da Bahia até o dia 4 de janeiro de 2022.


"É uma tragédia gigantesca. Não lembro se na história recente da Bahia tem algo dessa proporção. É algo realmente assustador o número de casas, de ruas e de localidades completamente embaixo d’água", afirmou o governador da Bahia, Rui Costa. [1]


As fortes chuvas que atingiram a região do estado baiano e o norte de Minas Gerais começaram no início de dezembro do ano passado e se acentuaram na véspera de Natal. Segundo meteorologistas, a duração e a intensidade dos temporais estão atreladas a diversos fatores: o principal deles é o fenômeno La Niña, que causa chuvas intensas, aumento do fluxo dos rios e inundações subsequentes nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, além da seca no Sul do país. [2]


Além disso, a formação da depressão subtropical — evento meteorológico incomum, caracterizado pela formação de nuvens, ventos, tempestades e agitação marítima, podendo avançar para uma tempestade tropical [2] — na região costeira do Brasil também explica os atípicos fenômenos climáticos do último mês.


Em agosto do ano passado, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em português) alertou que eventos climáticos, como chuvas prolongadas, enchentes, tempestades, ondas de calor e seca, teriam maior frequência e intensidade devido às mudanças climáticas [3]. Cientistas têm feito este alerta há anos. E, hoje, a tecnologia possibilita mensurar o tamanho, a frequência e o impacto dos eventos no planeta — alguns deles podem ser irreversíveis:


​"Há mudanças irreversíveis mais óbvias, como o derretimento de geleiras: essa água não vai voltar a congelar. E há outras mais sutis, como a perda de biodiversidade. Se uma espécie é extinta, isso não é reversível", aponta Paulo Artaxo, físico da USP e membro do IPCC [3].

Até o dia 4 de janeiro, 153 cidades baianas estavam em estado de emergência. O maior município da região sul do estado, Itabuna, teve cerca de 40% de seu território devastado e milhares de famílias ficaram desabrigadas [4].


O risco de rompimento das barragens também preocupava a população baiana. A Barragem de Iguá se rompeu no dia 25 de dezembro, deixando em alerta as cidades de Itambé e Vitória da Conquista [1]. O monitoramento prévio da região e os alertas emitidos para a população permitiram que não houvesse feridos. Em Jussiape também houve registro de rompimento de barragem, e moradores precisaram deixar suas casas.


A catástrofe no estado mobilizou diversas pessoas físicas, empresas e governantes de outros estados a enviarem suprimentos à Bahia. Em meio a isso, a Chancelaria Argentina ofereceu assistência ao Brasil, a qual foi recusada pelo Governo Federal, com a justificativa de que os recursos pessoais e financeiros nacionais eram suficientes para lidar com a crise [5].


"A avaliação foi de que a ajuda argentina não seria necessária naquele momento, mas poderá ser acionada oportunamente, em caso de agravamento das condições. A resposta do Ministério das Relações Exteriores à Embaixada Argentina é clara a esse respeito", explicou o presidente Jair Bolsonaro em sua rede social.


Ao contrário do Governo Federal, no dia 30 de dezembro, o governador da Bahia aceitou a ajuda argentina por meio das redes sociais:


"A Argentina ofereceu ajuda humanitária às cidades afetadas pelas chuvas na Bahia, apesar da negativa do Governo Federal. Me dirijo (sic) a todos os países do mundo: a #Bahia aceitará diretamente, sem precisar passar pela diplomacia brasileira, qualquer tipo de ajuda neste momento."


Desde o início de 2022, o governo baiano tem se mobilizado para a recuperação da infraestrutura das cidades atingidas pela chuva, reconstrução de moradias, liberação de créditos para comerciantes e entrega de kits básicos com colchões, geladeiras e fogões para algumas famílias.



Revisão: Beatriz Nassar e Bruna Ballestero

Capa: Amanda Perobelli/Reuters | G1

 

FONTES:

[1]: Chega a 18 total de mortos em enchentes que atingem 58 cidades na Bahia - 26/12/2021 - Cotidiano - Folha

[2]: Chuvas na Bahia: os fenômenos extremos que causam a tragédia no Estado - BBC News Brasil

[3]: Crise climática já agrava secas, tempestades e temperaturas extremas e é irreversível, diz painel do clima - 09/08/2021 - Ambiente - Folha

[4]: Itabuna volta a registrar tempo instável e situação preocupa moradores de áreas atingidas pela chuva | Bahia | G1

[5]: Após recusa do governo federal, Argentina oferece ajuda direta à BA e governador diz que aceitará sem passar pela diplomacia brasileira | Bahia | G1