top of page

PERDI-ME E NÃO ME ENCONTREI


“A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra”

Tabacaria, Fernando Pessoa


Estou descrente. Tenho saudades daquele olhar otimista de alguns anos atrás. Não cheguei onde meus antigos planos determinaram e não pretendo modificá-los ou recriá-los. Já fui um piloto, um cientista e até mesmo um grande filósofo. Vivenciei tudo em minha imaginação. Nem mesmo pequenos planos fui capaz de cumprir. Não cheguei no lugar que planejei há um ano atrás e não estarei no lugar que planejo daqui um ano. Tudo parece uma consequência indefectível do acaso: a faculdade que faço, as pessoas com as quais converso, a vida que levo – nada disso foi planejado.


Talvez eu não deva elaborar novos planos. Caso os faça, devo estar ciente de que irei vê-los despedaçados pela inexorável ação do tempo. Caso os crie, desenharei repetidamente novos futuros, como sempre tenho feito. Futuros limitados ao infinito espaço de minha imaginação. Futuros profícuos e cintilantes – tão bem elaborados que quase me esquecerei dos futuros antigos e mal sucedidos, todos carcomidos pelas mudanças das circunstâncias. Futuros irrealizáveis? Talvez não. Eu poderia ter sido um bom escritor, um pesquisador notável, quem sabe um engenheiro? Quase fui um engenheiro. Vivo agora em função do que poderia ter sido. Vivo também em função do que posso ser. O que posso querer ser se tudo que quis não me levou a lugar algum? Acho que nunca serei o que sonhei e planejei.


Arquitetei cenários, imaginei vidas impossivelmente reais. Quando me dei conta, havia perdido a largada e não possuía qualquer caminho para seguir. Não há, hoje, escolhas que eu não tente evitar, planos que eu não tente tolher. Ando sem rumo e escrevo coisas fúteis, banais. Replico despropositadamente versos pessoanos. Minhas palavras nada dizem e prolixamente sempre me repito.


Sim, eu poderia ter sido tanta coisa, mas não fui nada. Se fui algo, fui o que não queria. Tudo mudou, tudo sempre muda. Hoje, não me parece que exista metafísica capaz de desvendar a aleatoriedade das mudanças. Não há mais metafísica nesse mundo senão doces, chocolates ou breves momentos de calmaria em um mar agitado. Afinal, “a metafísica é uma consequência de estar mal disposto”¹.


Me lembro que, durante o ensino médio, meu professor de filosofia repetia, com alguma frequência, a seguinte frase: “quem nunca se perdeu, nunca se encontrou”. Perdi-me e não me encontrei. Pode ser que eu nunca me encontre… Como resultado de uma estranha coincidência, semana passada um amigo me disse que “perder-se também é caminho”. Essa frase ecoou em mim. Penso que talvez ele esteja certo. Ainda assim, a perda é um caminho solitário e aterrorizante. Um caminho que, ao invés de trilha, parece mais com uma planície descampada, uma longa estepe que não te indica nenhuma direção a ser seguida. Segundo ele, isso pode ser apavorante, mas é também libertador. Por não ser um grande escritor, um pesquisador notável, nem um engenheiro, posso experienciar a realidade de cada uma dessas coisas sem efetivamente vivê-las. Por meio de planos e futuros que nunca se realizam, posso ser um pouco de tudo ao não ser coisa alguma. Quando não há caminho, qualquer direção basta.


1 - Tabacaria, de Fernando Pessoa

-------------------------------------------------------------------------------------------------------


Autoria: Giovanni Tortorella

Revisão: Anna Cecília Serrano e Enrico Romariz Recco

Imagem da capa: Nighthawks, de Edward Hopper


コメント


bottom of page