DE VOLTA PARA O PAÍS DO FUTURO


A nossa redatora Carolina Zweig faz uma análise política da obra “Brasil, um país do futuro” escrita pelo autor judeu Stefan Zweig durante o ambíguo regime do Estado Novo. Será que mais de 70 anos após sua publicação, as previsões do renomado artista se concretizaram?



Brasil, 1940. O presidente da República é Getúlio Vargas, período do Estado Novo. Um regime caracterizado pelo nacionalismo extremo e o nativismo, marcado pela xenofobia e cujas políticas migratórias dificultavam a recepção de refugiados da Segunda Guerra Mundial. Dada a proximidade com o Eixo, historiadores identificam, entre outros, traços antissemitas no ditador e nas políticas de fronteira.

Não obstante, um escritor judeu renomado no globo recebe o visto de permanência para se refugiar no Brasil com estranha facilidade, além de mordomias e convites para eventos da elite local. Seu nome é Stefan Zweig. Ele, pouco depois, publicou o propagandístico Brasil, país do futuro. Acredita-se que, devido a sua fama, produzir uma obra literária que idealiza a nação seria a condição necessária para a concessão do documento que garantia a sobrevivência do autor.

Brasil, 2018. Estudamos na Fundação Getúlio Vargas, instituição de ensino superior de prestígio em Administração de Empresas e Pública, Economia e Direito. Criada pelo Presidente homônimo, cuja imagem é nos tempos atuais bastante controversa, a instituição privada é paradoxalmente bem vista e frequentada por muitos judeus. Dentre eles, uma aluna de sobrenome Zweig – o mesmo do autor que buscou exílio no país em troca de um serviço para o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). Estaria Getúlio se remoendo em seu túmulo?

Entre as múltiplas facetas de Getúlio Vargas, me atenho à que diz respeito a sua relação com os judeus. Ou melhor, ao seu papel (positivo ou não) no surgimento e expansão de uma comunidade judaico-brasileira em um contexto de Segunda Guerra Mundial. Apesar de o país se declarar neutro, durante boa parte do chamado Estado Novo, o governo reproduzia características dos regimes nazifascistas, cujas portas estavam fechadas para todos os judeus que não fossem, como Stefan Zweig, significantemente úteis.

Para o historiador Flávio Limoncic, o Estado Novo haveria adotado o antissemitismo no campo político como consequência de uma ideologia nacionalista (e alinhada ao Eixo), mas não haveria motivos sociais ou históricos que o alimentem. Uma política migratória racista, porém, carente de embasamento cultural permitiu a entrada de alguns judeus no país – que chegaram inclusive a ter funções políticas importantes. Ele afirma que para “os judeus e muitos outros imigrantes, o Brasil era o “país do futuro”, e para o regime de Vargas os judeus eram tão economicamente desejáveis quanto politicamente inconvenientes” (Limoncic, 2005). O aspecto burocrático da discriminação na Era Vargas se observa não apenas no Estado Novo, mas também a partir do momento em que o Brasil passa para o lado dos aliados e começa a receber (em nome da boa relação diplomática com os EUA) refugiados judeus sem grande resistência popular.

É importante nesse ponto enfatizar a inconsistência das políticas antissemitas e a universalização da expressão “país do futuro”, pois ambas fazem parte do quebra-cabeça que se apresenta neste artigo: Stefan Zweig. Ao desembarcar no Rio, em agosto de 1940, as notícias mais recentes nos jornais eram de que haviam sido expulsos 50 estrangeiros em situação irregular, em sua maioria com nomes judeus. No entanto, Zweig teve a sorte de ser um renomado autor e de ser recebido “pelo presidente da República, Getúlio Vargas, convidado do Jockey Club, do Instituto Nacional de Música, da Academia Brasileira de Letras, ...” (Bona, 1999), pois poderia servir ao regime para fomentar o amor à pátria. Na história brasileira, Zweig foi talvez mais uma engrenagem na enorme máquina nacionalista do Estado Novo.

Zweig não estava, no entanto, meramente prestando um serviço ao governo. A partir de conversas com amigos e correspondências e, finalmente, da leitura de sua carta suicida, tem-se certeza da sua admiração e carinho pelo país que já havia, inclusive, visitado em ocasiões anteriores. Ele via no Brasil uma alternativa ao ódio vigente na Europa, destacando, entre outras características positivas, a miscigenação racial. Sua tese era de que o futuro nasceria na sua nova residência tropical, marcada por uma sociedade calorosa e diversa. Quase sete décadas depois, seu biógrafo Alberto Dines se perguntou: “Zweig errou ou foi o Brasil que escolheu o modelo errado?” (Dines, 2006).

A obra foi muito criticada por intelectuais judeus e simpatizantes na época, que não compactuavam com a ideologia do governo ditatorial que regia o paraíso tropical. Alguns locais criticavam o olhar de Zweig como exagerado, pois se viam inseridos em uma sociedade que tinha, entre outras características, uma herança colonial racista. Estamos hoje em 2018, na iminência de um novo mandato com um presidente cujas relações com a comunidade judaica são positivas, mas que não poupa esforços em disseminar o ódio contra outras minorias (como os negros, cuja inserção na sociedade, mais de 70 anos depois, ainda não é tão perfeita como Zweig descreve). Estaríamos voltando para o futuro? Não para aquele que Stefan previu, mas para aquele que seus contemporâneos identificaram?

Getúlio se despede com uma carta-testamento, com sua célebre frase: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história” (Vargas, 1954). O Presidente entrou para a história no ato individual e privado que é o suicídio, porém para uma história que foi escrita por todos que viveram nesse período. Ironicamente, uma história escrita por um refugiado judeu. Uma história escrita por um sobrevivente que habita o jardim de Éden que é o litoral brasileiro, assombrado pelos fantasmas dos judeus que não tiveram tamanha sorte. Stefan foi, em contraste com Getúlio, um suicida que precisou sair da história para reencontrar aqueles que lhe davam vida.

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