NOTA DE REPÚDIO AO CASO DE MACHISMO NA EESP


Aluna da Escola de Economia de São Paulo (EESP)


No início da semana, a Escola de Economia de São Paulo (EESP) teve sua terça-feira completamente abalada por um formulário que circulou no grupo de Whatsapp dos bixos de 2022. O documento, criado por um aluno da turma, levava o nome de “Competição de fêmeas para ver os jogos da copa” e submetia as meninas da faculdade a perguntas machistas, gordofóbicas e transfóbicas.


É muito frustrante que, em uma das maiores faculdades da América Latina, com alunos que tiveram oportunidade de acesso à educação básica de qualidade, ainda existam pessoas que perpetuam o machismo de uma forma tão escancarada e nojenta. Em um ambiente de pessoas tão capacitadas e com tamanho conhecimento, como que esse aluno se sentiu confortável o suficiente para compartilhar um formulário com falas tão absurdas em um grupo de Whatsapp com mais de cem integrantes?


É fato que a Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas, o próprio curso de Economia e o mercado de trabalho relacionado à área ainda são ambientes majoritariamente ocupados por homens. Nós, futuras economistas, mestras e doutoras em Economia, enfrentamos todos os dias diversos desafios para impor-nos e mostrar nosso valor e capacidade em um mercado extremamente machista.


Ter a fala interrompida durante as aulas PBL, falar algo que é ignorado quando dito por nós, mas escutado quando sai da boca de um homem, escutar piadas machistas de professores durante as aulas, não ser levada a sério no ambiente acadêmico e até mesmo notar diferenciação nas avaliações de tutorial dos meninos em relação às nossas. Todos estes são exemplos de acontecimentos recorrentes e que nos causam desgosto, mas que também nos dão motivação para mudar e criar um ambiente mais justo e igualitário.


Este se torna mais um momento de atenção e reflexão quanto a atitudes machistas, que podem parecer quase invisíveis aos olhos de muitos, mas que têm um grande impacto coletivo na vida das mulheres. Esperamos que, independente da decisão do aluno de se desligar ou não do curso antes das medidas cabíveis serem tomadas, a direção da FGV EESP tome as medidas concretas necessárias para que o aluno sofra as devidas consequências. A instituição deve reconhecer a gravidade da situação e pronunciar-se publicamente contra o ocorrido, pois tal não condiz com os valores da Fundação. Medidas internas para frear a normalização de violências diárias no ambiente universitário precisam ser colocadas em prática.


Aluna da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP)


Na terça-feira, recebi mensagens de pessoas revoltadas nos grupos de Whatsapp da GV. A priori, não entendi o porquê do fuzuê, mas então mandaram o link de um forms que surgiu no grupo dos bixos de Economia. Ao abri-lo, vi as perguntas mais repudiáveis possíveis, com teor extremamente machista, capacitista, gordofóbico e transfóbico.


Entendo que a melhor faculdade de Economia do Brasil é majoritariamente composta por homens cis, héteros e brancos que compõem as classes socioeconômicas A e B, mas isso não dá margem para atitudes escrupulosas. São, de fato, necessárias ações afirmativas para atrair e reter mais mulheres no curso de Economia da FGV.


Estudando em uma das melhores faculdades de Administração da América Latina, vejo meu privilégio de poder compartilhar esse espaço com outras mulheres, mas isso não nos livra da presença do machismo e de outros preconceitos direcionado a nós. O forms joga luz em um pequeno pedaço do que passamos todos os dias. É difícil saber que somos objetificadas cotidianamente e que nosso valor intelectual é frequentemente ofuscado por conta disso.


Ainda assim, reforço que sou extremamente privilegiada e que não posso falar por todas as mulheres, mas deixo o questionamento: se, mesmo ocupando esse lugar de privilégio como mulher, parte da comunidade LGBTQIA+ e amarela que advém de uma classe socioeconômica confortável, ainda sofro com o machismo, imagine o que outras mulheres muito mais marginalizadas passam.


Deixo aqui minha indignação em nome das mulheres da EAESP. Nossa solidariedade e apoio às economistas da EESP e a todas as outras economistas do Brasil por terem que enfrentar de cabeça erguida, todos os dias, esse tipo de atitude repudiável.


Aguardaremos uma resposta institucional da Fundação e as punições passíveis ao responsável pelo forms. Esperamos que as devidas punições sirvam de exemplo para aqueles que ainda acham qualquer coisa desse tipo aceitável, e que sirva também de exemplo de que, se passarem muito pano, uma hora ele rasga.



 

Segundo a nota de repúdio emitida pelo Diretório Acadêmico Getulio Vargas (DAGV) no Instagram, a coordenação e a direção da EESP já foram notificadas a respeito da situação e o caso está sendo analisado com total prioridade e respeito aos procedimentos e normas da FGV.



Autoria: Alunas da EESP e EAESP

Revisão: Beatriz Nassar e Anna Cecília Serrano

Imagem de capa: Google Imagens