SER BOLSISTA: CONFISSÕES DE UMA UNIVERSITÁRIA EM CRISE


Nossa Diretora Presidente Giuliana Paro dá voz a uma realidade muitas vezes esquecida - ou escondida - dentro da Fundação: os alunos bolsistas. Como qualquer universitário, eles também têm seus problemas, dramas e desafios a enfrentar. Mas isso não é tudo...


Tomei a liberdade de escrever aqui sobre uma vida. Não é sobre um sentimento, um momento, uma narrativa, um cenário polêmico da política nacional. É sobre uma vida. E escrever sobre vidas não é fácil, principalmente quando você faz parte dessa vida. Sou aluna da Fundação Getulio Vargas e tenho bolsa de estudos. Mas não quero focar especificamente na realidade de um indivíduo nesse texto, o meu indivíduo. Quero criar alguém hipotético com uma história não tão hipotética assim. Vou chamá-lo de Antônio.


Antônio acorda todo dia e viaja até a faculdade. Antônio come, Antônio estuda, Antônio tem aflições, Antônio tem medos, Antônio tem dificuldades, Antônio lê, Antônio tem preguiça, Antônio é como qualquer outro aluno universitário. Antônio tem família, Antônio tem amigos, Antônio tem paixões, Antônio tem medo de ser assaltado, Antônio gosta de ir às festas. Bom, Antônio é como você: ele quer se formar em uma das melhores faculdades do Brasil, quiçá da América Latina.


Se eu disser que ter bolsa de estudos em uma faculdade privada é desafiador, não estou mentindo. Ser aluno já é desafiador, e muito, mas ser aluno bolsista é mais ainda. Não necessariamente por como você é tratado lá dentro, mas principalmente em como você foi tratado sua vida inteira pela nação, e não por uma parcela mínima da sociedade que está com você agora. Infelizmente, vivemos em um país onde a taxação de vulnerabilidades é uma realidade. Você é taxado, em qualquer lugar que vai, em qualquer lugar que pisa. Isto é, você é você mesmo e é taxado por isso, pela própria sociedade e seu irrevogável costume de estereotipar o absurdo.


Para explicar melhor essa realidade, vou dar um exemplo. Antônio é negro; por isso, ele tem uma taxa incidindo sobre ele. Antônio é negro e pobre; por isso, tem duas taxas incidindo sobre ele. Antônio é negro, pobre e homossexual; por isso, tem três taxas incidindo sobre ele. Antônio é negro, pobre, homossexual e órfão; por isso, tem quatro taxas incidindo sobre ele. Mas e se Antônio fosse na verdade Maria? Então teria cinco taxas incidindo sobre ela, porque, além de tudo, ela é mulher. E assim por diante.


Dói admitir isso? Dói. Principalmente em 2018, onde o cenário político nacional está polarizado e a perspectiva de mudança é quase nula. Dói escolher o “menos pior” para ser o presidente do Brasil. Mas dói mais ainda saber que esse “menos pior” não vai ajudar Antônio a se formar, a não ser que o próprio Antônio se esforce arduamente.


Dentro da universidade privada em que Antônio está, o período de estudo é integral. Mas Antônio precisa trabalhar. Ele se esquiva, desvia de algumas responsabilidades, dribla alguns estudos para poder fazer uma pesquisa ou tentar trabalhar em um período menor. Porque dinheiro nunca veio fácil a Antônio, ele quer e precisa começar desde cedo a lidar com suas responsabilidades. Mas como disse anteriormente, estamos falando de uma vida. E uma vida que precisa de estudo, de formação e de muita dedicação para “desperpetuar” a realidade de onde veio e de onde ela sabe que muitos ainda virão, para além da desigualdade social brasileira.


É difícil admitir dentro de uma bolha social magnata que no Brasil existe racismo, existe pobreza, fome, preconceito e violência. Mas existe. E como qualquer outro lugar do Brasil que pertence às relações sociais comunitárias, na faculdade privada da Paulista também tem tudo isso. E Antônio sabe disso. Porque Antônio tem medo de perder sua bolsa de estudos, tem medo de tirar uma nota abaixo de 6, tem medo de não conseguir todas as oportunidades que poderia se tivesse dinheiro, tem medo de decepcionar sua família, tem medo de não conseguir ser um exemplo para o irmão mais novo, tem medo de não aguentar mais. Antônio sabe que ainda existe a criança que nasce na miséria e estuda sozinha a matéria para conseguir passar em alguma disciplina. E Antônio também sabe que muita gente reclama da cota, principalmente na sua universidade privada, onde a meritocracia ignora as vulnerabilidades e as taxações brasileiras. E eu me pergunto: Quantos Antônios temos no mundo?


Infelizmente, é no Brasil onde Antônio mora. E ele conseguiu entrar em uma faculdade de ponta, em um ambiente e realidade completamente diferentes daqueles em que sempre viveu. Ao falar sobre essa vida, falo sobre a minha vida e a vida de muitas pessoas que tive oportunidade de conhecer ao longo do meu curso. Histórias inspiradoras, de luta, de superação, que mereciam um Nobel. É ignorância achar que no Brasil algumas pessoas não precisam lutar mais que outras, que elas saem equivalentemente do mesmo lugar com as mesmas qualificações e oportunidades. É ilusão acreditar que a democracia brasileira se aplica em todas as circunstâncias e em todos os patamares sociais. Porque isso não acontece. E não é só o Antônio que precisa saber disso. É todo mundo.


Comecei o texto falando que havia tomado a liberdade de falar sobre uma vida por tudo que conheço. O nome Antônio não foi escolhido tão aleatoriamente. Seu significado em latim traz: uma pessoa digna de apreço. E é isso que o Brasil e qualquer outra universidade e meios estudantis precisam compreender. Todos precisam enxergar o seu inestimável valor, frente às dificuldades que traz na vida e às complexidades de um Brasil deficiente. A felicidade de entrar em uma faculdade de ponta não é perpétua. É talvez momentânea, mas, na maioria das vezes, é frustrante. Porque é sim uma oportunidade única para alguns, e recusá-la não é uma opção.


Para terminar, gostaria de elucidar uma frase do educador Paulo Freire, um homem que sempre defendeu a educação em todos os patamares da vida e para todos que nela persistem: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.


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