DEFENDER O SUS É BELO E MORAL

Diferentemente do que a maioria diz, será que existe a possibilidade de que o SUS não seja completamente repleto de falhas? O texto de hoje é do nosso redator Carlos Roberto!


Nesse último fim de semana, fiquei 12h no Pronto Socorro público da minha cidade, Das 14h da tarde até 2h da manhã. A reação de qualquer pessoa em sã consciência (eu incluso) seria o mais sincero e indignado puta que pariu, seguido logo daquele velho clichê que nós, brasileiros, adoramos repetir: nada funciona nesse país. Mas será que nada funciona mesmo?


É justamente aí que entra a segunda parte dessa história. Não fiquei no hospital por minha causa, mas sim acompanhando minha avó, uma senhora já com seus 76 anos. Há algum tempo ela já não vinha se sentindo bem: fome e sede excessivas, cansaço e, principalmente, a visão embaçada. Logo no começo da consulta, ela já foi diagnosticada com diabetes - o exame de glicemia é bem simples e rápido. Todo o resto do tempo foi sendo medicada e esperando resultados de outros exames pedidos preventivamente pelo médico. Na segunda-feira, pegamos gratuitamente todos os medicamentos receitados na farmácia do posto de saúde público do nosso bairro. Apesar do acompanhamento hospitalar agora estar sendo quase diário, para fazer o controle sobre a evolução do quadro dela, tudo estava resolvido.


No entanto, fui atrás de mais informações sobre a doença, tratamentos, e outras coisas mais. De forma simplificada, a diabetes ocorre quando o pâncreas não produz nada ou não produz a quantidade necessária de insulina. Esse hormônio tem a função de metabolizar a glicose e, assim, produzir energia. Se seu corpo não metaboliza a glicose, você não tem energia. O não tratamento de pessoas com diabetes pode levar até a morte.


Mas onde eu quero chegar com tudo isso?


Basicamente, no fato de que, no meio das minhas pesquisas, me deparei com a seguinte manchete:

“Fazer 26 anos pode ser uma condenação à morte para quem tem diabetes tipo 1 nos EUA[1]”

De forma bem resumida (vale a pena ler a matéria inteira), esse é um relato sobre como jovens adultos com diabetes do tipo 1 - aquelas que precisam de injeções de insulina diariamente - não conseguem arcar com os custos desse hormônio. Muitos acabam tendo que racionar o uso, o que acarreta em complicações graves, principalmente a longo prazo, “como cegueira, insuficiência renal e amputações”. Existem casos em que essas pessoas simplesmente morrem pela falta de dinheiro para comprar a insulina.

Sabe em que lugar isso não acontece? Isso mesmo, no Brasil.


Aqui, a insulina se encontra na lista de medicamentos essenciais do Sistema Único de Saúde, sendo seu fornecimento obrigatório pela rede pública. Não importa quem seja a pessoa, se ela precisar, ela vai ter. É muito comum ouvirmos críticas ao SUS por duzentos motivos diferentes: não funciona; é caro; saúde não é direito, é serviço (esse eu particularmente acho muito engraçado).


Mas agora falando sério, eu faço um convite a refletir de verdade sobre essas questões, com exemplos práticos. Nos EUA, entre 2012 e 2016, o preço médio da insulina passou de U$ 2,200 para U$ 5,800[2]por ano. Apenas fazendo a conversão de câmbio, sem correções monetárias, esse valor seria de R$ 24,244[3]. Para efeitos de comparação, o salário mínimo atual possui um rendimento total por ano de aproximadamente R$ 12,000. Uma pessoa que recebesse esse valor nos EUA não seria capaz de custear nem metade do valor total da insulina[4].


Acho importante frisar que não estou dizendo que o SUS é perfeito. Existem, sim, muitas (realmente muitas) falhas e coisas a se melhorar. Mas a grande questão é que, apesar de todas ineficiências, esse é o sistema que garante a sobrevivência e o acesso à saúde da grande maioria da população - mais especificamente, 70% dela[5]. No fim do dia, o SUS - mesmo com todas suas ineficiências - é referência de sistema de saúde pública no mundo. E isso não sou eu quem diz: é o próprio Banco Mundial, que lançou em 2013 o livro “20 Anos de Construção do SUS no Brasil”[6]. Defender a existência do SUS é defender a garantia de direito à vida e a existência minimamente digna de todas as pessoas, independente de quaisquer fatores socioeconômicos.


Defender o SUS é belo e moral.


[1] https://www.buzzfeed.com/br/ellievhall/diabetes-tipo-1-plano-saude

[2]BINIEK, J. JOHNSON, W. Spending on Individuals with Type 1 Diabetes and the Role of Rapidly Increasing Insulin Prices. Health Care Cost Institute. 29 de Jan. de 2019. Disponível em: https://healthcostinstitute.org/images/easyblog_articles/267/HCCI-Insulin-Use-and-Spending-Trends-Brief-01.22.19.pdf Acesso em: 14/10/2019.

[3] Valor calculado com base na taxa de câmbio do dia 16/10/2019, sendo de R$ 4,18 para U$ 1.

[4] É preciso ressaltar que essa é uma comparação apenas para efeitos ilustrativos, uma vez que existem diversos fatores que influenciam nesse cálculo mas não estão sendo considerados, dados os objetivos e formas deste texto. No entanto, é plausível presumir que, no Brasil, o custo pudesse ser até mais alto, uma vez que, por ser fornecida gratuitamente pelo SUS, não existe um estímulo à indústria de produção de insulina no mercado devido a falta de demanda no mercado.

[5]No Brasil, 70% não têm plano de saúde particular, apontam SPC e CNDL Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/no-brasil-70-nao-tem-plano-de-saude-particular-apontam-spc-e-cndl.ghtml Acesso em: 15/10/2019.

[6] Disponível em: https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/15801

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