EZEQUIEL - O SÁBIO ARREPENDIDO


Esses dias encontrei Ezequiel. Ele era um bom contador de histórias. Disse-me que saíra de casa por vergonha, não aguentava olhar para sua mulher. Perguntei-lhe: “Mas, senhor, o que aconteceu?”, Ezequiel me disse: “Olha filha, o erro é algo que nos cerca. Uma vez aberta a porta, raramente ele vai embora. O que aconteceu mesmo foi minha cunhada. Há mais ou menos um ano e meio ela começou a morar lá em casa e me provocava, sabe? Mas quem dá um beijo, dá dois e, quando eu vi, engravidei ela. No fim, agora tenho seis filhos.”


Não sabia muito o que falar a ele. Perguntei o que achava que era amor. Surpreendentemente, ou talvez não tanto, ele tinha a resposta na ponta da língua: “Amar é dar, sem esperar nada em troca.” Eu pergunto muito isso por aí, mas nunca tinha ouvido uma resposta tão rápida. Ele continuou: “Se eu tivesse um pão e ela nenhum, abriria mão dele inteiro. Nunca esperei que ela repartisse comigo. Mas mesmo assim ela o fazia. E por isso tenho tanta vergonha. Como posso olhar pra uma pessoa que sempre amei tanto, vendo a decepção nos olhos dela? Antes tivesse ficado só triste, isso eu conseguiria suportar.”


Ele também me contou de sua família. “Meu pai era torneiro mecânico, e assim me tornei também. vendo? Por isso que não tenho esse dedo.” Ele me disse que torno era algo caro, mas que podia ser um bom investimento. Eu respondi: “Dá reTORNO né?” — ele não riu. “Falando deles, meus pais eram exemplo de amor e justiça. Eu só saía de casa se acertasse a tabuada, ou tinha que ficar lavando louça.”


Contou-me do seu nome: Ezequiel. Disse-me que, oriundo do hebraico, significa “Deus fortalece”. “E não à toa minha mãe me nomeou assim”. Perguntou-me o que eu achava que era Deus, e, logo, respondi que, entre outras coisas, era amor. “Você acha que Deus é amor?” e eu respondi “Eu tenho certeza!” Mas logo retrucou: “Deus não é amor, Deus é justiça. Ele não perdoa porque tem dó, mas pelas suas atitudes. Eu sou pecador, mas ainda sou filho de Deus. E se tudo der certo, um dia vou voltar a ser respeitado justamente [...]” Passamos horas conversando. Contou-me histórias bíblicas, falou dos filhos e confessou que tinha saudade. “ tomando coragem pra voltar lá. Atrás de casa tinha um terreno, quem sabe não construo algo pra ficar perto deles todos”.


Ezequiel também me contou de Dimas. Na hora da cruz, do lado de Jesus, dois ladrões. Humildemente, Dimas pede para ser levado para o céu. “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”, e Jesus lhe respondeu: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Aos 45’ do segundo, arrependido, salvo e perdoado. Dimas, o bandido, como disse o Brown. E assim se sentia ele: tentando pedir perdão mais uma vez, só que um pouco antes da cruz.


No final, acho que Ezequiel era um grande sábio arrependido. Ele me ensinou que o erro come pelas beiradas e, no fim, te engole. Também entendi, mais uma vez, que só amar não é suficiente. Acho que o luto do amor, muitas vezes, é digerir o medo de esquecer tudo. Talvez partir possa doer, mas ninguém pode matar um amor em mim. E assim nascem as flores.



Autoria: Amanda Louro Sanchez

Revisão: André Rhinow e Guilherme Caruso

Imagem de capa: wgm.eth @wgm_v / Reprodução do Twitter