O DIA EM QUE MEU AVÔ ENVELHECEU PELA PRIMEIRA VEZ



Coisa de um ou dois segundos. Meu avô levou um ou dois segundos a mais para responder a uma pergunta corriqueira, que eu fazia para puxar papo sempre que nos encontrávamos - e isso bastou. Durante aquele um ou dois segundos, eu vi um semblante novo, não característico daquele homem que até então espantava todos quando comunicava sua real idade, devido a sua extrema lucidez, seu físico conservado e um pouco de tinta no cabelo. Como se perdesse, só por alguns centímetros, seu chão, só por alguns segundos, meu avô olhou para frente por um breve momento, sem fixar o olhar em nada específico, e, então, retornou sua concentração para a nossa conversa. Esta foi a primeira vez, em meus vinte e dois anos, em que percebi. Meu avô envelhecia.


Como falei, o Geraldo nunca facilitou para ninguém o exercício de lembrarmos que somos humanos e, portanto, finitos. Cliente assíduo de shampoo tonalizante há um tempo maior que minha idade, meu avô mantinha, até o início da pandemia, no auge de seus noventa anos, uma rotina constante de nadar às manhãs cinco vezes por semana, ir trabalhar em sua loja de móveis das oito às seis - fazendo jus ao estereótipo de famílias imigrantes árabes - realizar suas atividades domésticas sozinho, e ir visitar, aos domingos, de bicicleta, o túmulo de minha avó no cemitério da cidade. Mantinha também cabelos artificialmente grisalhos, nunca brancos, é claro. Ao longo de 2020, parou por cerca de um ano de ir à natação, e voltou imediatamente ao trabalho depois de vacinado contra a Covid. Durante o ano, teve algumas instabilidades em seu coração, finalmente alguma coisa natural de sua idade, e foi obrigado por seu médico e familiares a aceitar uma cuidadora dormindo em sua casa, no caso de alguma emergência. Ele a considera inútil. E, no fundo, nós também.


Durante aquela tarde, reparei também que a casa de meus avós mudava. Para começar, ela não era mais aquela Casa dos Avós ideal, repleta de nostalgia e recordações. A identidade de minha avó já não se manifestava lá, naturalmente, há mais de dez anos, e tudo, desde a disposição dos móveis até as comidas na geladeira, refletiam cada vez mais a rotina de um homem viúvo que buscava praticidade, e só. E o engraçado é que, mesmo indo para lá com uma certa frequência e acompanhando as mudanças graduais, precisei primeiro perceber que meu avô mudava para me dar conta de que o ambiente ao seu redor também o fazia.


Ele continua fazendo questão de esbanjar sua ótima memória a todos, perguntando sobre detalhes que muitas vezes nem nos lembrávamos sobre nossas vidas. Nunca vou esquecer uma vez em que, distraída durante uma viagem de carro, no banco de trás, comecei a batucar em minha perna uma levada de instrumento que tocava em escola de samba. Geraldo, no banco da frente, não só ouviu o barulho, bem baixo, como me perguntou, sem contextualizações, se eu tinha saudades. Fazia mais de um ano que eu não tocava, nem o instrumento, nem no assunto, e desta vez quem demorou para entender a pergunta e respondê-la fui eu. De uma forma quase injusta, o meu avô me mimou por muito tempo por ser um lugar seguro de uma das principais angústias de nossa vida: a mudança. Isso acabou. Mas, meu avô não. Ele ainda é a mesma coisa, para falar bem a verdade. Afinal, foram só um ou dois segundos.


por Laura Intrieri


Revisão: Guilherme Caruso

Imagem de capa: Laura Intrieri

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