JÁ PASSOU DA HORA DE REALMENTE DISCUTIR FEMINISMO NA FGV



Nota: O texto foi escrito utilizando o gênero feminino nas palavras, com o intuito de reforçar a causa de uma maneira mais evidente. No entanto, é necessário ressaltar que o Coletivo SOMAS abriga e inclui pessoas que identificam-se com o uso do gênero neutro, seja devido à não binaridade, fluidez ou quaisquer outras identidades e expressões.


Até onde chega seu feminismo?

Percebemos que o ambiente elitizado da FGV, bem como a vivência privilegiada de parte de nós alunas, acaba por ofuscar outras pautas feministas que precisam ser levantadas e discutidas. Por conta disso, o recorte branco e cis presente no movimento dentro da faculdade é o maior alvo da crítica aqui construída - uma vez que o feminismo pouco existente na Fundação se configura de forma extremamente superficial e restrita.


Demoramos para finalmente começar a enxergar que ele não engloba as manas pretas, transsexuais e outras minorias. Nos questionar se estamos desenvolvendo um espaço acolhedor e aberto àqueles que precisam e querem é uma premissa infelizmente ainda pouco adotada na Fundação, mesmo entre nós mulheres.


Ampliar o olhar para as gordas, as pobres, as LGBTQ+, as pretas, as com deficiência e demais manas não padrão no nosso círculo é necessário, e algo nada recorrente dentro da FGV. É fundamental, primeiramente, que a sororidade seja efetiva entre todes do ambiente para que o feminismo seja disseminado de forma concreta.


Também parecemos esquecer que faculdade não é formada somente por alunas, mas também por professoras e outras funcionárias, as quais têm suas experiências e lutas individuais. Sabemos das dificuldades enfrentadas em existir como mulher no nosso futuro - ou presente - mercado de trabalho, mas não conseguimos prestar atenção nos problemas daquelas que fazem o ecossistema da faculdade funcionar. Sendo assim, precisamos construir juntas um local de suporte e crescimento da força feminina na nossa escola aberto às diferentes demandas que nele coexistem.


Não reconhecer a pluralidade das necessidades e vivências é silenciar a voz daquelas que já são caladas todos os dias. A bolha do conhecido feminismo branco e cisgênero predominante na FGV precisa ser expandida para que possamos avançar com profundidade na causa feminista.


É importante ressaltar que reconhecer e apontar as diferenças não é segregar ainda mais, e sim permitir a todas as minorias a conquista de seu espaço, afinal, onde há diversidade, existem diferenças. Tratar sobre o racismo, gordofobia, homofobia e outros preconceitos sofridos por aqueles do nosso lado pode ser mais efetivo que discutir assuntos em um grupo homogêneo. Está mais do que na hora de encararmos as problemáticas existentes e intensas na Fundação, as quais precisam de atenção e principalmente solução.


Como é ser mulher na FGV?

A FGV é um ambiente que trata intensamente do mundo dos negócios e que preza pelo sucesso acadêmico e profissional de todos na Fundação. Infelizmente, porém não surpreendentemente, esse meio é majoritariamente masculino e favorece que reflexos de uma sociedade elitista e machista apareçam no cotidiano gvniano. Não é difícil reconhecer que a potencialização e a perpetuidade de atitudes opressoras advém desse contexto, mas pouco se admite que o alunato - em sua maioria branco, cisgênero, heterossexual e de elite - seja co-autor dessa realidade. Aos olhos daqueles que não pertencem a esta bolha e daqueles que optaram por rompê-la, atos desse cunho nas salas de aula (presenciais e virtuais), nos corredores, nos auditórios, nos processos seletivos, nos esportes e nas festas universitárias ocorrem através de alunos e também de professores, funcionários e palestrantes. O machismo se concretiza na faculdade a cada caso de violência que é encoberto e normalizado.


Não é um elogio escutar que você deve largar a faculdade de negócios porque teria melhor desempenho sendo modelo. Não é aceitável ter o corpo constantemente sexualizado dentro - e fora - da faculdade. Não é justificável ser assediada porque é bixete. Não é confortável se vestir "de forma comportada” para ser levada a sério. Essas situações são uma amostra mínima de diversas outras assustadoras e rotineiras para muitas gvnianas. Nada disso nos faz sentir lisonjeadas, e sim causa medo, desconforto, indignação e desgosto. Queremos respeito por quem somos e reconhecimento decorrente da nossa capacidade intelectual, não conclusões baseadas nos padrões absurdos de beleza e comportamento.


Temos presidentas de entidades, alumni de destaque, professoras e coordenadoras admiráveis, alunas pertencentes ao quadro de honra, todas mulheres. Ainda assim, o machismo se encontra enraizado na Fundação. Não deveria existir orgulho por ser mulher e trabalhar com negócios, por entender de exatas e de mercado financeiro ou por ser CEO de uma grande empresa. O orgulho existente deveria ser advindo dos resultados oferecidos como profissional e estudante de excelência, capacidade que qualquer indivíduo obtém, independente do gênero ou aparência.


Qual é a importância do feminismo na Fundação?

Situações machistas, independente do grau, possuem efeito avassalador sobre as vítimas - afetam a nossa autovisão; distorcem a sensação de pertencimento; desestabilizam a autoconfiança; eliminam o conforto no local do ocorrido; extinguem a sensação de capacidade, dentre outras consequências. Ou seja, além de transfigurarem o psicológico da vítima, no ambiente acadêmico esse tipo de atitude tende a minar o desenvolvimento das alunas a curto e longo prazo.


Em um universo em que homens têm vantagem sobre o gênero oposto no microcosmo da universidade e do mercado de trabalho, que se expande a todas as esferas da vida em sociedade, apenas pela identidade de gênero, os valores estão invertidos. Essa sociedade que, em constante evolução, ainda se mostra em sua maioria patriarcal, amedronta, desestimula e desperdiça profissionais qualificadas do gênero feminino a todo momento. A relação é diretamente proporcional: quanto mais mulheres estiverem atuantes nos ambientes profissionalizantes e profissionais, mais se encorajam para adentrá-lo.


Quando o número de representantes políticas, profissionais e sociais decresce, automaticamente o de candidatas também é reduzido. Sendo a graduação atuante não apenas na formação do intelecto do indivíduo como em questão a valores e princípios, a desconstrução do machismo é essencial para revolucionar o mercado, através das gerações que estão o adentrando desde já. Dessa forma, o feminismo e a sororidade se tornam instrumentos principais para que esse equilíbrio seja alcançado, devendo ser colocados em prática na Fundação de alguma forma que atenda as complexidades dos recortes minoritários; caso contrário, as perdas são iminentes.


Por: Caroline Al-Assal, Letícia Cardia, Maria E. Prudente, Sofia Mahler,

Coletivo SOMAS


Foto da capa: Bea Vaquero


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