PAIXÃO - SUBSTANTIVO FEMININO


Por Ana Beatriz Oliveira


Uma das poucas certezas da vida de um brasileiro — especialmente em momentos tão conturbados como o que vivemos — é de que, em algum momento, ouviu ou ainda vai ouvir a célebre frase: “O futebol é a paixão nacional”. Do costume de não perder a partida das 16 horas do domingo a sentar-se à mesa do bar ao som de “Uma partida de futebol”, da banda Skank, a cultura brasileira é permeada por elementos daquele que é considerado o grande esporte do país. Seja pelo orgulho que perpassa as gerações anteriores ou pelo sonho que move as futuras, o futebol é parte da identidade do Brasil. O curioso é, então, pensar que ainda assim há nele uma grande lacuna em relação à representatividade, especialmente quando se mencionam as mulheres no esporte.


Em uma breve retomada histórica, o futebol exercido por mulheres já foi, em um passado não tão distante, proibido no país por ser “incompatível com as condições de sua natureza”. Inicialmente, até mesmo considerado como parte de performances circenses e não como esporte, o futebol feminino percorreu árduos caminhos para se tornar o que ele é hoje e ter uma representante sua, a rainha Marta, como a maior esportista em Copas do Mundo, independentemente do gênero.


Muitos foram os marcos em cenário nacional e global, mas, sem dúvidas, o mais recente deles teve um impacto ainda mais surpreendente: a Copa do Mundo de Futebol Feminino, ocorrida em 2019, na França. Ao redor do globo, a competição alcançou a marca recorde de 1 bilhão de espectadores; no Brasil, o público em frente à televisão foi de mais de 35 milhões de espectadores simultâneos, quebrando os recordes universais para a modalidade.


A partir desse momento, o futebol feminino ganharia uma visibilidade jamais vista: as pessoas começaram a consumi-lo cada vez mais, rompendo com o tabu de ser um “esporte de nicho”, ou seja, diferente da modalidade considerada padrão que, evidentemente, é a masculina. Tamires, titular da seleção brasileira, chegou a relatar em entrevista alguns dos feitos após a Copa: além de registrados recordes de público nos estádios, como na partida entre São Paulo e Corinthians pela final do campeonato paulista daquele mesmo ano, com quase 30 mil presentes, ela também conta que “(...) questão de viagens, logística, questão do dinheiro mesmo destinado ao futebol. Tem alguns pontos que melhoraram depois do Mundial”.


Do outro lado do Atlântico, na Europa, onde o futebol feminino já era mais bem estruturado, também foram vistos impactos positivos. Com times cada vez mais fortes e campeonatos cada vez mais competitivos, algumas hegemonias foram rompidas, como a sequência de cinco títulos seguidos, da famosa Champions League, conquistados pelo clube francês Lyon. Este ano, o grande vencedor foi o Barcelona, de Alexia Putellas — inspiração para a canção “Alexia”, do próprio Skank, citado no início — em uma competição que também conquistou recordes de audiência televisiva, mesmo no Brasil. Ainda nesse período, foi realizada a transferência mais cara da história do futebol feminino, na ida de Pernille Harder, destaque do futebol europeu, para o Chelsea, da Inglaterra.


Nas Américas, os efeitos das poderosas declarações da estadunidense eleita melhor jogadora da Copa de 2019, Megan Rapinoe, não ecoaram apenas na parte norte do continente. Por aqui, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) passou a exigir dos clubes participantes de suas competições, como a Copa Libertadores, que mantivessem também uma equipe de futebol feminino a partir de 2019.


Na temporada de 2020, inclusive, pela primeira vez na história da Libertadores feminina, houve como campeã uma equipe comandada por uma mulher (com a conquista do bicampeonato pelo Ferroviária, clube brasileiro). No Brasil, além de mudanças na seleção, como a contratação da renomada treinadora sueca Pia Sundhage, os clubes passaram a investir mais na modalidade, enquanto os veículos jornalísticos passaram a ter cada vez mais interesse em transmiti-la. Como resultado, tivemos campeonatos mais equilibrados e acompanhados massivamente.


Apesar de todos esses avanços, os desafios para a modalidade ainda são imensos. Não são incomuns as “goleadas” expressivas devido às disparidades técnicas e de investimento entre as equipes, algumas que sofrem ainda com atletas não remuneradas e a falta de materiais esportivos básicos. Para além disso, uma cultura machista ainda perdura, com comentários e posicionamentos inadequados, mesmo durante as transmissões — as quais muitas vezes ainda carregam a imagem de esporte de nicho, tratando o futebol feminino como assunto a ser abordado apenas por mulheres. Mesmo assim, os avanços nítidos e cada vez mais bonitos preponderam e contribuem para que o esporte evolua no país e no mundo.


Para haver continuidade, esses avanços precisam de cada vez mais incentivo, o que passa pelo interesse dos patrocinadores e pela vontade das próprias entidades do futebol de valorizarem a prática. Só assim seremos capazes de presenciar cada vez mais jogos femininos nos grandes estádios, com jogadoras de seleção e com intensa movimentação nas redes sociais, além das transmissões na TV aberta chegando, quem sabe, a ocupar os horários nobres do futebol e a famosa grade das tardes de domingo.


Aí, então, teremos uma certeza, para além da ortografia: a paixão é, sim, um substantivo feminino.



Revisão: Bruna Ballestero e Julia Rodrigues

Imagem de capa: Laís Gonzales


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