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EDUARDO E MÔNICA



Eduardo e Mônica eram inseparáveis. Sim, como a famosa canção do Legião Urbana, esses dois se encontraram sem querer, em uma das cervejarias mais famosas da cidade. Entretanto, a Mônica não fazia medicina, e muito menos falava alemão: Ela cursava arquitetura comigo numa faculdade pequena no interior de Minas Gerais.


A gente se conheceu logo no primeiro dia, quando vi ela lendo uma matéria sobre o caso de corrupção que assolava a cidade na época e acabei pedindo mais informações. "Saiu o resultado do julgamento do prefeito?" Perguntei. "Saiu sim… Foi inocentado depois de ridículas três horas de interrogação, tão dizendo por aí que ele vai renunciar e se mudar para São Paulo.” Se esconder no meio da multidão… Até que não é um plano ruim…


Desde então nunca mais nos separamos. Sempre passava na casa da Dona Magda, mãe da Mônica, para ajudá-la a cortar as ervas daninhas que apareciam na grande horta que ela cultivava com muito empenho na parte de trás do jardim. “Meus olhos cansados já não servem mais pra isso Rita” era o que ela sempre me dizia. Em troca dos meus serviços ela fazia um bolo de laranja, o qual eu e a Mônica devorávamos na mesinha azul do lado de fora da casa, depois de passar a tarde inteira montando maquetes pra faculdade.


Foi mais ou menos no quinto semestre que a Mônica conheceu o Edu. Ele até me lembrava o Eduardo da música: estava acabando o cursinho na época, prestando para administração pública numa faculdade renomada de São Paulo e morava com seu avô numa chácara em um canto mais afastado da cidade – quem sabe eles não jogavam futebol de botão? O fato é que eles combinavam. O Eduardo logo passou a ser parte do meu dia a dia. Ele era simpático comigo e tinha uma boa relação com a Dona Magda, apesar dela sempre se irritar um pouco com a hiperatividade do menino, que não conseguia ficar parado durante as refeições e sempre batucava os dedos sobre a toalha de mesa. Logo a Mônica começou a discutir sobre as matérias do jornal com o Eduardo, o qual sempre acenava com a cabeça e respondia com alguma frase pessimista sobre a situação econômica do país. A Mônica estava apaixonada, e eu não precisava ser nenhuma especialista para perceber isso.


O relacionamento durou exatos um ano e sete meses. Eduardo logo se mudou para São Paulo e a distância acabou dificultando a coisa pros dois… Foi um término tranquilo, o que não significa que não deixou sequelas. Acho que foi mais difícil pra Mônica do que pra ele… Quero dizer, ele tinha toda a novidade e a multidão de São Paulo com a qual se distrair, podia fazer novas amizades e desbravar lugares desconhecidos. A Mônica continuava presa nesse “lago que chamamos de mar”, como ela gostava de descrever nossa cidadezinha. A notícia logo se espalhou pelo centro da cidade, e tinha dias que Mônica não conseguia percorrer os dois quilômetros entre sua casa e a faculdade sem ser lembrada do término por qualquer vendedor que encontrasse no caminho.


Observar a Mônica de longe durante todo esse processo acabou me fazendo refletir bastante. Acho que acabei encontrando algo tragicamente bonito no final dos relacionamentos. O lento processo no qual a mágoa se transforma em lágrimas que secam no rosto que uma vez foi tocado pelas mãos do amor. Depois de meses, ainda ver as pequenas ações que aprenderam um com o outro se repetindo inocentemente, como se a corrente que os amarra pudesse ser facilmente removida, mas nunca efetivamente quebrada.


É claro que as feridas foram se fechando com o tempo, as lágrimas se secaram e o coração se remendou. A Mônica logo encontrou outros amores, sofreu com novos corações partidos… Mas às vezes, eu ainda a pegava desprevenida batucando sobre a mesa azul, a via fazer comentários pessimistas enquanto lia o jornal e sabia que, de vez em quando, ela ainda ia até a chácara visitar o avô do Eduardo.


Hoje a Mônica se mudou para São Paulo. Ela conseguiu um estágio para ajudar na reforma de um dos museus mais importantes do país. A cidade inteira ficou morrendo de orgulho da garota – rolou até uma festinha de despedida na pracinha do centro. Para cumprir meu papel de fiel-escudeira, acompanhei a Mônica até a única estação de ônibus da cidade, e dei aquele singelo aceno com as mãos enquanto via ela embarcar. Conforme a Mônica ia se afastando e se tornando cada vez menor, pensei no Edu. Quero dizer… Eu não pensei no Eduardo em si, mas pensei na Mônica antes do Eduardo. Não era aquela Mônica que eu via entrando no ônibus. Só não conseguia medir exatamente o quanto dessa mudança estava nela, e o quanto estava em mim. A verdade é que aprendi muito com os dois. Aprendi que às vezes o sofrimento anda de mãos dadas com o entendimento em rumo a liberdade – e que a liberdade nada mais é do que um ônibus lotado rumo ao desconhecido. Aprendi que as pessoas não passam de momentos, símbolos doidos perdidos em instantes inacabados. Aprendi que, além do céu, da terra, da água e do ar, também existe o sentimento, e esse é com certeza o mais difícil de ser explicado.


Por hora, talvez o melhor a se fazer seja focar na minha própria história pois, no que diz respeito ao Eduardo e a Mônica… Vai saber o que vai acontecer. Quem sabe eles não acabam se vendo de novo? Quem sabe seus olhos não se encontram e reconheçam a parte da alma que ficou com o outro? Bem… Quem sabe eles não acabam encontrando alguma razão nas coisas feitas pelo coração?



Autoria: Victorya Pimentel

Revisão: Laura Freitas e Gabriela Veit

Imagem de capa: frutasclaras no tumblr

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