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NÓS E ELES




Crianças são tão bobas. Elas são facilmente enganadas por seus próprios medos, ensinadas a temer o que não conhecem e, como consequência, fogem deles. Algumas poucas são mais corajosas, devo dizer, pois enfrentam de forma fervorosa os seus maiores obstáculos, seja um cômodo escuro, um monstro imaginário ou um inseto asqueroso. São essas as crianças que merecem os elogios dos adultos, o reconhecimento por sua braveza. Enfrentar o desconhecido, o que se teme, não é para qualquer um. Por isso, é tão louvável quando alguém cresce preservando essa característica, fundamental para se viver em um mundo tão perigoso quanto o nosso.


Crianças são bobas, mas adultos são espertos. Se, enquanto pueris, nossos medos se resumem a cômodos escuros e insetos nojentos, quando crescemos esses medos se expandem e passam a abranger qualquer coisa que consideramos estranha, fora de nossa realidade, anormal. Anormal… sim, um bom jeito de definir o que é perigoso ou não. O que deve ser combatido ou não. Adultos são espertos não por conseguirem se proteger de forma mais contundente das anormalidades, mas sim por conseguirem definir tão bem este conceito.


Hoje, o que é o normal? Nascer, estudar bastante, ingressar em uma boa faculdade, arranjar um bom emprego, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Tudo com um toque de branquitude e heteronormatividade. Nascer homem ou mulher, ingressar em uma faculdade que tem rosto e cor definidos, casar com um homem, se você for uma mulher, ou com uma mulher, se você for homem. Ter filhos que nascerão homens ou mulheres e que serão bobos o bastante para temer o escuro e insetos e serão louvados quando, corajosos, enfrentarem esses medos. Morrer e ter uma lápide contendo o seu nome e suas conquistas na vida. Fim. Nada que fuja muito do script, que fuja muito do normal.


Mas e quem não segue esse roteiro pré-fabricado? A resposta é óbvia: se você não é normal você é, então, anormal. E como anormal, você, assim como tudo o que você representa, deve ser combatido. Não tem conversa, nem meio termo.


Mata o viado. Mata a sapatão. Mata a travesti. Limpa o mundo e deixa tudo normal. Queima esse arco-íris, coisa de bicha. Faz ele virar homem e ela virar mulher. Cada um no lugar que tem que estar, seguindo o roteiro dos normais. Essa é a resposta de uma sociedade que teme o diferente. Que teme, acima de tudo, a não exclusividade, ter que dar espaço para novos atores em uma encenação artificial de uma vida plástica.


Não à toa, hoje assiste-se a uma crescente onda de ódio contra a população LGBTQIAPN+. A homofobia voltou à moda, perpassando por piadas inocentes, por xingamentos irônicos e, como ato final, por violência pura e simples. No Brasil, não é diferente: o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, estampado em manchetes de jornal.[1]


No fim, tudo é dividido entre nós e eles. Nós, anormais, perseguidos, combatidos em nome da preservação do status quo. Eles, normais, polidos, corretos. Tudo que permeia essa dicotomia é igualmente lido como anormal, para nós, e normal, para eles.


Assim, é possível abrir classificações preconceituosas que corroboram com o pensamento de que a vivência, as dores ou mesmo a cultura LGBTQIA+ não são o normal. Por isso, tenta-se higienizar, sanitizar para caber no mundo heteronormativo adequado. Música só se for de um homem, de preferência cisgênero e heterosexual, cantando sobre a dura realidade da vida de um homem cisgênero e heterossexual. Drag queens só se forem polidas, divertidas — que se integram com facilidade nesse teatro higienista—, pois caso contrário não pode, já que a extravagância corrompe o roteiro e gera a anormalidade. Beijo? Sexo? Maluquice, tem que ser contido para não assustar as crianças, afinal elas temem o desconhecido. Não pode falar alto, não pode gesticular, não pode performar masculinidade se for mulher, nem feminilidade se for homem. Não pode usar salto alto se você calça mais de 36, não pode se pintar e nem usar gírias que eles não entendem, pois, se não, é ameaça ao mundo deles. Nas ruas, nada de olhar feio, pois pode apanhar. Justificável, afinal é da natureza humana combater o medo, o anormal. Nós morremos, eles vivem.


Nem um conto de fadas poderia ser mais preciso nessa cronologia perfeita: crianças bobas aprendem a, corajosamente, combater o anormal. Adultos espertos internalizam os critérios da normalidade para, assim, conseguirem perseguir livremente tudo aquilo que fugir disso. Adultos bem menos espertos para fingir é que pagam a conta, dão as suas vidas por não preencherem os requisitos impostos por uma sociedade doentia.


De ponta a ponta do país, violam-se os direitos à vida. Ou melhor, vida não, pois vida é só a que segue o roteiro. Menos que isso é ruim, perdição, pecado. Travesti boa é travesti morta, como revelam os dados: 131 travestis e transsexuais foram assassinados em 2022.[2] Dandara, Chiara, Thalita. Bruna Brasil![3] Brasil… brasil, sil, sil, sil. Olha lá, ela não gostava de futebol, tinha que ser. Morreu foi tarde, não seguiu o roteiro. E ela? Quer ser mãe e lésbica ao mesmo tempo? Não rola. Deu falha esse roteiro, mata e recomeça. Luana Barbosa[4] não era digna de encenar essa peça. E ele? Ninguém mandou ir atrás de amor, de coisa errada. Foi morto com motivo de sobra. Júnior[5] não devia estar aqui.


A violência ilustrada não é brincadeira. É realidade para nós, imposta por eles. Começa muito cedo, na encenação do medo, na anormalização do estranho. Mas calma, não pode chorar. Há quem diga que, no fim, esse “povo” é tudo privilegiado, que odeia o país. Não sabem o que é cultura popular, não conhecem a realidade do Brasil. Futebol e cerveja para eles. Para nós perseguição. Diva pop é coisa de menina histérica e de viado, homem brasileiro gosta de bar e, às vezes, de matar o que teme. Corajosos.


As bobas crianças crescem e não deixam para trás o temor infantil do desconhecido. A diferença é que o mundo encantado que traz a ilusão do normal as faz pensar que são espertas e poderosas. Essas crianças não encontram mais em seus quartos escuros ou na barata nojenta seus pesadelos, mas sim nos diferentes, nos que estão fora da heterogeneidade de uma bolha social. São esses os males combatidos. Estado, sociedade, cultura, tudo junto para impedir o avanço dos anormais.


Nós nos relegamos aos cantos, escondidos, temendo ser livres para não atrapalhar o mundo deles. Mas não está bom. Não podemos nos reunir, associar. O que é isso? Conspiração para barrar a tradicional família brasileira? Pai, mãe, filhos, amante, álcool e ódio… para eles o normal, para nós o anormal. Vai ser bicha para lá, sozinho, longe de qualquer um que pode te ajudar. Fora da casa deles, pois lá só se segue o roteiro.


Acabou. Para nós, pelo menos, acabou. Para eles nunca acaba. O mundo continua igual. A violência desmedida não para e, a cada segundo, tira uma vida, apaga uma luz. No palco, as pessoas bem ensaiadas seguem suas vidas. Estudam, entram em uma boa faculdade, conseguem um bom emprego e têm filhos para ensinar-lhes a odiar, temer o diferente. O ciclo segue. Nascer, estudar, trabalhar, casar e temer, para eles. Nascer, lutar, lutar, lutar, sobreviver, resistir, resistir mais um pouquinho e tentar viver, para nós. Um dia, quem sabe, essa peça plástica acaba, e o teatro pode dar lugar ao mundo real, em que anormais possam ser, nem que seja um pouco, parte do elenco principal.


Autoria: Arthur Quinello

Revisão: Anna Cecília Serrano e Enrico Recco

Imagem de capa: O Lampião da Esquina, N° 12, 1979



 

Referências


[1]VIDICA, L. LGBTFobia: Brasil é o país que mais mata quem apenas quer ter o direito de ser quem é. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/lgbtfobia-brasil-e-o-pais-que-mais-mata-quem-apenas-quer-ter-o-direito-de-ser-quem-e/>.


[2]131 pessoas trans foram assassinadas em 2022 no Brasil, aponta dossiê. Disponível em: <https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/janeiro/131-pessoas-trans-perderam-a-vida-em-2022-no-brasil-aponta-dossie>.


[3]“Meu filho vivia sendo humilhado”: caso Dandara expõe tragédia de viver e morrer travesti no Brasil. BBC News Brasil, [s.d.].


[3]ROSENDO, L. C., Gabriele Koga, Marcos. Jovem trans de 21 anos é assassinada na zona Sul de São Paulo. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/jovem-trans-de-21-anos-e-assassinada-na-zona-sul-de-sao-paulo/>. Acesso em: 23 nov. 2023.


[3] QUEER, IG. Travesti é encontrada morta com sinais de violência no Maranhão. Disponível em: <https://queer.ig.com.br/2023-04-18/travesti-e-encontrada-morta-com-sinais-de-violencia-no-maranhao.html>. Acesso em: 23 nov. 2023.


[4]Mãe, negra e lésbica: assassinato de Luana Barbosa permanece impune após três anos. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2019/04/13/mae-negra-e-periferica-assassinato-de-luana-barbosa-permanece-impune-apos-tres-anos/>.


[5]Vídeo mostra últimos momentos de jovem gay morto que teve corpo jogado em cisterna. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2023/06/video-mostra-ultimos-momentos-de-jovem-gay-morto-que-teve-corpo-jogado-em-cisterna.ghtml>. Acesso em: 23 nov. 2023.


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