METALINGUAGEM DO ROMANCE FRAGMENTÁRIO



No último mês, tudo saiu entrecortado. Nenhum pensamento ocupou mais do que um parágrafo e eu passei a meditar ao som de: "Não é um livro, é uma crônica. Amarre tudo em duas páginas". Tentei forçar uma dentre as sensações familiares e imergir a tal ponto que pudesse fazer algo de útil. Em vão. Nada me consumiu, nem senti a necessidade de expulsar os meus conhecidos excessos. Sinto como se por 30 dias uma torneira tivesse gotejado sobre um copo, mas ele nunca derrama.


Talvez eu só não queira me esforçar, ter o trabalho de pensar uma ideia nova e um jeito inteligente de organizá-la. Sou uma pessoa preguiçosa e gosto de tudo fácil. É fácil escrever tomada por um sentimento ensurdecedor, o barulho confunde os meus sentidos, numa embriaguez distante da racionalidade de quem sabe o que quer dizer, como um bêbado que chora na festa e não sabe explicar o porquê. Nesses momentos, as palavras são como vômito, e só volto a ser a mesma depois de colocar tudo pra fora. A real é que não estou acostumada com o silêncio, e este texto me parece mais uma obrigação.


Pensei durante um século sobre o que escrever, até perceber que a minha trava não era a falta de um tópico concreto, mas a fixação pela ideia da não-forma. Queria o descompromisso com a cronologia. Precisava que cada parágrafo surtisse um efeito diferente, que fosse difícil acompanhar a linha de raciocínio e que apenas amigos próximos entendessem algumas referências. Uma vontade quase física de escrever sem a preocupação de me fazer entender. Nesse meio tempo recebi uma foto no whatsapp com um trecho sublinhado: "E que eu tenha a grande coragem de resistir à tentação de inventar uma forma".


Até agora não achei realmente a quem culpar, mas o romance fragmentário caiu como o perfeito bode expiatório. Eu li O Pai da Menina Morta, e desde então os meus pensamentos ou acontecem em listas ou em parágrafos curtos e incomunicáveis, como se o receptor tivesse que desvendar a mensagem por bem ou por mal, sem dicas pelas próximas 10 páginas. Acontece que eu não escrevo livros, escrevo textos curtos, e não mando tão bem quanto Tiago Ferro a ponto de pensar que saberia fechar todos os cortes abertos.


Nada me interessou tanto quanto o descompasso da narrativa. O livro é uma ficção, isso o autor já disse mais de uma vez, assim como as minhas crônicas também são, e nesse ponto eu e ele somos desacreditados. Gosto de pensar que é porque somos bons demais, e não porque assumem que colocaríamos nossas vísceras à mostra em plena luz do dia, no horário de almoço, enquanto as crianças chegam da escola. Somos melhores do que isso!


De toda forma, deixei de lado a ideia de uma próxima crônica logo nos primeiros dias e optei pela sinceridade de um relato, algo como "chamar cada coisa pelo seu nome certo". Vi a frase tatuada no braço de um cara e achei o máximo, mas nunca li o livro. Antes do texto que vos fala, comecei um chamado "Ausência". Muito bom pra quem está tentando evitar os clichês, certo? Ele fala sobre alguém que se foi, mas eu não tenho uma filha, então o abandonei porque não queria que o Pai da Menina Morta pensasse que eu comparava a minha dor à dele.


Na última sessão de terapia descobri que tenho medo de morrer, e que orgasmo em francês é traduzido para petite mort. Acho que ela tentou um paralelo para dizer como a perda de controle pode ser prazerosa. Se até a minha terapeuta me vê como uma daquelas pessoas que ficam satisfeitas com a fantasia freudiana que relega a subjetividade ao inconsciente, como eu poderia lutar contra essa personalidade blasé? Coitada, ela segue a linha da psicanálise inglesa, ela não faz por mal…


E vai ser assim até que venha a vida e me encha de náusea, que quebrem o meu coração ou que eu ganhe uma filha para amar mais do que a mim mesma, só então saberei sobre o que falar. Antes do próximo texto, preciso olhar dentro de um cérebro humano vivo e descobrir o segredo mais bem guardado do comunismo do Leste Europeu, e então ninguém escreverá melhor do que eu. Ou pelo menos foi o que me prometeram.



Revisão: Julia Rodrigues e Cedric Antunes

Imagem de capa: Jerry Jenkins

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