CAPÍTULO DOIS

A Gazeta traz hoje a continuação da história colaborativa "Quimera". O segundo capítulo foi escrito pela nossa redatora, Loreta Guerra. Vem ver como continua essa narrativa!

Ele já havia ido muito longe para ali acabar a sua noite. Sentia cortadas quase todas as raízes que o prendiam àquele quarto escuro banhado a produtividade. A emoção de fugir da rotina de braços dados a uma figura tão intrigante quanto a daquele velho, com alguma ajuda do álcool, é claro, o fizeram levantar da cadeira do bar. Deu um sorriso para ele, jogou uma moeda no balcão e saiu para a noite, um passo atrás do outro, com a curiosidade crescendo mais e mais a cada batida do coração.


Caminhavam com nada além da lua iluminando a rua. “Como você se chama? ”, perguntou o velho. “Raimundo, e o senhor? ”, respondeu o homem. “Já me chamaram de muitos nomes, à patroa sempre respondi por Benzin. O apelido pegou, fazer o quê... agora, vamos, me entusiasmei com a sua história! ”. Nem frio Raimundo sentia mais. Na verdade, ele não sentia mais nada a não ser um instinto beirando o primitivo de vomitar tudo aquilo que ele se lembra da sua própria existência.


“Para um garoto de 10 anos comum talvez fizesse sentido não conseguir se expressar, para mim não fazia nenhum”, iniciou. “Sabe, eu, desde que me conheço por gente, gosto de palavras. Comecei a falar antes de aprender a andar. Meu pai percebeu isso cedo e aproveitava toda oportunidade que tinha para instigar esse meu interesse, de certa forma, um talento. ” Tinham chegado a uma esquina completamente envolta em breu. À direita, só brilhava o arame de uma cerca velha, à esquerda, começava uma estrada de terra um tanto medonha, que ele nunca tinha percebido ali, tão perto de onde morava havia tantos anos. “Não me importo de sujar um pouco os sapatos, e você? ” Benzin nem respondeu, simplesmente seguiram.


Raimundo olhava para as estrelas, milhões bem ali acima, assim como as palavras na sua cabeça, que ele tentava juntar para continuar sua história. “Foi um período complexo para mim”, prosseguiu. “Meu pai não estava mais lá e parecia que tinha levado consigo uma grande parte do que eu conhecia como eu mesmo. E o pior: escrevendo eu me sentia tão perto dele. Com tinta, tempo e, o mais importante, com uma máquina que havia sido seu último presente para mim, mas sem conexão, me sentia perdido e cego num labirinto em que não conhecia.” O de cabelos brancos abaixou lentamente para pegar algo no chão. Raimundo esperou, olhando para o capim que crescia ali ao lado, aquelas plantações lhe traziam memórias da casa da sua infância.


“Muito estranho isso, meu amigo”, disse Benzin, se levantando e retomando a caminhada, “e você conseguiu sair dessa fase de branco no cerebelo? ”, questionou sorrindo simpaticamente. “Conseguir eu consegui, porém, a forma como tudo aconteceu vai te parecer uma lenda, mitologia, sei lá. Uma ficção”, respondeu Raimundo. “Ora, mas não há nada que faz o coração bater com mais energia do que uma boa história de ficção! Ainda mais se ela acontecer de verdade”, retrucou o velho, empolgado. “Engraçado, meu pai dizia a mesma coisa. Nunca entendi como uma ficção poderia acontecer de verdade, mas o modo como eu retomei minhas palavras me assombra até hoje.”


Raimundo respirou fundo e seguiu, “Eu nunca fui muito de sonhar, mas, umas duas semanas depois do funeral do pai, eu tive um sonho muito, muito estranho: estava parado, à noite, na varanda de casa olhando para baixo, para uma pedra cinza pequena, dessas de beira de estrada, bem na frente dos meus pés. Olhei pra frente e vi um vulto na escuridão. Parado. Tive certeza que era ele, meu pai. Sabe aquilo que dizem que nos sonhos você sabe o que cada qual, lugar ou coisa é, mesmo que não o pareçam? Era isso. Um vulto preto, sem cara, cheiro, voz, sem nada. Mas era meu pai. E, então, eu acordei.” Lembrar daquilo lhe trouxe uma sensação muito estranha. Estavam andando a um tempo, e era a primeira vez que viam uma luz que não a da lua. Um poste velho iluminava um raio de, no máximo, 2 metros, o suficiente somente pra evidenciar uma bicicleta vermelha e enferrujada. Lembrou Raimundo de seus tempos de ciclista, pedalando, novinho, pelo mato com seus irmãos à procura de confusão.


“Realmente é um sonho estranho, mas o que a mente cria enquanto a gente dorme sempre é motivo de risadas! Eu, às vezes, sonho que sou um macaco pulando pelos galhos da floresta! Doideira pura”, contou, aos risos, Benzin. “Eu sei, seu Benzin, mas o complicado é que, no outro dia, assim que eu acordei, nem tomei café nem nada, sentei com a máquina do pai e escrevi um parágrafo lindo de uma história que depois viria até a ser publicada no jornal da cidade! Assim, do nada recuperei minha manha!”


“Ué, que bom! ”, comentou o velho mexendo em seu bolso pra ajustar o que havia pegado no chão.


“Sim, que bom. Até a noite seguinte, quando eu sonhei de novo a mesma coisa, acordei ao amanhecer e não consegui escrever mais nada de novo. E, pro senhor não achar que estou estranhando uma situação completamente normal”, disse Raimundo fechando a boca de Benzin, preparada pra soltar mais um comentário risonho, “no dia em que meu bloqueio voltou, sonhei o mesmo sonho, mais agora haviam duas pedras no chão e quando acordei escrevi o segundo parágrafo. Isso continuou por alguns meses. Noites em que havia mais uma pedra na trilha, eu compunha mais um parágrafo, noites em que não havia, não saia nada da máquina de escrever.”


Enquanto andavam, pareciam se aproximar de um pequeno jardim onde se observava uma casa fracamente iluminada. O cheiro de terra molhada depois da chuva emanava naquele momento, Raimundo amava esse cheirinho. Cheirinho de dia que sua mãe deixava ele e os irmãos ficarem a tarde inteira na cozinha fazendo os campeonatos de futebol de botão enquanto ela cozinhava. Não podiam brincar lá fora, chuva era sinônimo de resfriado.


“Ok, realmente estranho esse seu sonho, meu caro. Mas, se você me permite a pergunta, quando já tinham várias pedrinhas, você chegou mais perto do pai? O vulto pai, na verdade, né? ”, indagou Benzin.


“Olha, isso é algo que me intriga até hoje. Na verdade, eu não sei. Toda noite, no sonho, a distância entre mim e meu pai diminuía, mas, na noite anterior ao dia em que terminei meu texto, ainda não dava para vê-lo direito, por mais que a trilha de pedras já estivesse longa. Quando sonhei novamente, depois até de publicarem minha história, a trilha de pedrinhas estava lá, intacta, mas não a figura dele. Além da trilha, não havia nada, só o escuro. ”


Assim que Raimundo acabou sua história, os dois homens pararam na frente da varanda da casa, estranhamente familiar para o escritor.


“Sua história me comoveu, Raimundo. Eu já sabia que ela iria me comover, na verdade. Por isso peguei esse presente pra você. ”


Benzin parou na frente de Raimundo, alcançou o bolso, levantou, sorrindo, o punho fechado para o outro e abriu. Era uma pedra, pequena, cinza. Raimundo piscou.


Ali estava a trilha de novo.

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