ENTRE O PARAÍSO E O INFERNO

Um texto capaz de fazer com que alguns, no caso uma parcela muito pequena da Fundação, sintam-se representados. E também capaz de fazer com que o restante, no caso a maioria, coloque-se no lugar do outro e reveja os seus privilégios. Precisamos falar sobre esse tema, precisamos questionar o paraíso em que a maioria do alunato se encontra. O texto foi redigido pelo redator Carlos Roberto.

Nossa experiência como seres humanos é definida pelo mundo no qual vivemos. Os diferentes espaços que ocupamos no decorrer dos anos estabelecem padrões de comportamento a serem adotados, certezas que devem ser internalizadas e, até mesmo, nossas noções de justiça. Mas o que acontece quando alguém se vê distante e deslocado dos ambientes em que convive? O que acontece quando você não pertence a mundo algum?


Essas são perguntas e questionamentos recorrentes a uma parcela muito específica do alunato da Fundação Getúlio Vargas: as alunas e alunos bolsistas. Nós viemos, geralmente, de muito longe. Das periferias da grande São Paulo ou de pequenas cidades do interior. Viemos de uma realidade distante e desconhecida à grande parte dos gevenianos médios, permeada de diferentes e intensas formas de violência e dificuldades que, para estes, pareceriam absurdas e inimagináveis.


No entanto, aqui estamos. Sobrevivemos, um dia de cada vez, tendo de lidar com uma dezena obstáculos totalmente diferentes daqueles que enfrentávamos. Estar aqui, agora, é uma experiência quase inédita. Em geral, somos os primeiros de uma linhagem familiar inteira a cursar o ensino superior. Temos perspectivas completamente diferentes das pessoas com quem antes convivíamos. O roteiro da nossa vida está em uma sequência constante de ação e selvageria dignas de um filme do Tarantino, cujo fim, ainda que nos reste a esperança de que seja feliz, não temos a menor ideia de como será.


Sendo sincero, não vivemos de fato em nenhuma dessas duas realidades. Estamos distantes - física e socialmente - dos lugares de onde viemos. Apesar da violência, das pessoas e de todos os problemas persistirem e continuarem a nos afetar, não estamos mais no olho da tempestade. E ainda assim, enquanto isso, também não pertencemos ao mundo da GV - onde só a mensalidade, sem considerar os custos de manutenção de um aluno padrão, representa em média, mais do que o salário de 95% da população brasileira[1].


Metaforicamente falando, estamos em um purgatório. Uma espécie de limbo entre duas existências completamente opostas. Não nos encaixamos mais no lugar onde nascemos e não integramos aquele espaço. Ao mesmo tempo, não é fácil – e muito menos confortável – estar na Fundação Getúlio Vargas, convivendo com pessoas, costumes e padrões de vida totalmente distantes do que nos seria normal. Sobrevivemos a cada dia tentando escapar de uma condenação por pecados dos quais não existem culpados, enquanto outros desfrutam os privilégios de um Paraíso que, para não ruir, precisa garantir a existência do Inferno.


[1] FERREIRA, L. ZANLORENSSI, G. O seu salário diante da realidade brasileira. Nexo Jornal. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/interativo/2016/01/11/O-seu-sal%C3%A1rio-diante-da-realidade-brasileira Acesso em: 29/08/2019.


O cálculo foi realizado considerando a média das mensalidades dos cursos de Adm. Pública e de Empresas, Economia e Direito

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