O AMOR SHAKESPERIANO NÃO EXISTE



William Shakespeare foi um dos maiores escritores da história e suas obras serviram de inspiração para múltiplos retratos contemporâneos do amor. 10 Coisas que Odeio em Você, o sucesso adolescente dos anos 2000, é uma interpretação do clássico shakespeariano, A Megera Domada. Contudo, custa perguntar se Shakespeare teria tido tamanha influência no espectro cultural caso abordasse um tema diferente em suas composições. Como o amor é um assunto capitalizado pela indústria cultural há anos, a importância que damos a ele é imensurável e pode ser ilusória. Logo, peço que o leitor ou a leitora pense em quantas vezes já se sentiu sozinho ou desejou um relacionamento amoroso. Seriam esses sentimentos espontâneos ou estaríamos todos submetidos a um conjunto de emoções que nem sequer nos pertencem? Será que homens e mulheres são afetados pela representação midiática do amor da mesma maneira?


A autora britânica Alice Oseman satisfatoriamente retrata esses dilemas em Loveless. Por meio dos questionamentos da protagonista Georgia Warr quanto à própria sexualidade, Oseman critica a representação midiática do amor. Em conformidade com isso, a personagem confusa compartilha pensamentos como: “Era tão fácil romantizar o romance, porque ele estava em toda parte. Ele estava na música, na TV e em fotos do Instagram… Eu podia ver tudo isso, a todo tempo e em todo lugar, mas quando chegava mais perto, eu percebia que não havia nada ali”. Durante o restante da narrativa, Georgia é alvo de uma série de conteúdos midiáticos que identificam o romance como um requisito indispensável à felicidade, como fanfics e filmes de comédia romântica. Consequentemente, quando se entende como assexual, a protagonista acusa a sociedade de cavar um buraco irreparável em sua alma, supostamente destinado ao amor.


É comum que esse buraco seja maior em indivíduos do sexo feminino. Durante muito tempo, as mulheres foram limitadas aos papéis de esposas e de mães. Hoje em dia, por mais que esse não seja mais o caso, elas são significativamente mais prejudicadas que os homens pelo retrato midiático do amor. Se tomarmos como exemplo Katerina Stratford (Kat), a protagonista de 10 Coisas Que Odeio Em Você, perceberemos que a inteligência e a opinião de indivíduos do sexo feminino tendem a caracterizá-los como detestáveis ou cruéis quando não vêm acompanhadas de bondade. Ao longo do filme, a imagem de Kat só muda de megera para virtuosa depois que ela encontra o amor. Retratos como esse reforçam a ideia de que mulheres não dependem de habilidades intelectuais para prosperar socialmente, mas sim de sua amabilidade. Quanto a isso, Georgia Warr faz uma observação crucial em Loveless: “O fato de que eu tão desesperadamente queria um namorado era um sinal que eu não era forte ou independente ou auto-suficiente ou feliz sozinha. Eu era, na verdade, bem solitária, e desejava ser amada.”


O livro de Alice Oseman também estabelece uma relação direta com uma obra shakespeariana, Romeu e Julieta. Em uma apresentação de teatro realizada por Georgia e seus amigos, a protagonista assexual ironicamente interpreta Julieta Capuleto, um dos papéis mais românticos da história do teatro. Por mais que esse desdobramento narrativo soe paradoxal, ele pode ser relacionado à maneira como o amor é retratado no clássico de Shakespeare. Uma vez que a peça trata de uma paixão proibida entre filhos de famílias inimigas, o romance entre os jovens resulta em uma tragédia, pois desafia a convenção social do amor à época. De maneira similar, a vida amorosa de Georgia está fadada ao fracasso, porque também contraria as expectativas da sociedade de seu tempo.


Em contrapartida, a grande concepção shakespeariana de amor encontra-se na peça A Megera Domada. Assim como Kat em 10 Coisas Que Odeio Em Você, a protagonista shakespeariana é retratada como defeituosa e incompleta, porque subverte os ideais sociais de feminilidade. No desfecho da história e conforme também acontece na adaptação cinematográfica, a megera finalmente é domada e passa a ser admirada quando conquista um parceiro do sexo masculino. Ao contrário de Romeu e Julieta, a obra acaba em casamento e não em tragédia, pois a convenção social do amor à época depende estritamente do controle da protagonista rebelde por um homem.


Sendo assim, o reforço constante da indústria cultural quanto à primordialidade do amor na vida dos indivíduos do sexo feminino explica porque tantas meninas desejam estar em relacionamentos amorosos desde os estágios iniciais de suas vidas, como na adolescência e no começo da vida adulta. Até mesmo a assexual Georgia Warr sentia-se obrigada a contrariar sua orientação sexual para ser aceita socialmente. Nessa mesma lógica, Kat só se desenvolveu plenamente na obra cinematográfica após ter encontrado um parceiro. Desta forma, é minimamente questionável a existência do amor shakespeariano popularizado pela mídia e que convence gerações de mulheres de sua inutilidade fora de um relacionamento. Tendo isso em mente, talvez alguns dos homens da atualidade apenas sejam amados graças àquilo que representam, visto que o amor não passa de um símbolo de status no universo feminino.




Revisão: Bruna Ballestero e Glendha Visani

Imagem de capa: Domínio público/ Wikimedia commons

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