ESCRITOR DE DIA, GAROTO DE PROGRAMA DE NOITE. NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM



Conheci o Felipe há cerca de seis anos. Mais especificamente, o vi pela primeira vez no dia 23 de novembro de 2013, que por sinal é também o dia do meu aniversário. Foi um encontro curto e não nos falamos. Em agosto de 2014, mesmo sem termos muita intimidade, o chamei para um aniversário surpresa que eu organizava para uma amiga que temos em comum, a qual, aliás, tinha sido a razão da nossa primeira aproximação, meses antes. Na festa, eu prometi que lhe emprestaria o meu novíssimo e estimado exemplar da biografia recém-lançada de Amy Winehouse, mas, os anos, encontros e caminhos passaram-se, sem que o livro saísse da minha prateleira. Isso tudo não sou eu quem diz, não com esse nível de detalhamento. Quem tem a capacidade de recordar não só encontros e diálogos, mas absolutamente tudo o que é conhecido pela razão humana com uma facilidade assombrosa e riqueza de minúcias assustadora é o próprio Felipe. Eu, por outro lado, já não sei nem mais onde se encontra a bendita biografia, e, se o Felipe me dissesse que estava e esteve esse tempo todo com ele, acreditaria, sem sequer me preocupar em checar.


Não satisfeito em ser, por obra e benevolência da natureza, um extenso e perspicaz arquivo ambulante - com a capacidade não só de catalogar, como interpretar, reinterpretar e formular os mais variados diagnósticos sobre acontecimentos passados - Felipe decidiu outorgar ao mundo e à cidade de São Paulo a decisão de se tornar escritor, aos 21 anos, elaborando seu primeiro livro de, veja bem, memórias. Mas o que uma pessoa nesta idade possivelmente tem de interessante para se contar em um livro de memórias?




Felipe Haleo tem 21 anos, mora em São Paulo, é garoto de programa e se tornou escritor ao elaborar seu primeiro livro, o qual produziu com dinheiro próprio, através de uma editora independente, e distribuiu para amigos íntimos. No momento em que a entrevista foi concedida à Gazeta Vargas, FH organizava uma segunda impressão da obra, desta vez, comercializável, e mais extensa do que a primeira versão, totalizando mais de trezentas páginas. Com sorte, alguns exemplares ainda podem ser encontrados à venda nos links em seu IG do Instagram, @felipehaleo



LI: Oi, Felipe, obrigada por ter aceitado falar comigo. Você escreveu um livro recentemente, “HALEO”. Como foi este processo?


FH: Obrigado pelo convite! Foi bem libertador, e doloroso ao mesmo tempo. Comecei a escrever na maca de um hospital, sem esperanças de muita coisa, então ver o livro finalizado é bem legal.


LI: E como você o resumiria?


FH: Como uma imersão na indústria do sexo na noite paulistana.


LI: Você acha que algumas pessoas que te conhecem podem ficar surpresas ao ler seus relatos?


FH: Antes do livro, eu podia contar em uma mão o número de amigos que sabiam da minha profissão, então acabei “saindo” do armário com os relatos. Acredito que quem me conhece de anos não imaginava as coisas que fui capaz de fazer.


LI: Os seus clientes estão cientes de que foram citados na obra?


FH: Alguns, sim! Outros, não contei por medo da reação, e também alguns desses clientes são homens mais engravatados, sabe, penso que não ligariam muito pra minha obra.


LI: Imagino que alguns sejam homens casados, que buscam o programa fora do casamento.


FH: Sim. Não sou bom com estatísticas, mas acho que posso dizer que mais de 70% dos meus clientes são homens casados em relações monogâmicas.


Não foram encontradas por esta reportagem estatísticas sobre a clientela da prostituição masculina em São Paulo, bem como não foram encontrados muitos estudos que identifiquem as características gerais do trabalho sexual masculino no Brasil.


LI: E te afeta em algo trabalhar em contexto de adultério?


FH: Não me afeta em nada. Sinceramente, prefiro os caras casados, pelo sigilo. Hoje em dia, com esse boom das redes sociais, acabo tendo receio de sair com alguém mais próximo da minha idade. Casados garantem o sigilo e a discrição.


LI: Você considera que o retrato da prostituição nas artes e mídias, no geral, é fiel ao dia-a-dia? Sei que você gosta da obra de Walcyr Carrasco, Verdades Secretas.


FH: A prostituição é diferente pra cada um. Alguns estão em situação de rua, outros, no conforto de suas casas, atendendo por webcam. Vai ser difícil uma obra retratar exatamente como é essa vida, porém acredito que o livro e o filme da Bruna Surfistinha são os mais fiéis à realidade.


Raquel Pacheco, conhecida popularmente como Bruna Surfistinha, é uma escritora, DJ, empresária e ex-prostituta, que tornou-se nacionalmente famosa nos anos 2000, através de um blog de relatos pessoais, com enfoque em suas experiências no trabalho sexual. Em 2011, foi interpretada por Deborah Secco em um filme biográfico. Algumas semanas após nossa conversa, Bruna recebeu em sua casa e postou fotos em suas redes de seu exemplar físico de HALEO.


LI: E quem te interpretaria no filme sobre o seu livro?


FH: Confesso que acharia muito interessante ver o ator João Guilherme me interpretando, por ele ainda ter essa aparência de menino, e por ser fã do trabalho dele.


LI: Pode falar mais sobre esse lado "menino"?


FH: Eu falo mais da questão física, sabe. Na cabeça de muitos, garotos de programas são caras de corpos malhados e tatuagens pelo corpo, e não é bem assim.


LI: Ainda assim, você cita no livro que seus clientes costumam ter o dobro da sua idade, em média. Como é lidar com isso, para você? Você diria que separar trabalho e desejo é um desafio?


FH: Eu me dou melhor com homens mais velhos. Acredito que meus problemas paternais me fizeram gostar exclusivamente de homens mais velhos. Então, pra mim, a diferença de idade chega a ser um alívio. E sim, estamos falando de seres humanos, de relações sexuais. Contato físico, sedução, romance. Às vezes é difícil segurar as emoções, não se apaixonar ou se envolver emocionalmente.


LI: Você acredita que a prostituição pode ser uma escolha para algumas pessoas?


FH: Com certeza. Eu mesmo fui uma das pessoas que escolheram a profissão, mas nós sabemos que a gente vive no país que mais mata transexuais no mundo, e a maioria delas estão nas ruas, se prostituindo, e não tiveram a mesma sorte que eu, de escolher ou não essa vida.


Segundo as mais recentes estatísticas, cerca de 90% de travestis e transexuais do país vivem da prostituição.¹


LI: Em alguns lugares, é recomendado o sexo de máscara devido à pandemia. Qual a sua opinião?


FH: Sinceramente, acho até engraçado. Atendi um cara usando máscara em março. Acho que não adianta muito usar máscara se você vai tocar outro corpo, mas não sou médico pra falar com propriedade, mas eu, Felipe, acho bobeira.


LI: E você pensa em largar a prostituição?


FH: É algo que sempre passa pela minha cabeça, penso em largar quando começo a me imaginar numa relação monogâmica. São poucos os caras que assumiriam um garoto de programa. Tirando isso, não tem muitas coisas que me façam querer largar a área.


LI: É a favor da regularização do trabalho sexual?


FH: Eu sou. Acho que, do mesmo jeito que as empregadas domésticas tiveram seus direitos garantidos nos últimos anos, os profissionais do sexo também deviam ter.


LI: Existe alguma mensagem que você gostaria de passar a todos os que se interessarem por sua história?


FH:Meu sonho é que não exista tanto estigma e preconceito sobre os trabalhadores do sexo, mas a expressão "filho da puta" existia antes mesmo de eu nascer, então acho que eu sozinho, com meus dois braços, não consigo mudar o pensamento de uma sociedade inteira, mas eu gostaria de conseguir fazer isso.





Autora/Entrevistadora: Laura Intrieri

Revisão: Glendha Visani


Imagem da capa:


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REFERÊNCIAS

1. https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/cerca-de-90-das-travestis-e-transexuais-do-pais-sobrevivem-da-prostituicao.ghtml

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