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O ÚLTIMO CANÁRIO DO MUNDO


(Música para leitura: 

"Plage Coquillage (First Kiss Song)" – Tao Mon Amour)


Como não amar o amor? Aquela sensação que nos enche de adrenalina e um conforto para além deste mundo. Algo que claramente deveria ser considerado uma droga, de tão viciante e perigoso que é. Ainda assim, o procuramos como se fosse a única coisa de que precisamos para viver, e talvez realmente seja o principal componente da vida humana. O que somos senão objetos ocos em busca de um coração para nos ocupar? A medicina já diz que, sem o bombeamento de sangue pelo nosso corpo, morreríamos em questão de minutos. Essa dualidade com a biologia humana me faz acreditar que todos temos dois corações, na verdade: o verdadeiro e aquele que bombeia o sangue.


Um apenas cumpre uma mera função biológica que nem está sob nosso próprio controle. O outro, é o órgão mais misterioso do corpo humano. Seu funcionamento ainda não foi totalmente descoberto por cientistas, só sabemos que ele tem a capacidade de fazer tão bem ao mesmo tempo que é letal a qualquer um de nós. Também descobrimos uma estranha propriedade: ele raramente funciona sozinho, sempre necessitando de uma ajuda externa para que opere da melhor maneira possível.


Você já se apaixonou por alguém? Uma pergunta meio besta, quando primeiro se vê, mas sério mesmo: você já se apaixonou por alguém? O amor é um conceito profundamente complexo, na minha opinião. Uma conexão de amizade nunca superará uma de genuíno amor, apesar de a preceder.


Buquês muito elaborados, dates meticulosamente planejados e sonhos de futuros incríveis… ahh, como é bom se apaixonar. Admito que sou um romântico desesperado, idealista até meu último fio de cabelo e um gamadinho crônico. Por puro prazer, minha cabeça repassa o velho “Com quem será?” milhares de vezes, me aprofundando e aproveitando as incríveis fantasias de dois filhos e 1 gato (não me julguem). Sempre achei uma parte muito especial da minha personalidade, e imagino que de muitas outras pessoas também. Apesar do que alguns podem dizer, a vida precisa de um romance, não é? Faz mal? E como. Mas é tão maravilhoso. A inundação de dopamina em nossos cérebros a cada vez que pensamos naquela pessoa especial é melhor do que qualquer bolo de chocolate do mundo. O amar nos tira da mundanidade de nossas vidas e nos transporta para esse mundo além das nuvens, de puro êxtase…


Apesar de tudo, sofro com uma condição que boa parte dos românticos também sofre: a falta dessa pessoa tão especial. Temos amigos, familiares, até mesmo pessoas especiais que se encontram uma espécie de limbo emocional em nossas cabeças, mas nunca romances propriamente ditos. A maioria dos românticos apenas sonham em serem completos... Ai ai… quanto drama, não? Mas às vezes eu gosto de pensar sobre tudo isso de outra forma. Às vezes ser romântico não implica que temos de ser desesperados pelo amor. Imaginar cenários de profunda admiração e carinho são sempre ótimos, não vou negar, mas não resumem toda a experiência de ser romântico. Não somos tão simples (e dramáticos) quanto parecemos…


A estrada parece infinita deste ponto. Uma linha reta, estreita, rodeada por um mato verdejante e claro que também se estende para além do que os olhos podem ver. O carro está cheio, viagens em família são sempre assim. As crianças dormindo que nem os anjinhos que não são, mas fingem muito bem ser, com suas expressões de calmaria e paz interior. O Fê segurando seu inseparável sapo de pelúcia e a Bella com uma manta que arrasta pelo chão da casa.

– Quão limpa será que tá aquela manta da Bella?

– Boa pergunta. Eu falo pra ela parar de arrastar ela pelo chão, mas quando ela vai me escutar?…

– Será então que a gente devia deixar ela com a manta? Vai que a alergia ataca.

– E você quer tirar? E acabar com a paz do Oriente Médio que acabamos de criar aqui?

– Sensata como sempre você, não é?...


Você levanta as pernas e as coloca por cima do painel, como se estivesse em uma cadeira de praia. Reclina o banco só um pouco, Fê tem um sono bem leve e qualquer toque nele iria acordá-lo. Meus olhos já estão começando a ficar pesados, quem diria que dirigir tanto assim dava sono? E se eu só fechar meus olhos um pouquin... TUC! Ai! Você belisca o meu braço e só aponta o energético no porta-copos ao meu lado.


– Pergunta: como eu ainda te aturo mesmo?

– Fácil, você me ama.

– Será? Será mesmo? Me belisca mais uma vez pra ver se eu te amo.

– Pelo menos você não bate o carro comigo. E ainda lembro de trazer os energéticos. Você esquecia sua cabeça se ela não fosse colada.

– E você as malas, se eu não existisse na sua vida.

– Quer que eu te belisque de novo?

– Tá bom, tá bom. Parei, parei...esquentada


TUC! Mais um beliscão, ok ok, esse eu mereci mesmo. Você retira do porta-luvas um livrinho de palavras cruzadas que eu costumo fazer quando estou no trânsito. Você o folheia um pouco, procura as quase completas e com caneta na mão parte para saciar o serzinho organizacional que existe em você.


– “De um modo completamente inconstitucional; que se opõe ao estabelecido pela Constituição”

– Quantas letras?

– 1...2...3...4...5...27

– 27?? Você tem certeza?

– Total. Alguma ideia?

– Fala de novo.

– “De um modo completamente inconstitucional; que se opõe ao estabelecido pela Constituição”

– Inconstitucionalissimamente

– Aham…

– Eu juro que essa palavra existe.

– Da onde você tirou isso?

– De um dicionário, ué

– Muito engraçado. Sorte sua que aqui não tem internet aqui pra ver se você não só inventou isso.

– De nada.

– Velhaco…


Quando se vê, hoje em dia, os românticos aparecem por toda a parte, batalhando ferozmente contra os amores líquidos e os “aquarianos natos” desse mundo. Mas a barra para se considerar um romântico fica cada vez mais alta, os padrões de devoção e idealização beiram o incompreensível. Romeu e Julieta tornaram-se posers. “Deveria ter feito mais!”, é o que vão dizer. A verdade é que, toda vez que mexo na internet, encontro poemas profundos e sentimentais, alusões a amores esquecidos, mas sempre presentes. Paixões inflamadas e, em decorrência delas, tristezas inconsoláveis. Eu não sei os outros, mas sinto que o sentido de romance tem se perdido com o tempo. O que as pessoas pensam ser romântico? Jantar à luz de velas? Ou morte por envenenamento, em luto pela perda de sua amada?


Quando que, para ser romântico, se tornou necessário se tornar melancólico, dramático e profundo? Claro que todos nós somos um pouco de tudo, mas não há nada mais romântico do que andar pela avenida e admirar as pequenas coisas. Crianças andando de mãos dadas com seus pais, a maneira como o sol reflete nas árvores, amigos rindo incontrolavelmente. Reduzir a capacidade de ser romântico a somente aventuras da paixão seria deturpar tanto a profundidade e a realidade desse tipo de pessoa tão única no mundo. Românticos são seres dóceis, desesperadamente calmos. Emocionais, mas não emotivos. Empáticos, mas não o centro das atenções. Ser romântico implica em uma complexidade nem mesmo compreendida pelo próprio.


Eu sei que agora virá toda uma legião de pessoas reclamando que estou falando coisas sem sentido, ou que nunca sequer pensaram em ser os dramáticos e melancólicos que falei sobre. Alguns talvez não o sejam mesmo, mas quem realmente é romântico não terá tempo para esse tipo de coisa, está muito ocupado(a) observando a mudança de cor das árvores e os sorrisos dos casais a sua volta.


Românticos são amantes do amor. Todos queremos alguém para nós, verdade. E ninguém sabe melhor disso do que os românticos, que além de quererem alguém para si, adoram ver os outros com seus pares. Nós nos alimentamos em ver a felicidade de amores nascendo e vivendo na natureza, casais que planejam piqueniques ou que apenas saem para passear. Beijos cinematográficos em meio à chuva, ou casacos emprestados (e muito grandes) sendo usados em meio a abraços calorosos.


Uma vez me contaram um curioso fato sobre a natureza: canários possuem somente um único parceiro durante sua vida. Se acasalam, tem os ovos, e seguem voando, mas nunca mais procriando com outra ave. Não existe uma beleza nisso? Olha como a natureza funciona em meio as suas sutilezas e miudezas, não é mesmo? Pássaros, animais sinônimos de liberdade, que escolhem ficar somente com um indivíduo para sempre. Há quem olhe e pense: “credo!! Só um??!”, mas também quem pense: “ahh não, até um pássaro tem alguém, e eu não??”. Eu prefiro pensar: nossa, quão meticulosa é a natureza, não? Eu tenho um canarinho segurando uma flor (uma rosa, claro) colado bem atrás do meu celular, um constante lembrete do que é um romântico. Uma mistura de amor pelos outros e idealização, mas acima de tudo, amor pelo amor.


Ufa! Chegamos finalmente, as placas de entrada de Andradina parecem não mudar nunca. Eu olho para trás e os pequenos, como mágica, já sabem que chegamos, coçando os olhos e bocejando de leve:


– Papai, chegamo? – disse Bella.

– Sim, filha, daqui a pouco já é a vovó.

– Eles tinham que acordar bem agora? –você me disse, sussurrando.

– Por que, amor?

– Me deu vontade de te beijar.

– Mas eu tô dirigindo.

– Não seria a primeira vez – disse você, com uma leve risadinha depois.


Eu te beijo, enquanto no fundo, sons de nojo ecoam de duas crianças que acabaram de presenciar o fato de que seus pais se beijam. Mas até aí, o que eles sabem sobre o amor?


– Eu te amo

– Também te amo…


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Autoria: Enrico Romariz Recco

Revisão: Artur Santilli e André Rhinow

Imagem da capa: O Beijo – Gustav Klimt


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