CAPOEIRA, A CARA DA RESISTÊNCIA DO BRASIL


Por Caio Mouco



“Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, pernóstico, só de maçadas, e todo ele se quebrando nos seus movimentos de capoeira”

Aluísio de Azevedo, O Cortiço



Em novembro de 2014, a roda de capoeira brasileira foi mais um dos elementos constituintes à cultura nacional a receber o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Hoje considerada um esporte, a luta misturada à dança foi um grande símbolo de resistência da comunidade negra durante o período colonial escravagista. Com músicas cheias de gritos de resistência, a capoeira representa até hoje a luta pela emancipação social da população preta e a ruptura dos laços coloniais de subversão.



Origem


Não se tem uma data certa de quando a capoeira foi criada, mas se sabe que a história da colonização do Brasil anda de mãos dadas com o desenvolvimento da luta. Apesar de não se ter muitos registros disponíveis que garantam a origem da luta, a tradição e o conhecimento oral entre os grupos mantêm a história viva.


Uma das principais hipóteses do surgimento da arte considera a fusão da dança N’Golo, originada do grupo étnico sul-angolano Mucope, com o ritual indígena potiguara Maraná. Assim é imaginado, pois ambas as danças tem como elemento central a concentração da comunidade em uma roda na qual se protagoniza uma luta ao som de fortes atabaques ou outros instrumentos, seja para a criação de casais, como no ritual mucope Efundula, seja para uma demonstração de valentia dos guerreiros potiguares. Além disso, ambas foram levadas ao Quilombo de Palmares, principal elemento da resistência contra o contexto político, social e econômico da época, de onde a fusão entre as culturas se fez a capoeira. Esse encontro multi-étnico, que deu origem à capoeira, é, ao menos, curioso, uma vez que a região da Serra da Barriga, em Pernambuco, era onde ficava a aldeia da nação indígena chamada de “Palmares” e foi para esse quilombo que diversos escravos fugitivos teriam ido para se abrigar.


A capoeira, no entanto, não foi criada para ser somente uma dança parte de um ritual, seu principal objetivo era ser uma forma de combate, defesa e revolução contra a violência dos capitães do mato, responsáveis pela captura e punição dos escravos fugitivos. Disfarçada de dança pela forte presença de música, os escravos, nas fazendas, treinavam os golpes da capoeira usando o próprio corpo como arma, uma vez que a vida nessas condições não permitia o acesso a nenhum tipo de arma ou recurso útil à guerra. Assim, inspirado também no comportamento de animais brasileiros em situação de alarme, diversos golpes foram desenvolvidos e utilizavam somente da força corporal para sua execução. A música, por sua vez, foi essencial para o treinamento dos escravos, já que servia como um disfarce da real finalidade dos movimentos repetidos e, assim, possibilitou que a capoeira fosse aprimorada e aplicada também em uma fazenda típica colonial.



Século XIX e XX


Ao longo dos anos, registros mais formais sobre a capoeira e o seu impacto na sociedade brasileira da época foram sendo produzidos e, hoje, permitem-nos sua análise. A constante prática da capoeira contra as violências coloniais e o seu emprego nas principais revoltas de escravos, como a dos Malês, fez com que a Coroa portuguesa, metrópole da colônia brasileira, fosse pressionada a proibir definitivamente a escravização da população negra. A Lei Áurea, de 1888, assinada pela Princesa Isabel, à frente da administração imperial, representa um dos principais marcos da luta contra a exploração e a submissão da comunidade negra, mas também evidencia a negligência do Estado na integração desses ex-escravos na sociedade brasileira, de modo a ainda deixá-los marginalizados e em situação de vulnerabilidade. No ano seguinte, em 1889, o Brasil se declarou república pelo golpe militar de Deodoro da Fonseca e, já no 1º Código Penal nacional, criminalizou-se a prática de capoeira nas ruas e em outros lugares públicos, que era usada como forma de demonstração em troca de alguma forma de renda.


“Capítulo XIII. Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal;”


A luta foi proibida no Brasil até o ano de 1935, mas só foi considerada uma prática esportiva em 1937, devido, majoritariamente, aos esforços do Mestre Bimba, que começou a disseminar o treino da capoeira em academias como forma de se afastar da imagem marginalizada e associada à vadiagem. Sob o contexto do Estado Novo e de aproximação do então presidente a demandas de classes populares como estratégia política, o Mestre da capoeira fez uma apresentação a Getúlio Vargas, que declara que “a capoeira é o único esporte verdadeiramente brasileiro.” Desde então, a luta vem ganhando cada vez mais adeptos e também perdendo o caráter marginalizado que um dia teve.


Hoje


Todavia, a capoeira não perdeu seu caráter de resistência. O título de patrimônio histórico da UNESCO ultrapassa os limites do entendimento da palavra de modo a fazer com que a luta seja preservada em sua essência, como forma da preservação da cultura nacional. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao Ministério da Cultura (MinC), extinto em 2019 no governo de Jair Bolsonaro, criou, em 2004, um departamento próprio aos projetos culturais da capoeira. A então presidente do órgão, Jurema Machado, apontou de forma clara a importância da preservação e do reconhecimento da luta como elemento cultural: “os compromissos assumidos pelo governo para com essa salvaguarda envolvem ações de promoção, de valorização dos mestres, seja na inserção no mercado de trabalho, seja na preservação das características identitárias da capoeira ou na formação de redes, de cooperação e de transmissão de conhecimento.”


Apesar de poder ser encontrada, hoje, como modalidade esportiva, a capoeira ainda guarda sua essência de resistência por meio dos ensinamentos dos mestres capoeiras, os guardiões da história da luta. No Brasil, o esporte está listado no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes de modo a já fazer parte da identidade cultural brasileira. Além disso, capoeiristas, como são popularmente chamados aqueles que jogam capoeira, estão ao redor de mais de 160 países e atuam a divulgar e promover um elemento central da cultura tradicionalmente brasileira.




Revisão: Guilherme Caruso e Cedric Antunes

Imagem de capa: Gustavo Carvalho

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Referências Bibliográficas

https://ich.unesco.org/en/RL/capoeira-circle-00892

https://muzenza.com.br/site/historia/ngolo-ou-danca-da-zebra/

http://www.arteculturacapoeira.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=96&Itemid=63

https://www.politize.com.br/capoeira-um-ato-de-resistencia/

https://capoeiraocec.webnode.com.br/a-arte-capoeira/lei%20de%20proibi%C3%A7%C3%A3o%20da%20capoeira/

http://pnc.cultura.gov.br/tag/roda-de-capoeira/

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