DUAS LIÇÕES E UM APELO


Existe uma sensação muito específica que nunca nomeei. Ela me sobe ao peito quando descubro algo novo, algo do qual nunca tinha ouvido falar, me aprofundo no tema e percebo que todos deveriam saber daquilo. “Como é possível que isso não estampe a capa do jornal?!” penso. Aconteceu quando me atentei a realidade da indústria pecuária e da indústria de fast fashion, quando entendi como nossos dados pessoais são coletados e vendidos pelas grandes empresas de tecnologia e como isso gerou o que chamamos de capitalismo de vigilância. Enfim, já aconteceu algumas vezes. Essas que mencionei me fizeram fazer alguma mudança no meu estilo de vida e por isso, consegui falar para algumas pessoas à minha volta sobre elas. Mas, sobre outras descobertas, parece impossível fazer algo a respeito. E esse é o caso do qual pretendo tratar aqui.

No terceiro colegial, antes da nossa tão amada pandemia, minha professora de História mencionou, em meio às suas rápidas divagações sobre determinado período ou conceito histórico, a Guerra de Biafra. Ela explicava tão rápido que só ouvi “milhares de crianças morreram de fome” e “o mundo ignorou completamente o que acontecia”. Nós nos deparamos com tantos horrores da história da humanidade durante a aula de História que acabamos por banalizar um pouco essas falas chocantes. Creio que é um modo de autopreservação. Não importa. O que importa é que ela mencionou isso, eu pensei “Caramba!” e segui a vida de vestibulanda.


Durante as férias de julho, porém, resolvi ler os livros de Chimamanda Ngozi Adichie – que por sinal, virou uma das minhas autoras preferidas, recomendo, leitor, que leia suas obras. O terceiro livro dela que li foi “Meio Sol Amarelo”. E então, lembrei de minha professora de História, que não via desde o início da quarentena, e daquela aula que banalizei. A Guerra de Biafra, em que “morreram crianças de fome”, passou a ter rostos, vozes, corpos e sensações. Conheci a Nigéria, que já era cenário de seus outros romances, com outros olhos, agora, com olhos de guerra. Vi uma nação fragmentada pela colonização. Pessoas sofrendo em todos os cantos. A dor e o medo sentidos em todos os momentos. Li a indiferença do mundo. E, desde então, acredito que sou diferente.


Já tinha lido outros romances históricos antes, mas nenhum escrito com a sensibilidade e maestria de Chimamanda. Me desencantei um pouco quando minha amiga (que havia feito uma pesquisa autoral sobre Biafra) me falou que a história de “Meio Sol Amarelo” era contada de modo bem enviesado, colocando a etnia de que vinha Chimamanda, os ibos, como toda e completamente vítimas. Fiquei frustrada e não quis me aprofundar nos “fatos reais” daquela guerra. Tomei como verdade o que li naquele livro (o que, no caso, é contra o que Chimamanda fala em “O perigo de uma história única”).


Recentemente, porém, tomei vergonha na cara. Pesquisei sobre o que aconteceu e, com uma cabeça mais madura, percebi que entender as diferentes narrativas era fundamental já que eu me interessava tanto por aquele conflito. Acho que, por ter criado um laço emocional com os personagens ibos, queria defendê-los com unhas e dentes.


A Guerra de Biafra aconteceu na Nigéria em 1967 e teve como estopim a autoproclamação do Estado de Biafra, composto pelos ibos refugiados no sudeste do território nigeriano. Essa autoproclamação não veio de repente. Em 1966, os membros da etnia Ibo deram um golpe de Estado e destituíram os hauças (mulçumanos habitantes do Norte da Nigéria) do poder. Em resposta, os hauças realizaram um contragolpe, assumiram o governo e iniciaram um massacre dos ibos – você entende agora que, depois de ter visto meus personagens amados sendo massacrados, eu queria defender os ibos a todo custo. No entanto, quando os ibos se refugiaram no sudeste do país e criaram a República de Biafra, não tinham em mente somente a criação de uma identidade coletiva. A região em que se instalaram era a mais rica em petróleo de todo o país e, por isso, os hauças não hesitaram em atacar a nova república.


Daí se iniciou a Guerra de Biafra, que só teve fim em 1970. Durante esses três anos, foram poucas as nações que reconheceram a legitimidade de Biafra. As grandes potências ficaram ao lado do governo central da Nigéria e ajudaram a bloquear a entrada dos portos e do aeroporto. Não chegava mais comida nem remédios em Biafra, a não ser por caminhos terrestres escondidos. Nos campos de refugiados, as crianças e mulheres começaram a morrer de fome e, sem gente o bastante para trabalhar, os defuntos ficavam entre os vivos, cheirando por dias. As doenças se espalharam rapidamente. Estima-se que tenham morrido entre 500 mil e 2 milhões de civis. Nunca foi confirmado um número exato.


Ao aprender mais sobre essa guerra, com o livro e outras pesquisas, tirei algumas lições importantes. A primeira pode parecer óbvia, mas, com certeza, não é. Por trás dos fatos, dos números e dos livros de História existiam, e ainda existem, pessoas. Seres humanos, gente como a gente. Quem foi torturado, estuprado, morto, sofreu. Quem perdeu sua casa, sua família, seu amor, sofreu. Quem hoje, no mesmo solo que eu, passa fome, sofre. Por isso digo que, depois de “Meio Sol Amarelo”, eu mudei. Passei a ver o mundo com outros olhos. Olhos que enxergam o mundo pelo que ele é: um aglomerado de pessoas reféns da dor.


A segunda lição que aprendi é que Biafra é somente uma. Somente uma das guerras da qual, aos 17 anos, eu não fazia ideia que tinha acontecido. Tenho certeza que se digitar na barra de pesquisa do Google “Guerra de [qualquer letra]” vai aparecer algum conflito do qual nunca ouvi falar. Algum conflito em que, como Biafra, as pessoas sofreram. A humanidade se matou mais uma vez. E eu sei que pode parecer tosco, um discurso meio Jonh Lennon em Imagine, mas eu ainda tenho esperança de que a humanidade vai conseguir se tornar mais humana. Podemos deixar de ser reféns da dor e passar a sermos apaixonados pela vida, nossa vida e dos outros, independente de quem seja (com exceção de Bolsonaro, é claro). Bom, não sei se acredito nisso realmente. Porque os Bolsonaros existem. Acabei de questionar minha suposta segunda lição, mudarei seu nome, então. Vou chamá-la de: “Um apelo desesperado pela esperança”.


A última lição é bem simples: a literatura é incrivelmente magnífica.


Autoria: Tiz Almeida


Revisão: Beatriz Nassar e João Vítor Garcia


Imagem de capa: Pius Utomi Ekpei

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