O REVOLUCIONÁRIO ATO DE DUVIDAR



“Eu falo aqui como leigo, mas leigo veterano, ao menos.”

“A Montanha Mágica”, Thomas Mann


Difícil encontrar alguém que já não tenha se deparado com um indivíduo em situação tosca. Acha-se na completa razão, dono da fala. Reveste-se numa agressividade velada, rebatendo tudo o que lhe contraria ou agride suas convicções. Apenas deste ângulo, ele se pareceria apenas com um “ignorantão”. Mas não, o tosco normalmente tem argumento. O mais importante: tem bons argumentos. Seria quase um sofista, se não pelo fato de que nem sempre está isento de sentido. Ele nos leva, pois, a lhe dar completa razão na maioria dos casos — fala com eloquência, propagando um espírito livre, heróico e corajoso. E deixaria de ser realmente um espetáculo, caso não se encontrasse embebido em uma comicidade. Isso porque ele acerta muitos alvos, sim, com muita convicção. Mas também, quando erra, erra de verdade, em confianças e intensidades destoantes. Se ele percebe, aí é de cada um. Mas já adianto: creio que poucos suportam perceber. E aqui, portanto, o cômico do tosco pode ultrapassar seus limites, transfigurando-se numa verdadeira tragédia. Como identificar, então, um pensamento ou um comportamento tosco?

A questão inicia-se quando não se admite a possibilidade de se estar errado. Por mais que a sofisticação do pensamento seja alta e o número de pessoas que tomem partido da ideia seja volumoso, um pequeníssimo equívoco sobre a direção de nossas reflexões pode nos levar a desembarcar em conclusões das mais absurdas. A ciência atual se utiliza de métodos capazes de nos presentear com afirmações refinadas de quase absoluta certeza. No entanto, por detrás da certeza científica, ainda reside um “quase” — uma possibilidade de rever, repensar e reelaborar. E é nele que precisaríamos calcar nossas ponderações, pois até mesmo ela, a ciência, que busca orientar-nos racionalmente por meio de um método objetivo, depende, não surpreendentemente, de exaustivas reflexões e debates, mas, principalmente, de uma predisposição para ser questionada ininterruptamente de forma a nos estender modelos talvez cada vez melhores. Além disso, há muitas matérias nas quais é quase impossível chegar-se a uma sentença plenamente categórica que conseguiria dar conta da totalidade e complexidade do mundo, como é o caso da política, da psique, da moral e das paixões. E, longe de meramente o mundo em si apresentar tais limites para o pensamento, temos, também, o perigo de cairmos em armadilhas postas pela nossa condição humana, das quais podem ser pedras impossíveis de se desviar. A finitude, os desejos, o inconsciente, a crença, o biológico. Estaríamos privilegiando nossa própria experiência ao navegar por esses mares?

Assim, se queres encontrar e desmantelar pessoas, atitudes e ideias toscas, basta provocá-las aos moldes socráticos. Pragmaticamente, isso significaria perguntar ao advogado o que ele entende como justiça. Ao administrador, procurar obter pensamentos a respeito das diferentes facetas do lucro. Questionar o economista se há modelo efetivo sem renúncia. Com o diplomata, tentar traçar os porquês da guerra. Do marceneiro, “simplesmente” se esforçar para extrair o motivo pelo qual a madeira, cuidadosamente trabalhada por ele em cada curva e relevo, ser encontrada majoritariamente em tonalidades amarronzadas na natureza, e não entre azuis, verdes e amarelos.

Não é um exercício confortável, e quase nunca é produtivo. É provável, portanto, que não se deveria praticá-lo a todo momento, do contrário não passaríamos de pessoas inconvenientes e, talvez, paradoxalmente, toscas, uma vez inibindo a ação e o trabalho dos outros ao emaranhá-los em tanta dúvida e incerteza. Mas reforço: o nu — a verdade —, por mais que seja cobiçado, conforta-se, normalmente, em se revelar entre quatro paredes e, naturalmente, se surge um estranho-alguém cobrando sua manifestação, este não será recebido em plenas cordialidades e etiquetas em sua morada. Dessa forma, que o desnudamento de nossas ideias, uma vez necessário, aconteça em silêncio. Ninguém quer acabar como Sócrates, que praticou tais exercícios debaixo de um céu límpido, julgado, culpado e morto por “corromper a juventude ateniense”.

Tal empreendimento da dúvida não aconteceu de maneira simples no decorrer dos cursos e meandros que a humanidade foi tomando (e aqui me restrinjo à perspectiva ocidental, haja vista as fronteiras de meu conhecimento). Após os gregos terem se desafiado nesse exercício, um longo período de obscurantismo generalizado, embora nunca absoluto, se deu no campo do questionamento durante a Idade Média. A inquisição seria, portanto, apenas um sintoma dessa configuração. Com René Descartes, pai do racionalismo, entretanto, o exercício da razão começou a abrir novas comportas.


Obcecado pela tarefa de provar a existência de Deus por meio da razão, Descartes constatou que sua existência era completamente passível de ser rebatida, pois dependia filosoficamente de diversas postulações a priori para ser alcançada. Sem surpresa, para uma sociedade extremamente religiosa e inflexível, esse era um problema certamente relevante. Para além disso, o filósofo enfrentava a problemática de que todas as coisas aparentavam não contar com pilares sólidos de conhecimento, o que praticamente invalidaria o enquadramento das coisas dentro do movimento racionalista. A verdade poderia não existir, uma vez que nada garantiria com certeza que o mundo tratava-se de uma ilusão e percepção. O mundo, ele mesmo, junto com todos os corpos, poderia ser apenas um sonho no qual tudo e todos que vemos e conhecemos não passariam de projeções. Em última instância, poderia até ser que tais figuras fossem geradas por um “gênio maligno”, o qual controlaria todo este aparato, renegando o que conseguiríamos ver à prisão das suas vontades.

Apesar disso, para Descartes, em meio a tanta dúvida, seria possível chegar a uma conclusão essencial: se esse suposto “gênio” engana algo, este algo precisa necessariamente existir em alguma medida. Com efeito, a nossa própria existência seria um axioma — uma sentença irredutível a partir da qual tudo derivaria. Às palavras do pensador francês, “cogito, ergo sum” [penso, logo existo]. E então lançou-se um pouco mais de luz em direção a tempos antropocêntricos e racionais no campo do conhecimento ocidental.

O filósofo, em o Discurso do Método (1637), denominou esse processo, de maneira geral, como dúvida hiperbólica, a qual consistiria, em suma, em retirar a superfície vultuosa que cobriria toda e qualquer discussão, extraindo, degenerando e organizando cada uma das camadas de pedras de incerteza que a compõem até que se chegue às conclusões mais seguras possíveis. Deveríamos tentar chegar na verdade das coisas considerando tudo o que é incerto como supostamente falso. A partir daí, identificada a verdade, revisitaríamos as então falsidades com uma segurança relativamente maior, uma vez que nossas bases estariam mais sólidas.

Mas é necessário tomar um certo cuidado, pois a dúvida hiperbólica também pode ser perigosa. Duvidar, duvidar e duvidar: o que fazer com isso tudo? Se dependermos de uma certeza para agir, é muito provável que a ação seja suprimida, levando-nos à estagnação ou ao acovardamento. Sem falar que não seria nenhum absurdo ponderar que este mundo físico não rareia de causas que demandem partido e ação o mais rápido possível — o tempo é um fator crucial também. O que falo aqui, na verdade, é de uma espécie de “ceticismo cuidadosamente dosado”. Não se trata de uma descrença exacerbada e desmedida, mas de sempre suspeitar, considerar os próprios limites, duvidar, desconfiar, de cruzar as sobrancelhas, de ponderar a probabilidade de se estar equivocado e de afirmar, porém agora abarcando a consciência daquilo que nos é desconhecido.

Seria fácil esse duvidar cair na linha de uma “ideologia do centrismo”, mas creio que estamos longe disso, pois aqui houve uma preocupação com a problemática da estagnação. Além disso, deve-se considerar que o centro pode se revestir de uma suposta sabedoria e parcimônia, alegando absorver o “melhor” e dispensar o “pior” de cada extremo político. Entretanto, tal posição pode ser tão radicalmente mediana quanto os demais radicalismos de esquerda e direita. Sem falar que uma posição seguramente de centro implica numa certeza de que as outras posições não podem estar totalmente certas, o que, como vimos, fatalmente poderia suprimir o cobiçado ato de duvidar.

Dito tudo isso, a segurança de que nosso agir não está sendo rispidamente tosco se dá, em algum grau, por meio do benefício que podemos obter por meio do ato de duvidar. De que, se não nos levarmos tão a sério e não admitirmos com profundo orgulho que podemos estar confiantemente viajando na nau dos loucos e dizendo absurdos por aí, pelo menos estaremos considerando essa probabilidade. Se há um velhinho sujo, simples, sozinho e feio sentado num banquinho nos confins do Sertão, o qual pode abarcar todos os adjetivos e substantivos que rondam a ideia de “tosquice”, só irei desestabilizar essas possíveis precipitações na medida em que colocá-las em cheque, em dúvida. Talvez ele seja, na verdade, um sujeito repleto da mais fina sofisticação. Talvez, um alguém rico em pequenos e novos segredos. Um alguém com simples, mas cruciais, reflexões acerca da vida e dos afetos. Talvez ele não seja nada. Deixar a suspeita vivamente escoar é preciso. Suspeitar é o primeiro passo para qualquer forma de diálogo.



Autor: Gabriel Linares Fernandes;

Revisão: Guilherme Caruso, Artur Santilli e Glendha Visani;

Imagem de Capa: Autoria própria.