O QUE JERUSALÉM ME ENSINOU SOBRE GUERRA, FÉ E PAIXÃO?

Também teremos textos quinzenais às quartas, GV! Nossa colunista convidada, Nina Avigayil Lobato, aluna do MBA de relações internacionais da FGV, abordará temas de âmbito internacional em seus textos. Hoje, falaremos sobre a cidade sagrada para muitos religiosos, Jerusalém.

Eu ainda me lembro da primeira vez que eu vi o brilho dourado causado pela luz do sol sob as pedras de Jerusalém. Era realmente uma cidade dourada. O cansaço causado por uma viagem de mais de dez horas e pela burocracia da segurança do aeroporto Ben-Gurion não diminuíram a minha animação. Eu esperava viver uma aventura; um verão nessa cidade marcada pela guerra, pela fé e por paixões.


Naquele verão de 2014, era possível ver muitos posters pela cidade com a foto de três jovens Judeus; Eyal Yifrach, Gilad Shaar, e Naftalina Frankel. Três rapazes Judeus que haviam desaparecido enquanto buscavam carona no caminho entre a escola e as suas casas, nas colônias Judaicas na Cisjordânia (território em disputa e parcialmente controlado por Israel desde 1967). As fotos dos rapazes me chamaram atenção, mas a minha mente estava preenchida pela expectativa de estudar em um seminário religioso de Jerusalém: o Instituto Jeanie Scottenstein de Estudos Avançados de Torah para Mulheres (ou Nishmat).

Israel é uma democracia liberal marcada pela diversidade; uma população de cerca de 8 milhões de pessoas, sendo 75% delas judeus, enquanto 21% da população é árabe, os outros 9% restantes são pessoas que, por uma razão ou por outra, não estão registrados no Ministério do Interior.


Dentro dessa população que se identifica como Judeus; 40% se identificam como seculares, 23% como tradicionais, 10% como nacionalistas religiosos, e 8% como ultra-ortodoxos. Dentro da população que se identifica como árabes israelenses; temos 14% mulçumanos, 2% druzos (a maioria dos quais serve nas Forças de Defesa de Israel), 2% de cristãos e 1% de outros ou sem religião (dados oriundos do Pew Research 2016; “Israel Religiously Divided Society”). De acordo com o Presidente de Israel, Rivlin, a sociedade israelense está dividida em quatro grandes “tribos”: Judeus seculares, árabes israelenses, Judeus nacionalistas religiosos, e Judeus ultra-ortodoxos. Cada uma delas dialoga com as demais e contribui para a riqueza da sociedade como um todo. Logo, se você realmente deseja conhecer Israel, você precisa fazer um processo de imersão em cada uma dessas “tribos”.


Durante o verão de 2014, a minha “tribo” era a comunidade Judaica nacionalista religiosa de Jerusalém, ou sionista religiosa, ou “Dati Leumi”. Esta comunidade pode ser descrita da seguinte forma: é composta por Judeus religiosos integrados à sociedade moderna, cuja maioria é politicamente de centro-direita e majoritariamente sionistas (vivem e defendem a necessidade do movimento nacionalista judaico).


Do total de 800 mil judeus que vivem nos assentamentos Judaicos da Cisjordânia, 63% são Judeus religiosos e, dentre estes, 36% são “Dati Leumi”. Ou seja, faz parte da vivência cultural desta comunidade a crença de que Israel deveria estender a sua soberania se não à totalidade do território da Cisjordânia, pelo menos a uma parte do mesmo. Outra curiosidade a respeito desta comunidade: é no coração desta comunidade que estão os seminários religiosos que treinam mulheres para se tornarem estudiosas dos principais textos que compõe a tradição Judaica, bem como é aqui que se discute feminismo, dilemas morais na guerra, o choque entre o indivíduo e o coletivo na religião, os impactos de séculos de perseguição na tradição Judaica e os impactos da modernidade na religião.


A Nishmat é um desses seminários religiosos. Foi no confinamento do Beit Midrash (ou Salão de Debates) da Nishmat que eu mergulhei na Grécia de Sócrates, Platão, Aristóteles, no Pensamento Judaico Moderno de Rosenzweig e Hirsch, na necessidade de expandir o palácio da religião para as mulheres de Tamar Ross, nos dilemas éticos do Tanach, na lógica dos debates da Guemara, nos aspectos legalistas da tradição Judaica e onde eu toquei o silêncio palpável que segue o barulho das sirenes antimísseis.


Os três rapazes Judeus que estavam desaparecidos; Eyal Yifrach, Gilad Shaar, e Naftali Frankel, foram sequestrados e mortos no verão de 2014, por membros do grupo Hamas (grupo considerado como terrorista pelos Estados Unidos, Israel e União Europeia), de acordo com o governo de Israel. Na época, o Hamas negou o envolvimento com esses assassinatos. Os corpos dos três rapazes foram encontrados sem vida, no dia 30 de junho, após onze dias da Operação Brother’s Keep das Forças de Defesa de Israel (FDI). Rachelle Frankel, mãe de Naftali Frankel, trabalhava como professora na Nishmat. Este foi um dos episódios de uma escalada de violência, entre o Estado de Israel e o Hamas, na qual 250 mísseis foram lançados pelo Hamas sob civis israelenses e ataques terrestres e aéreos, das Forças de Defesa de Israel, foram feitos contra alvos do Hamas, na Faixa de Gaza, no contexto da Operação Protective Edge.


A minha viagem para Israel, no verão de 2014, foi a minha primeira viagem sozinha e o meu primeiro contato com uma zona de guerra. Eu lembro dos soldados entrando nos ônibus a caminho de suas bases militares, dos impactos econômicos causados pela retirada de reservistas da vida civil, do barulho dos helicópteros sobrevoando a minha casa, do silêncio que preenche o vazio dos abrigos antimísseis enquanto se ouve as explosões nos céus, dos rostos dos jovens soldados falecidos estampados nos jornais, do olhar de preocupação do farmacêutico enquanto ele ouvia as notícias emitidas pelo rádio, do clima aquecido pela mistura nociva de paixão, violência e medo, dos debates que ocorriam no meio religioso, e do sentimento de fraternidade entre os israelenses. Um sentimento de fraternidade oriundo da crença mútua de que cada israelense, independente das diferenças políticas ou religiosas, é responsável pelo bem-estar do outro israelense.


Essas experiências me causaram um enorme fascínio pelo fenômeno da guerra no sistema internacional e os processos de comando e controle, inteligência, e logística de qualquer operação militar. Nas pesquisas que desenvolvi após o meu retorno ao Brasil, eu me perguntei se o direito internacional, se a mútua dependência econômica entre os Estados, ou mesmo se o aumento do conhecimento sobre as demais culturas poderiam nos levar a um sistema internacional sem conflitos. Apesar de não existirem conclusões definitivas para essas perguntas, eu permaneço pessimista. A anarquia no sistema internacional e os eventuais retrocessos históricos parecem oferecer apenas uma reposta para as minhas perguntas: os Estados estão destinados ao conflito se as condições certas surgirem em um dado quadro geopolítico.


Está uma das razões pelas quais eu escolhi me dedicar ao estudo de Relações Internacionais. Tal como Tucídides, eu escolho observar os fatos políticos que se desenrolam ao meu redor, tendo sempre como base a história como testemunha da falibilidade humana e a geopolítica como testemunha de elementos da realidade que vão além do controle humano. Peço que o leitor não confunda o meu pessimismo com falta de fé na humanidade ou o meu ceticismo com falta de paixão, pois Jerusalém também me deu lições nesses dois campos. As marcas dos tiros que ainda podem ser vistas nos muros da cidade velha de Jerusalém e os discursos religiosos marcados pelas lágrimas e medo da violência do conflito, ainda permanecem na minha mente como um alerta: a fé deve ser temperada pela razão (Torah Umadda), tanto quanto a paixão deve ser diluída com um pouco de dúvida.


Errata:

Alguns dados do texto, abaixo, estão incorretos. São eles: (1) atualmente, existem 500 mil colonos Judeus, no território da área C, na Cisjordânia; (2) os 250 mísseis que o Hamas jogou sobre o território israelense e civis israelenses, foram o número de mísseis que forçou as Forças de Defesa de Israel à realizar a Operação Protective Edge e, durante o conflito no verão de 2014, caíram 3000 mísseis; (3) O Hamas assumiu a autoria do sequestro e assassinato dos jovens após algumas semanas depois da guerra. A presente errata foi feita pela própria autora do texto no dia 19/05/2019.

0 visualização