PEQUENOS INCÔMODOS



Tecnologia é, por definição, a aplicação prática de conhecimento científico para a resolução de um problema. Alguns avanços tecnológicos, como a invenção da internet, são disruptivos. Eles marcam o começo ou o fim de uma era. Outros, como a descoberta da vacina, têm um benefício social inquestionável e são capazes de trazer melhoras relevantes para o padrão de vida da população. Uma terceira categoria de avanços tecnológicos, que engloba a opção de bloquear interações indesejadas nas redes sociais ou a máquina de lavar louça, tem a simples finalidade de nos poupar dos pequenos incômodos da vida cotidiana. E quando aprendemos que há formas mais fáceis e confortáveis de realizar determinadas tarefas, dificilmente seremos capazes de voltar a fazer algo como fazíamos antes.


Com origem no grego ("tekhne", que significa "técnica, arte, ofício" e "logia", que significa "estudo"), a palavra "tecnologia" descreve o estudo aplicado a um determinado objeto ou técnica visando aprimorá-los. Esse tipo de evolução busca soluções para os grandes problemas da humanidade, mas a redução de pequenos incômodos sempre foi uma meta paralela do desenvolvimento tecnológico, e as últimas décadas viram um avanço estrondoso nesse sentido. Fones de ouvido bloqueiam conversas indesejadas no transporte público; aspiradores de pó automáticos realizam a limpeza da casa; notificações podem ser silenciadas durante uma reunião; crianças barulhentas podem ser fácilmente entretidas com um tablet durante as refeições; mensagens são enviadas instantaneamente; usuários desagradáveis das redes sociais são bloqueados ou simplesmente "unfolowed". Nossos smartphones, computadores e relógios inteligentes estão recheados de ferramentas criadas com o único propósito de suprimir os pequenos desconfortos do mundo real.


A supressão absoluta, em menos de uma década, de um pequeno incômodo, é observada na comparação entre os serviços de streaming e a televisão a cabo ou mesmo por assinatura. Nos longínquos anos 2000, caso quisesse acompanhar uma série, o telespectador deveria se programar e estar em frente à TV na hora do lançamento de cada episódio. Se por algum motivo você perdeu a transmissão, paciência... provavelmente será transmitido novamente ao longo da semana. Ao assistir televisão, a liberdade era quase que restrita à escolha do canal, isenta de poder sobre o programa, o seu horário e as interrupções de comerciais. Essa necessidade de paciência e programação prévia foi enterrada com a chegada da Netflix e dos outros serviços de streaming que seguiram. Pode-se assistir tudo, a qualquer momento, na ordem desejada.


O meio digital permite o exercício radical da impaciência. Não é preciso esperar pelo começo ou fim de alguma coisa. Da mesma forma, o mundo virtual também possibilita uma nova falta de tolerância com o nosso próprio desconforto. Na vida real, somos obrigados a conviver e dialogar com pessoas que achamos desagradáveis, mas no mundo virtual podemos simplesmente bloqueá-las ou não segui-las nas redes sociais. Não há necessidade de aturar o que nos desagrada.


Uma alegoria um tanto hiperbólica desse comportamento pode ser vista no episódio "White Christmas" da série britânica Black Mirror. A trama apresenta um cenário no qual é possível "bloquear" pessoas na vida real, o que impede contato visual ou diálogo direto entre quem emitiu o comando e o bloqueado. No episódio, o protagonista Joe é bloqueado pela noiva, Beth, após uma briga, e é impedido de vê-la ou conversar com ela por anos, até o falecimento de Beth em um acidente de trem. Quando se separaram, Beth estava grávida do que Joe imaginava ser o filho do casal e, devido ao bloqueio, ele é impedido de confrontá-la a respeito ou de visualizar o rosto da criança até o falecimento da mãe. O resultado, como se pode esperar de qualquer episódio de Black Mirror, não é dos mais agradáveis.


Ainda que os bloqueadores "reais" sejam uma fantasia distante, a possibilidade de não interagir com o desagradável se torna cada vez mais palpável, sendo um bom exemplo o sucesso estrondoso do TikTok.


Em setembro de 2020, o app já contava com cerca de sete milhões de usuários brasileiros, e a previsão da empresa é de mais de um bilhão ao redor do mundo na segunda metade de 2021. A interface do TikTok é razoavelmente simples: os vídeos, de no máximo um minuto de duração, são rolados para cima e o usuário não tem grande liberdade sobre o que virá, podendo apenas passar os que não são do seu interesse. Há duas páginas de vídeos disponíveis: uma para o conteúdo criado por contas que o usuário segue e a chamada “For You Page” (FYP), ou “a página para você”. Ainda que nessa página o usuário não exerça nenhum controle sobre o conteúdo, ela é o atributo mais viciante do aplicativo, capaz de prender a atenção de alguém por horas a fio com o que parece uma corrente interminável de vídeos originais que nunca se repetem.


Assim como acontece com outras redes sociais, o TikTok utiliza um algoritmo de recomendação que considera várias ferramentas e fatores para personalizá-lo a cada usuário. Se você passou tempo suficiente no aplicativo para viciar o seu algoritmo, verá que, como um passe de mágica, ele parece saber tudo sobre você. Quanto mais você usa, mais precisos se tornam os vídeos. Depois que o algoritmo compreende a sua personalidade, o TikTok se torna o lugar mais confortável do planeta, pois você não é sequer exposto ao conteúdo que não te interessa. E, depois de horas interagindo apenas com pessoas com gostos, personalidades e opiniões semelhantes às suas, é fácil esquecer que a vida real, fora do aplicativo, ainda é desconfortavelmente heterogênea.


Esses avanços não são necessariamente ruins. Alguns, como a possibilidade de bloquear stalkers ou pessoas agressivas nas redes sociais, por exemplo, são altamente positivos. Também não são exatamente uma tendência nova. Independentemente do momento histórico, os seres humanos sempre buscaram a companhia de outros com os quais se identificam com facilidade, sempre evitaram situações desconfortáveis e procuraram ambientes homogêneos nos quais pudessem se sentir acolhidos e inseridos. O que as redes sociais fazem é simplesmente facilitar a comunicação entre pessoas que se identificam umas com as outras, possibilitando a criação de bolhas comunitárias capazes de gerar um enorme senso de validação pessoal.


O que mudou é que, até um ano e meio atrás, o mundo virtual ainda tinha que dividir as horas do dia com o mundo real. As horas passadas na internet eram intercaladas às horas de convivência forçada com colegas de trabalho ou faculdade, pessoas deseducadas com as quais se esbarra na rua, ônibus e metrô lotados, horas no trânsito e todos os outros incômodos da vida real. Com as limitações impostas pelo Coronavírus, todos esses pequenos desconfortos cotidianos foram radicalmente reduzidos. O tempo que precisamos dedicar a eles é cada vez menor.


Isso não quer dizer que a vida ficou mais fácil durante a pandemia. Longe disso. Além do medo e da ansiedade constantes, dos números assustadores de casos e mortes que crescem diariamente, fomos apresentados a uma nova leva de problemas cotidianos, muitos dos quais podem ser considerados ainda mais desagradáveis do que os que tínhamos antes da pandemia.

Independentemente disso, vale observar a evolução da nossa relação cotidiana com o inconveniente, e o quão capazes ainda somos de pequenos exercícios diários de paciência. Depois de um ano de intensa interação digital, quão rápido seremos capazes de nos readaptar aos pequenos incômodos da realidade?


Revisão: Glendha Visani

Imagem de capa: Reprodução Forbes

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