BRANQUITUDE, UM LUGAR DE TRANSPARÊNCIA TOTAL


A revista nº 106 da Gazeta Vargas coloca o Brasil em frente ao espelho. Esmiuçando os acontecimentos históricos e as construções políticas e sociais que nos trouxeram até aqui, pretendemos expor as raízes, troncos e frutos do nosso legado colonial, trazendo reflexões urgentes e atemporais sobre o arranjo nacional. Apesar do esforço, um elemento central dessa narrativa continua silenciado: qual o nosso próprio reflexo no espelho?


Fazemos parte de uma entidade composta majoritariamente por pessoas brancas e frequentamos uma faculdade em que se contam nos dedos os estudantes negros admitidos a cada ano. A realidade de espaços predominantemente brancos é naturalizada entre as classes média e alta no Brasil, e o conformismo é a regra mesmo dentre os pretensamente esclarecidos no que diz respeito às tensões raciais. Mas fato é que nós, alunas e alunos da Fundação Getulio Vargas, somos a chamada “elite intelectual” do país, e, como toda elite intelectual que se preze, queremos ser vanguarda, críticos do nosso tempo — nós nos incomodamos! Mas isso basta?


Como grupo estudantil, foram poucas as ações que questionaram este lugar da branquitude e se puseram a refletir sobre o seu papel na luta do movimento negro, resultando na ausência de ações de fato antirracistas. A psicóloga e ativista Cida Bento define esse desconforto passivo e conveniente como branquitude crítica. A expressão foi cunhada para definir a conformação nacional frente às tensões raciais, na qual a maior parte das pessoas desaprova publicamente o racismo, embora, no âmbito privado, não necessariamente não seja racista. No país da miscigenação, a retórica da diversidade pode funcionar como uma apologia para que grupos hegemônicos não sejam constrangidos a refletir sobre a reprodução de discriminações. Nesse sentido, a autora da obra O Pacto da Branquitude situa a consciência da branquitude e suas reverberações cotidianas como um ponto de inflexão para distinguir quando e como um discurso contra o racismo pode se transformar verdadeiramente em uma prática antirracista.


Reflexos sem cor

Rememorando a longa trajetória nos estudos sobre o modo como o fator racial permeia as relações de trabalho no Brasil, Cida Bento relata dinâmicas realizadas nos processos de formação com o movimento sindical que tinham por objetivo discutir as desigualdades raciais brasileiras. Uma das perguntas feitas aos participantes era “O que significa ser uma pessoa negra ou branca no Brasil?”. Diante da questão, a psicóloga afirma que as pessoas negras reconheciam a diferença no tratamento que recebiam socialmente, enquanto as brancas respondiam que “Ser branca significa ser uma pessoa como outra qualquer! Significa ser humano”.


As respostas são resultado de uma consciência coletiva apoiada na centralização histórica do hemisfério ocidental, que operou a naturalização da branquitude, tornando-a uma referência cultural. Nesse contexto, a racialização dos grupos não brancos se dá a partir da sua comparação com esse modelo, que se apresenta como uma régua para medir o encaixe do indivíduo na sociedade — da oposição, surge a ideia de um Outro, inadaqueado e passível de discriminação e exclusão. O branco é o ser humano universal e tudo que difere dele é racializável.


Pessoas brancas são condicionadas a enxergar a raça como algo que não constitui sua identidade, mas que reflete a do Outro, distanciado da norma. Nesse sentido, o professor e jurista Adilson José Moreira afirma que, pela incapacidade de alcançar fenotipicamente os padrões que permitem a humanização do ser, o negro só pode ocupar um “não lugar”, enquanto o ser branco é um lugar de transparência total.


A desigualdade se traduz em números: entre 2019 e 2020, apenas 7% dos alunos da graduação em Direito da FGV se autodeclaravam negros (sendo 6% pardos e 1% pretos), enquanto 85% eram brancos. Nas outras escolas da Fundação, o cenário não é muito diferente, em Administracão Pública, o curso mais diverso entre os analisados, 18% do corpo dicente era negro (7% pardo e 11% preto) e 75% branco. Os dados socioeconômicos e raciais de cerca de 626 alunos foram coletados em uma pesquisa conduzida pelo então aluno de Administração Pública, Nícola Fini, com o objetivo de responder à pergunta: “Qual é a relação entre fatores externos ao ambiente e convívio escolar e o desempenho dos estudantes?”.


Pacto narcísico, o mito da meritocracia

É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas ou silenciadas.

Cida Bento


Cida Bento conceitua o pacto narcísico como o contrato subjetivo não verbalizado por meio do qual as pessoas brancas se identificam e se constituem herdeiros dos benefícios inerentes à branquitude. Historicamente, as disparidades no acesso a educação, trabalho, moradia e outros direitos básicos entre negros e brancos no Brasil têm origem no período escravocrata e no fato de que, enquanto os primeiros eram oprimidos e violentados, os últimos lucravam com a exploração daqueles corpos.


Podemos observar que a comunidade negra, ao se organizar, resgata a sua herança cultural e passa a questionar o passado colonial e o racismo sistêmico. Enquanto isso, as pessoas brancas, que levam a vida ignorantes de que têm uma cor, ignoram também a sua ascendência assassina e se beneficiam da ausência de um discurso explícito sobre o papel dos brancos na história do país, silenciando sobre a herança escravocrata, concreta ou simbólica. Para Bento, “os pactos narcísicos exigem a cumplicidade silenciosa do conjunto dos membros do grupo racial dominante e que sejam apagados e esquecidos os atos anti-humanitários que seus antepassados praticaram”. Isto é, os brancos continuam tirando proveitos dos quase 400 anos de escravização do povo negro e, para não reconhecerem que o lugar social ocupado está vinculado às atrocidades cometidas por seus ancestrais, criam mitos como a meritocracia ou a vigência de uma democracia racial no país, em uma tentativa de isentar a sociedade contemporânea da responsabilidade pela discriminação racial e apaziguar a culpa branca.


Parte do acordo tácito constituído no pacto narcísico está ancorado na transmissão dos privilégios de uma geração à outra e na manutenção do status quo. A elite se beneficia das enormes desigualdades em investimentos educacionais e se esforça para oferecer as mesmas oportunidades educacionais aos filhos, o que lhes garante melhores oportunidades de trabalho e de salário. Dessa forma, em contrapartida aos benefícios acumulados, os herdeiros brancos se comprometem a reconstruir a história positivamente e aumentar o legado, transmitindo os privilégios raciais às gerações seguintes e apelidando-os de “mérito”.


Em 2016, a FGV foi processada por André Luiz, um professor negro que teve negada a utilização de políticas afirmativas de cotas raciais em um concurso público para a rede municipal de São Paulo. A fundação, responsável pelo edital, aplicação e correção da prova, alega que o candidato nunca enviou o documento. O ponto controvertido está na prova apresentada no processo: André comprovou o envio de um envelope no qual haveria a declaração requerida, mas a FGV afirma que o conteúdo era diverso do especificado no edital. Para Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia do IESP-UERJ (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), não é incomum que a burocracia se torne uma barreira para a efetividade das ações afirmativas: “Não podemos fazer as normas burocráticas auxiliares virarem mecanismos de exclusão”.


O caso é mais um exemplo de como o racismo se reinventa por meio do desenvolvimento de mecanismos sofisticados de discriminação, tornando cada vez mais sutis as condutas segregacionistas que conformam o racismo estrutural. Nesse contexto, a branquitude subsiste sobre um pacto de cumplicidade firmado no seio do grupo hegemônico que opera a manutenção de privilégios.


No limite, a condescendência diante do racismo institucionalizado cria um ambiente permissivo à violência explícita: “Achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa!”. A mensagem foi enviada por Gustavo Metropolo, ex-aluno da FGV - EAESP, em um grupo no WhatsApp em 2017. O ato racista foi acompanhado da foto de João Gilberto, homem negro, também ex-aluno da Fundação. O caso veio à tona em março de 2018, quando a coordenadoria de Administração Pública tomou conhecimento do ocorrido e afastou o agressor por três meses. Em março de 2021, Gustavo Metropolo foi condenado na esfera criminal pelos crimes de racismo e injúria racial e, em fevereiro de 2022, foi condenado também na esfera cível ao pagamento de indenização no valor de R$44 mil reais.


Qual o nosso reflexo no espelho?

Chegamos ao final da Revista Brasil com inúmeras reflexões sobre o que significa ser brasileiro, e a mais urgente é escancarar o racismo estrutural inscrito na consciência nacional. A lógica racista está enraizada no imaginário dos indivíduos e instituições, e superar a branquitude implica reconhecer, ao mesmo tempo, o outro e o que somos, aprender nossos lugares recíprocos e situar os nossos papéis.


Cida Bento enuncia o caminho: na esfera individual, os brancos têm que aprender a conviver com o significado de sua branquitude, desaprender ideologias e histórias que segregam grupos raciais com base em falaciosas virtudes e valores morais. Para a psicóloga, a destruição do pacto narcísico passa ainda por ações coletivas estruturais envolvendo a responsabilidade social das instituições que precisam se posicionar diante de sua herança concreta e simbólica na história do país.


A Gazeta Vargas, que pretende ser precursora de ideias democráticas dentro do ambiente universitário, tem a missão de disseminar o debate, e, nesse caminho, reconhecemos que pensar, falar e agir a partir da nossa transparência não nos cabe mais. Enquanto mulheres brancas, escrevemos a partir do nosso lugar de fala nas tensões raciais que prevalecem no país. É preciso questionar o papel da branquitude na manutenção da discriminação, bem como a nossa responsabilidade dentro da luta antiracista.


É fundamental dar palco, luzes e microfone ao discurso e pautas do movimento negro, é preciso que a sua luta seja ouvida. A nossa geração é a responsável por fazer cessar o silenciamento, por enxergar no espelho as nossas cores e nomeá-las. Quando enfim abdicarmos da falácia da meritocracia e nos comprometermos em resignificar a nossa branquitude, rompendo o silencioso pacto da exclusão, abriremos os olhos para um futuro antirracista.

 

Autoria: Beatriz Nassar e Glendha Visani


Referências:

DIANGELO, Robin. White Fragility: Why It's So Hard for White People to Talk about Racism. Boston: Beacon Press, 2018.


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SANZ, Beatriz. Professor negro processa FGV por erro em cotas de concurso público de SP. Uol, 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/08/30/professor-negro-processa-fgv-por-erro-em-cotas-de-concurso-publico-de-sp.htm>.


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FINI, Nícola V. A. B. de Gouveia. MODELO DE PREVISÃO DA INFLUÊNCIA DAS DESIGUALDADES SOCIOECONÔMICAS NO DESEMPENHO ACADÊMICO. 97 f. (PIBIC) - Curso de Administração Pública, Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 2020.


MBEMBE. Achille. Crítica da razão negra. 1. ed. Lisboa: Antígona, 2014. Cap. I. p. 25 - 74.




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