"ESTOU FELIZ QUE MINHA MÃE MORREU": O LADO OCULTO DO ESTRELATO DE JENNETTE MCCURDY



Em 9 de agosto de 2022, a ex-atriz Jennette McCurdy chocou a internet ao publicar seu primeiro livro de memórias, intitulado “I’m Glad My Mom Died” (“Estou Feliz que Minha Mãe Morreu”). No memoir, a autora relata os abusos que sofreu da mãe, Debra McCurdy, apresentando as consequências dilacerantes do trauma em todos os aspectos que dizem respeito à construção de sua identidade e como isso se manifestou em sua vida sob os holofotes.


Popularmente conhecida como a Sam, da série de televisão “ICarly”, produzida pela Nickelodeon, a artista narra sua carreira como atriz, desde o início aos seis anos, até o momento em que decidiu encerrá-la, aos 24 anos. Histórias de sua infância no ambiente familiar, de uma juventude conturbada por problemas pessoais e profissionais e uma exposição detalhada dos efeitos do estrelato enquanto nova completam as sequelas do relacionamento complicado entre Jennette e sua mãe.


No livro, conta que, apesar de ter demonstrado desinteresse em atuar ainda cedo, a pressão para mudar o estilo de vida humilde da família e o desejo de realizar os sonhos frustrados da pessoa que “mais admirava no mundo” a mantiveram presa no ramo. A autora expressa: “[desistir de atuar] foi importante para minha recuperação naquela época, pois representava a minha mãe vivendo vicariamente através de mim, algo que ela queria e eu não” (tradução livre).


A obra, dividida em “Antes” e “Depois” da morte de Debra, salienta a maneira que a personalidade narcisista da mãe se manifestou nos relacionamentos de Jennette com a família, na sua visão distorcida sobre amizades e romances, e no alcoolismo. O desenvolvimento de seus problemas psicológicos, como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), além de anorexia e bulimia, também recebem destaque na narrativa.


Descrições dos abusos sofridos, assim como as ocorrências e os comportamentos que procederam o óbito da sua “pessoa favorita”, estão contidas no livro. “Meu objetivo nunca foi a bulimia, eu estava tentando ter anorexia, mas eu não conseguia mantê-la sem minha mãe”, diz a autora, que teve o transtorno condicionado e encorajado por sua genitora a partir dos onze anos.


Sentimentos de negação e o momento de aceitação em relação às circunstâncias dos abusos marcam a segunda metade da obra. A ex-atriz disserta: “todo o meu estilo de vida era orientado pelo fato de que minha mãe sabia o que era melhor para mim, então aceitar que ela era abusiva comigo significaria reformular a minha vida inteira, o que parecia impossível na época” (tradução livre).


Fonte de controvérsias nas mídias sociais, a escolha do título chocante do livro foi justificada por Jennette, afirmando “eu acho que conquistei esse título através da minha escrita. Eu queria que fosse algo que chamasse a atenção das pessoas e as provocassem a ler o livro e, possivelmente, a entender, afinal, o motivo pelo qual eu o escolhi” (tradução livre).


Referenciado no memoir como “o Criador”, o showrunner de “ICarly”, Dan Schneider, também é uma das fontes do abuso relatado, com menções de comportamento intimidador e inapropriado dentro e fora do set de filmagens, e de incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas aos atores menores de idade. A intérprete de Sam diz ter recusado uma oferta de 300 mil dólares da Nickelodeon no momento de sua saída da emissora, uma forma de suborno para comprar seu silêncio.


A recepção do livro pela crítica excedeu as expectativas. Dave Itzkoff, do The New York Times, escreveu que a obra “engloba com precisão uma história de amadurecimento que é alternadamente angustiante e mordazmente engraçada”. Já a Publishers Weekly denominou “explosiva” a estreia de McCurdy como autora e chamou seu livro de “perspicaz e incisivo, comovente e cru”.


Um sucesso entre o público, “I’m Glad My Mom Died” vendeu mais de 200 mil cópias em sua semana de lançamento, se tornando um best-seller do The New York Times.


É possível comprar o exemplar em inglês nos formatos de capa dura, Kindle e audiolivro através da Amazon, e a versão traduzida para o português, “Estou Feliz que Minha Mãe Morreu”, será publicada no dia 15 de novembro no Brasil.



Autoria: Gabrielle Park

Revisão: Guilherme Caruso e Gustavo Vandresen

Capa: Simon & Schuster / “I’m Glad My Mom Died”

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REFERÊNCIAS:

[1]: MCCURDY, Jennette. I’m Glad My Mom Died. Simon & Schuster, 2022.

[2]: ITZKOFF, Dave. A Memoir’s Hard-Earned Title: Jennette McCurdy Is Ready to Move Forward, and to Look Back. The New York Times, Nova Iorque, agosto de 2022. Disponível em: https://www.nytimes.com/2022/08/03/books/jennette-mccurdy-memoir-mother.html

[3]: I’m Glad My Mon Died. Publishers Weekly, 2022. Disponível em: https://www.publishersweekly.com/9781982185824

[4]: ABC News. Jennette McCurdy shares the stories behind memoir “I’m Glad My Mom Died”. YouTube, agosto de 2022. Disponível em: https://youtu.be/hkqXK7nsvW0