MAGNÓLIA



Recife, 1964. Magnólia era casada e tinha uma filha de cinco meses. Tinha acabado de fazer 19 anos e era bordadeira, como a mãe. Morava no bairro da Boa Vista, num apartamento que tinha uma sacada, de onde seu marido viu um jipe. Não demorou para que os militares subissem, sem interfonar nem tocar a campainha. Estavam com ordem de prisão para Cláudio e Magnólia. Ela era filha de um advogado filiado ao Partido Comunista Brasileiro, e só isso já era motivo para a prisão dela e de seus familiares, seguindo a de seu pai. O marido fazia parte de um grupo de esquerda da repartição pública em que trabalhava. O pai dela, Paulo, estava preso desde o dia 3 de abril, quando cansou de se esconder na casa de uma familiar. Os militares queriam levar os pais de uma bebê de cinco meses. E, quando perguntados sobre o que fazer com a menina, responderam a Magnólia: ela vem junto.


Tomaram o jipe, Claudia quietinha no colo da mãe. O advogado da família era Paulo. Preso, nem sabia que agora era a filha indo pro xadrez. E ninguém sabia bem como ele estava. Chamaram um advogado de direita, amigo do delegado, que foi apelidado de Alvinho por seus pares e era conhecido por espancamentos. O advogado mandou dizer que Magnólia estava amamentando, mesmo que não estivesse. Interrogaram várias vezes a jovem desaforada, nas palavras do delegado, que disse que não a interrogaria mais por causa dos desaforos. Ela mandou um bilhete para a mãe, pedindo para buscar fraldas para Claudia e modes, “caso fosse necessário”. Ofélia, com marido, filha e neta presos, em meio ao desespero oriundo daquela situação, tanto da sua família quanto do país inteiro, riu do pedido da filha, que não sabia se ia precisar de absorventes. Talvez fosse o único motivo para rir em vários dias. Magnólia dormiu em cima de uma mesa, que chamava de birô e, no dia seguinte, ela, o marido e a filha foram liberados. Ela foi para a casa dos pais. As notícias de gente morta e desaparecida não paravam de chegar. Ofélia, sem choro nem vela, firme, na primeira das que vieram a totalizar doze prisões do marido e primo.


Paulo ficou em um isolamento chamado x1-x2, em que só cabia uma pessoa deitada. Tinha 2 metros por 1, sem janela e com um buraco na parede por onde passavam um pedaço de pão e uma caneca de café pela manhã. Lá, no prédio que hoje se chama Paulo Cavalcanti, estava preso um camponês, que se manifestava contra a ditadura no interior, e enlouqueceu na prisão. Era hora de Paulo sair do ginete, como chamavam o isolamento bem apertado, e o próximo da fila era o camponês. O pai de Magnólia disse que não havia condições do colega ficar ali. Voltou e passou mais três dias no lugar dele. Para Paulo, em prova de seu vigor e sua confiança na ideologia, o maior incômodo eram as muriçocas. Como era crime a filiação a partidos como o Comunista Brasileiro, mas não era crime ser comunista, ao ser interrogado, ele negava filiação, mas não negava o comunismo. Passadas outras dez prisões, a última durou 11 meses. Foi lá que sua neta, Claudia, deu os primeiros passos.


Magnólia e sua família não foram vítimas de tortura física por um motivo muito simples. O regime manteve os privilégios que sempre existiram no país. Um advogado, como Paulo, era mais respeitado do que um jornalista, um músico, um jogador de futebol, um camponês ou uma mulher de qualquer uma dessas profissões. Mesmo assim, a tortura estava lá: nos amigos, nos colegas de cela, nas ameaças, no jeito de falar e no jipe que subiu sem interfonar e levou uma menina de cinco meses. É por isso que, diferente de muitas outras histórias, esta não é sobre ratos, choques elétricos ou escapamentos de carros. É sobre violências menos chocantes e talvez igualmente dilacerantes.


Hoje, anistiada, Magnólia raramente fala sobre o que viveu na ditadura, ou sobre o que viu seu pai viver, a menos que o interlocutor ou a situação do país a provoquem. Quando fala, não gasta muito tempo e muda o assunto assim que der aquele por encerrado, mas também não esconde alguns detalhes cruéis para o ouvinte. Sentiu, em outubro de 2018, o mesmo que sentia em março de 1964, que uma coisa muito ruim ia acontecer. Um clima violento e medonho. Pessoas, como Mestre Moa do Katendê, morrendo por querer um país justo. Discursos descabidos e apoio a quem não age a favor da democracia brasileira. Um país sob o comando de assassinos. O dia 31 de março e o dia 5 de dezembro são especialmente pesados. Magnólia viu a Comissão da Verdade que a anistiou ser questionada por um presidente eleito. E a ditadura que tanto a fez sofrer ser motivo de homenagem. Passados mais de dois anos do pleito eleitoral que nos trouxe até aqui, sente cada vez mais aquilo que sentia há quase 60 anos, quando via os amigos morrendo ou sumindo para sempre, sem vestígios até hoje.


Revisão: Julia Rodrigues e Cedric Antunes

Imagem de capa: Dora Cavalcanti


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