ELVIS PRESLEY, DE VOLTA À VIDA



Elvis Presley morreu mais de vinte anos antes da minha geração nascer, mesmo assim, de alguma forma, ele continua presente no dia a dia de muitos de nós. Eu nasci 24 anos depois do seu falecimento e, ainda assim, há boas chances de que a primeira música que ouvi na vida seja uma das suas. Isso porque minha mãe costumava tocar o CD “Elvis For Babies” para dormirmos. A primeira vez que vi o Elvis provavelmente foi assistindo a Lilo & Stitch (2002), quando Lilo o apresenta para Stitch e mostra uma foto sua, a única imagem do filme que não é desenho animado. Suas próximas aparições na minha infância foram sutis: de vez em quando, ele aparecia em eventuais reportagens na TV no dia 16 de agosto (data de sua morte) ou em conversas com a minha avó, é claro, e todos os dias eu ouvia os primeiros segundos de “Little Less Conversation”, sem saber que era do Elvis, porque era o toque do Sony Ericsson W200 branco e laranja do meu pai. Meu primeiro contato com a sua história de vida, para além das reportagens anuais, foi com o DVD da minissérie Elvis: O Início de uma Lenda (2005), que demos de presente para a minha avó. Por muito tempo, tivemos o hábito de assistir à série todos os anos com ela, mesmo assim, hoje eu só lembro da capa do DVD e mais nada. Por isso, posso dizer que a primeira vez que eu acompanhei a história de Presley em uma narrativa que, de fato, me marcou foi agora com Elvis (2022), de Baz Luhrmann.



Lilo apresenta Elvis para Stitch (2002)

(Fonte: Animation World Network)


O filme é protagonizado por Austin Butler (Elvis) e Tom Hanks (Coronel) e conta a história da vida do astro pela perspectiva da mente conturbada de seu agente, um pilantra que respondia pelo nome falso de “Coronel Tom Parker”. O longa passa por partes da infância de Presley em um bairro de pessoas negras no Memphis, mostrando as influências que recebeu do blues e do gospel. A maior parte da narrativa é focada na controvérsia provocada por Parker, que, ao mesmo tempo que alavancou a carreira de Elvis nos seus momentos iniciais, também o prendeu aos Estados Unidos no ápice de sua carreira, impedindo-o de realizar uma turnê mundial com a qual ele tanto sonhava, e o levou ao mundo das pílulas, que acabaram por lhe tirar a vida. Ao longo do filme, também acompanhamos as controvérsias que seus shows e, principalmente, seu “requebrado” provocaram na sociedade puritana estadunidense no período das leis antimiscigenação e da marcada segregação racial no país, especialmente nos estados do Sul, onde o filme se passa. Vemos a disputa entre Priscilla Presley, a esposa do protagonista, e seu empresário com relação aos rumos da carreira do artista e testemunhamos como a persuasão de Parker acabava quase sempre por convencer Elvis a fazer aquilo que lhe era conveniente. Por fim, passamos, junto a Presley, pelo declínio de sua saúde, seu divórcio, o vício em pílulas e por seu falecimento, em 1977.


Elvis, Priscilla (Olivia DeJonge) e Lisa Presley

(Fonte: Prada)


Um dos pontos fortes do filme é o reconhecimento do protagonismo da cultura afro-americana para a construção do personagem e do estilo musical de Presley: suas roupas, sua dança e suas músicas passam pelo blues e pelo gospel, que estiveram presentes em sua vida desde a infância. Um pouco mais velho e já com considerável fama, o astro convive com grandes representantes da música negra estadunidense, como B. B. King, Big Mama Thornton e Little Richard no Club Handy da famosa rua Beale Street. Após ver Little Richard apresentar “Tutti Frutti”, extasiado, Elvis afirma que gostaria de gravar a canção. B. B. King então, diz que, se o fizesse, Presley ganharia mais dinheiro com a música do que Little Richard podia sonhar em ganhar ao longo de toda a sua vida.


Elvis (Austin Butler) e B. B. King (Kelvin Harrison) no Club Handy

(Fonte: UOL)


Imagem real de Elvis e B. B. King

(Fonte: Rolling Stone - UOL)


O longa não esconde que Elvis imitava a música de Beale Street e que a alavanca de sua carreira foi o fato de ser branco. Logo em uma das primeiras cenas, em meados da década de 1950, quando Parker ouve Presley no rádio, ele só se interessa pelo sujeito que canta quando descobre que ele é não é negro. Um aspecto que o filme não mostra tanto é que Elvis não simplesmente replicava o blues e o gospel, mas os unia ao country. Talvez por isso, pela característica de mistura de gêneros da música de Elvis, o diretor escolhe colocar em cenas do filme remixes de suas músicas com cantores atuais, como Doja Cat em “Vegas”, canção original feita para o filme.


Luhrmann, diretor de Moulin Rouge! e O Grande Gatsby, faz um trabalho primoroso em deixar o espectador no mesmo ritmo de Elvis nos momentos mais conturbados de sua carreira, dos intermináveis shows no Vegas International à turnê por diversas cidades dos Estados Unidos. Com a narração em primeira pessoa pelo personagem do Coronel, entendemos como sua mente funciona, sua obsessão por Elvis e por sua própria imagem. “Sem mim, não haveria Elvis Presley”. Um dos grandes momentos do filme é o da “prisão” de Elvis no hotel Westgate Las Vegas, na época chamado de International Hotel. Parker faz de tudo para mantê-lo nos Estados Unidos e o prende por meio de um contrato de longa duração com o hotel, que o torna refém do auditório de shows da casa por anos. Nas cenas dos intermináveis e exaustivos shows no palco do International Hotel, adequadamente a música mais tocada é “Suspicious Minds”, cuja primeira frase diz “estamos presos em uma armadilha”. As imagens panorâmicas do grandioso hotel provocam arrepios. É como se o Vegas International fosse um hotel com vida, uma vida que consome a de Elvis. Não é difícil de lembrar de um dos hotéis mais famosos da ficção, o Overlook, descrito por Stephen King em O Iluminado. Da mesma forma que o International aprisiona e esgota Elvis — pelas mãos de Parker —, o Overlook enjaula o protagonista do livro Jack e sua família. Os finais de ambas as narrativas são igualmente trágicos.


A performance de Austin Butler é fenomenal, principalmente nas cenas de apresentações ao vivo. Em certos momentos, era difícil distinguir entre imagens reais de Elvis e do ator. O que os torna mais parecidos ainda é o fato de que não houve tentativas de replicar a voz do cantor nas músicas, então o que houvimos é um remix de sua voz real. Nos momentos fora do palco, é nítido o estudo e a dedicação do ator em capturar todas as nuances e gestos de Presley. Somada ao figurino produzido em colaboração com a Prada e a Miu Miu — que revisitaram peças de arquivos da época para produzir um figurino personalizado —, as habilidades do ator são capazes de nos transportar para os anos 1950, 1960 e 1970 com o cantor. Tom Hanks, como de costume, também desempenhou uma ótima atuação, mesmo com a grande quantidade de maquiagem no rosto. É assustadora a habilidade do personagem do Coronel em persuadir e manipular, com técnicas infindáveis de uso de empatia, apelação, vitimismo, entre tantas outras. No decorrer do filme, acompanhamos os pensamentos do personagem por meio de sua narração e cada vitória sua em discussões com Elvis produz um efeito desejado de agonia e desespero no espectador.


Tom Hanks como Coronel Parker ao lado do real "Tom Parker"

(Fonte: People)


Com mais de duas horas e meia de duração, o filme não é feito apenas para grandes fãs do cantor relembrarem os ápices de sua história de vida e ouvirem suas músicas. Para isso, temos as reportagens do Fantástico. O longa-metragem pode ser cansativo e, em seus momentos de suspense, transmite emoções que não são necessariamente boas. O senhor que sentou na minha frente com certeza esperava algo diferente, porque dormiu e roncou por uma hora e meia, no mínimo. Também não imagino que a minha avó de 81 anos iria desfrutar e sair feliz da sala de cinema. Elvis (2022) veio para trazer o cantor de volta à vida e apresentar as principais controvérsias de sua história. Não é um musical. Mais se assemelha a um filme de suspense ou fantasia. Inclusive, acredito que o filme poderia se beneficiar de um toque a menos de fantasia e um a mais de música, senti falta de ouvir canções por completo ou de entender a história por trás de determinadas letras. Há algumas licenças poéticas e momentos emotivos que nunca teremos como saber se de fato aconteceram, mas o filme faz um bom trabalho em nos mostrar as atrocidades cometidas por Parker. O longa não busca transmitir uma imagem de Elvis como herói, mas, para escaparmos de tratá-lo como vítima maior, vale uma pesquisa posterior sobre sua vida. Não devemos colocá-lo em um pedestal.


Ao subir dos créditos, ao som de “In the Ghetto”, a primeira coisa que eu pensei foi “acho que tenho um tipo de filme favorito”: biografias de cantores. Não teve uma vez que não saí extasiada do cinema. Não tem como não se emocionar. Acompanhamos seus pensamentos, ambições, sonhos, traços sombrios de suas personalidades e os momentos dolorosos de suas vidas. São histórias de pessoas que marcaram o mundo, não tem como elas não serem, por si, marcantes. O melhor que esses filmes nos provocam, além de profundas reflexões e inspiração, é a ânsia por mais. Saímos do cinema buscando ouvir suas músicas e conhecer melhor suas histórias. E, nisso, Elvis de Luhrmann fez um ótimo trabalho ao apresentar para a minha geração um dos maiores cantores de todos os tempos, trazendo-o de volta à vida.


Elvis Presley cantando Unchained Melody, em 1977. Uma de suas últimas apresentações.

Esta performance é replicada por Austin Butler na última cena do filme.

(Fonte: Daily Motion)


Autoria: Beatriz Bernardi

Revisão: Beatriz Nassar e Guilherme Caruso

Imagem de capa: IMDB