JACKIE E SPENCER, AS MOÇAS DOS COLARES DE PÉROLA



Jacqueline e Diana, bonitas, inteligentes e ricas, com lares confortáveis e uma disposição feliz, pareciam reunir algumas das melhores bênçãos da existência e viveram quase trinta e poucos anos no mundo com muito pouco que as afligisse ou contrariasse.


Nos anos de 2016 e 2021, o cinema foi agraciado com duas obras do diretor chileno Pablo Larraín: Jackie e Spencer. A mais antiga reconta a vida da ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy, durante os quatro dias que sucederam o assassinato de seu marido, John F. Kennedy (JFK). Estrelado por Natalie Portman, Jackie é um filme sobre o luto e a decadência de uma mulher que perdeu tudo da noite para o dia. A mais recente reconta a vida de Diana Spencer, princesa de Gales, durante os três dias entre a véspera de Natal e o Boxing Day, feriado inglês que é comemorado um dia após o Natal, de 1991. Interpretada por Kristen Stewart, Lady Di é retratada em momentos de grande vulnerabilidade que perpassam desde a deterioração de seu casamento com o Duque de Rothesay até sua dolorosa experiência com a bulimia. Com ambas as protagonistas vinculadas a famílias poderosas do século XX e à beira da histeria, as duas obras se complementam.


Kristen Stewart como Lady Di em Spencer (2022)


O primeiro parágrafo deste texto não é fruto da minha criatividade, mas um excerto do capítulo um do romance Emma, de Jane Austen, com algumas modificações gramaticais e verbos flexionados no plural. É simples traçar uma relação entre as musas de Larraín e a fictícia aristocrata inglesa do século XIX, porque as três tratam-se de mulheres belas, fúteis e mesquinhas, cujos gostos para joias e casaquinhos coloridos é impecável. Além do mais, cada uma delas tem uma grande amizade feminina, interlocutoras essenciais para que tenhamos acesso à subjetividade das protagonistas: Harriet Smith é a dama de companhia de Emma, Maggie é a costureira de Diana e Nancy Tuckerman é a assistente de Jacqueline. Mais importante que isso, todas elas são assombradas pelo poder e pela perspectiva de um futuro solitário: Emma teme a subalternidade, Diana teme que seu isolamento em meio à família real seja eterno e Jackie teme que a morte de seu marido marque o fim de sua riqueza e status.


Emma e Harriet em Emma (2020)


A fixação pela beleza, que está presente tanto em Jackie quanto em Spencer, está intimamente relacionada à maneira como as duas personagens exercem autoridade ao longo de suas narrativas. Ao performar feminilidade, seja através do uso de conjuntinhos Chanel ou de colares de pérola, acenos de mão e sorrisos amarelos, Jacqueline e Diana conquistam a adoração e o afeto dos moradores da Casa Branca e do Palácio de Buckingham, que as agraciam com presentes e favores. O que elas vêm a descobrir, contudo, é que mulheres que acumulam poder através da beleza estarão, para sempre, em débito com os homens que as concederam esse poder em primeiro lugar. No caso das nossas protagonistas, a beleza e a feminilidade traduzem-se em medos e paranoias ainda maiores. De um lado, temos a viúva dos Kennedy, que acabou de perder sua maior moeda de troca, o marido; do outro, a quase divorciada Lady Di, que não terá nem mesmo o título de lady após o fim de seu casamento frustrado.

Quando questionado quanto ao grau de fidelidade que seus filmes pretendiam ter com a vida das duas figuras políticas que decidiu homenagear, o diretor de Jackie e Spencer caracterizou suas obras como “fábulas de verdadeiras tragédias”. Ouso dizer que fãs de Lady Di e da Sra. Kennedy ficariam minimamente enfurecidos com a falta de compromisso que os filmes de Larraín possuem com a verdade. A The New Yorker qualificou Spencer como um suspense psicológico que mais se assemelha ao Bebê de Rosemary do que à série The Crown, da Netflix, que busca retratar a vida dos membros da Casa de Windsor. De maneira similar, o The Guardian qualificou Jackie como “uma história de fantasmas”, cujos cenários lembram o hotel de O Iluminado, de Stephen King. Não é difícil perceber que há um tom hiperbólico e lúdico em ambos os longas-metragens, que faz do sofrimento das protagonistas algo muito agoniante.


Natalie Portman como Jacqueline Kennedy em Jackie (2016)


Acredito não haver maneira melhor de representar essas jovens se não de um modo kafkiano. Por meio da loucura, da paranoia e do medo, as moças dos colares de pérola tornam-se menos primeira-dama e princesa de Gales e mais Jackie e Di, tristes e desesperadas pela aprovação alheia. Assim como no caso de Emma, suas mesquinhezes e futilidades são muito mais proeminentes para aqueles que decidem tê-las como estranhas ou então como belas e distantes conhecidas. “Eu li muito mais do que as pessoas imaginam”, disse Jacqueline ao jornalista que publicou seu relato a respeito do assassinato de JFK. “A beleza é inútil. A beleza é a roupa”, disse Diana à sua querida amiga, Maggie. Em um ato sincronizado, as duas mulheres, prisioneiras dos interesses políticos das famílias às quais se uniram através do matrimônio, buscam incessantemente por alguém que possa redimi-las. E esse alguém é um homem com o nome de Pablo Larraín.


Autoria: Beatriz Nassar

Revisão: André Rhinow e Bruna Ballestero

Arte: Fredrik Westin (1782-1862) Woman with pearl necklace, detail.


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