ENTRE O ESPAÇO DAS MINHAS PEGADAS



Acho que sempre tive uma visão simplista do mundo, uma ideia mais linear e direta de como as coisas deveriam funcionar. Tudo tinha que ter um início, um meio e um fim, afinal, é assim que as coisas funcionam nos livros, não é? E assim segui meu caminho enquanto plantava a semente da vida… continuei minha jornada esperando ela brotar, florescer e finalmente dar frutos, justamente como me ensinaram que as coisas deveriam ser. O tempo, que não tem o costume de esperar aqueles que não o valorizam, saiu correndo até se esquecer do porquê andava com tanta pressa. Já o Sol, querendo sempre ficar um pouco mais com a Lua, começou a hesitar um pouco antes de nascer todas as manhãs.



E foi em meio a esse ritmo descompassado que a semente, que eu já havia até esquecido de ter plantado, crescia. Enquanto isso, eu continuava avançando pelas estações, recolhendo as folhas que caíam no outono para usar como cobertor no inverno. Esperando o broto germinar na primavera apenas para colocar a flor no meu cabelo durante o verão. No fim, tudo isso acabou virando rotina. Minha cabeça no piloto automático, minhas ideias escondidas entre as nuvens: com o tempo, elas desaprenderam a chover. E eu, que andava desatenta pelas ruas do destino, só percebi que não caía mais água quando a flor, já murcha atrás da minha orelha, caiu sem vida em frente aos meus olhos.



Foi só naquele mísero instante, entre a ascensão e a queda de uma pétala, que percebi que não lembrava mais onde havia plantado a semente. Tentei refazer os caminhos percorridos, buscar algum sinal escondido pelos ajudantes do tempo, até perguntei para as árvores se elas haviam visto algum sinal do grão, mas elas nunca me respondiam, estavam muito atarefadas cuidando das próprias folhas. Andei tanto atrás da semente que no fim cheguei à conclusão de que nunca mais iria encontrá-la. Até a esperança, que está sempre em busca de algo pelo qual esperar, havia perdido a paciência. Vencida pela fadiga, sentei na beira de um pequeno riacho e coloquei as mãos no bolso... foi então que percebi algo pequeno e redondo, descansando preguiçosamente sobre o tecido do agasalho. Não poderia ser, poderia? Se a semente estava comigo esse tempo todo, isso significava que todo o esforço que coloquei na caminhada havia sido em vão? que todos os passos que dei durante a minha jornada acabaram me levando de volta ao início? que a semente da vida não havia sequer nascido?



Tentei me contentar com esse pensamento, mas quanto mais eu analisava, mais incompleto ele ficava. Eu não era a mesma pessoa de antes, tinha cruzado as trilhas que me levavam ao desconhecido, havia me perdido pelas estações e convivi com os ganhos e as perdas que se esgueiravam atrás de cada um dos passos que dei. Foi só nesse momento, parada diante das águas já adormecidas do riacho, que percebi que estava errada desde o início. A caminhada nunca foi sobre a semente. A vida não é aquilo que existe entre a semente e a flor, mas sim todo o resto. A vida está nas solas das botas que pisoteiam os brotos nos campos de batalha, nos sorrisos das crianças que brincam nas paisagens floridas, no perfume das pétalas e nas lágrimas que caem sobre um caule ainda preservado dentro das páginas de um livro. A vida não está na semente, está em tudo aquilo que acontece no espaço vazio entre as pegadas durante a caminhada.



Autoria: Victorya Pimentel

Revisão: Bruna Ballestero e Guilherme Caruso

Imagem de capa: Eric Nyffeler em Dribbble.com

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