O FIM ESTÁ PRÓXIMO, MAS NÃO BAIXE A GUARDA



Acho que vale introduzir esse texto com uma explicação sobre sua organização. Ele está dividido em duas partes. A primeira delas é uma anedota. Faço uma curta alegoria sobre essa, se deus quiser, volta a normalidade. Depois, faço um exercício para tentar racionalizar as atitudes que são observadas nas pessoas. Já vou deixar claro que os raciocínios que apresento são elaborados por mim mesmo, então apesar de aparentarem razoavelmente formais, não passam da minha opinião.

Pego minhas coisas, estou a caminho do mercado. Casa, mercado, casa. Entro no carro, ligo os motores. Máscara no rosto, estou pronto para o mundo. Tiro o veículo da imobilidade, os vidros estão fechados, ali me sinto protegido. 2 minutos depois: PERIGO! Tenho que abrir os vidros para passar pelo portão do meu prédio. Abro as janelas, comprimento o porteiro de longe e com receio, o vírus pode estar por aí. “Graças a Deus”, penso logo após fechar o vidro, por enquanto acabou. Passo meu álcool gel. Agora o nervosismo só retorna no mercado.


Cheguei ao mercado, deixo o álcool em gel no carro, ele não é tão importante agora, mas a máscara continua no rosto. Enquanto faço minhas compras desvio das pessoas, não quero correr riscos. Todos os itens dentro do carrinho, comprimento o caixa do supermercado. Já não sinto mais tanto medo, “ele não deve estar contaminado”.


Volto para o carro, limpo minhas mãos, o celular, os cartões, a carteira, e sigo rumo ao meu ponto de partida. Quase chegando em minha residência, lembro que preciso comprar utensílios na papelaria. Mudo de direção.


Estaciono, entro na loja. Aperto a mão do atendente, que por sinal me atendeu muito bem. Pego os utensílios que estava precisando, e volto para o carro. Já deu de me expor ao vírus, devo voltar para o lugar de onde saí.


Chegando aos grandes portões que separam meu prédio da rua, toca o telefone. “Vamos almoçar?”, penso comigo mesmo “Estou com fome, pode ser uma boa ideia”. Mudo novamente os rumos, pego uma nova corrente de ar e vou para um bom restaurante. Encontro meu compadre, nos cumprimentamos, um bom aperto de mãos. Pedimos uma boa comida e tiramos as máscaras apenas para comer. Ao fim do almoço, ele me faz um convite: “Vai ter um churrasco na casa de um conhecido, vamos?”. “Vamos!”, respondo sem titubear.


Chego na casa do conhecido, ainda de máscara. Avisto um grande amigo que já não vejo há quase um ano. O comprimento com um grande abraço. O pano no rosto já estava incomodando. Retiro a proteção, afinal, estamos entre amigos.


Churrasco vai, churrasco vem, um grupo lembra que vai ter uma festa. As 20 pessoas do encontro entre amigos viram 100 na festa. Bebo de copos alheios, fumo cigarros que passam na roda. A essa altura já são 10 horas da noite. Preciso voltar para casa, que amanhã tenho almoço na minha avó.

A maioria das pessoas já viveu ou cansou de ouvir essa história. Uma coisa leva a outra e quando você vê, sua vida já deixou de ser aquele cárcere. A minha pergunta aqui é: Por quê? Por que uma coisa leva a outra, por que o medo vai diminuindo?


Apesar da minha história escalar mais rápido e mais intensamente do que, de fato, ocorreu, a quarentena não se flexibilizou em um dia. Ela aconteceu. As pessoas foram se permitindo cada vez mais. Tenho alguns caminhos para explicar esse fenômeno.


O primeiro é puramente racional. As curvas de contaminação estão caindo, enquanto o custo de ficar trancado em casa, por mais um dia, tem ficado cada vez mais alto. Por outro lado, o custo de se expor diminuiu, em conjunto com o contágio. Considero, aqui, que o preço que se paga por sair de casa é a probabilidade de ser contaminado.


O segundo motivo é, na verdade, o mesmo que o primeiro. A diferença está no que considero como o custo de se expor ao vírus. Partindo da mesma hipótese de que o indivíduo sairá apenas se os custos forem maiores que os benefícios, podemos supor que o custo é a probabilidade de contrair o vírus acrescido de um componente de medo. Esse componente de medo diminui caso você tenha saído, mas não tenha contraído a doença na última saída. Ou seja, a progressão dos seus passeios ocorrerá de uma forma parecida com o que foi contado na anedota.


Por fim, vale ressaltar o efeito de role model. Pessoas que você admira - como é o caso de artistas, blogueiras, e presidentes - também têm dado seus pulos para fora da quarentena. Isso, consciente ou inconscientemente, te influencia a fazer o mesmo.


Todas essas ideias são simples e é fácil encontrá-las nas experiências que temos no dia a dia. A vida real deve ser um mix de todas essas coisa. Sistematizá-las é importante para termos uma ideia da forma como agimos e nos policiarmos, porque o problema, no nosso contexto, é que sair é uma externalidade. O custo de uma saidinha aqui, um encontrinho ali, não recai, necessariamente, sobre aquele que cometeu o deslize, mas sobre toda a sociedade. Por isso, internalizar esse custo ou, em economês, adicioná-lo à sua função de utilidade, é fundamental.


Logo, logo, a vacina deve estar aí. Mas, até lá, a quarentena ainda não acabou por completo.

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