MUDANÇA


O nosso editor chefe, Victor Coutinho, traz uma reflexão diferente (e essencial) sobre mudanças. Mudanças que são naturais e inerentes ao ser humano, mas que frequentemente são motivos de choque ou até preconceito.




É muito estranho mudar algo em si mesmo que geralmente é parte de quem você é, da sua personalidade. Você aí que nasceu no famoso “lar cristão” e decidiu se distanciar disso tudo deve saber bem do que estou falando. Sempre vai ter na ponta da língua um providencial “se Deus quiser”, um reverente “graças a Deus” ou um espantoso “Nossa Senhora” no momento de reagir em uma conversa.

- Mas você é cristão?

- Não, brasileiro.

Talvez o ateísmo tenha sido o assunto mais importante da sua adolescência. Na internet, é claro, porque você até hoje não contou esse detalhe para os seus pais e ainda responde com sorriso amarelo às saudações das “pessoas da igreja”. Por que se dar o trabalho, afinal? É mais cômodo manter uma vida dupla e não decepcionar ninguém.

Outro exemplo é quando se decide fazer uma transição para o veganismo. Não instantânea, é claro, para não sofrer muito.

- Olha só essa promoção. Bora comer lá?

- Mas só tem pratos com carne.

- Puts, esqueci que você não come mais...

Tudo bem o seu amigo ter esquecido. Você mesmo esquece às vezes. No meio de uma conversa sobre o quão incrível é aquela hamburgueria famosa você vai se lembrar que nem pode mais ir lá.

E sempre tem aqueles que se chocam:

- Como é que isso foi acontecer com você?

Igualzinho à reação que, você imagina, seus pais terão com o assunto religioso. Por isso você não contou. Começo a pensar que comer carne é um tipo de religião e que os veganos sejam os ateus da alimentação. Ou talvez os ateus é que sejam os veganos da espiritualidade. A semelhança é que todo mundo consegue ser muito chato e insensível, crentes ou não.

Era para ser só uma brincadeira, mas de repente esse texto virou uma confissão. Vixe, “confissão”? Vixe, “vixe”? Olha eu aí caindo no tema religioso mais uma vez.

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