PODE PASSAR AQUI ATRÁS?



Tá em reunião? Tô, mas é de boa, pode falar. Pessoal, acho que o fulano dormiu. Alguém muta ele aí. Isso é o que, é aula? Pode vir ajudar sua irmã com uma coisinha agora? Agora não consigo, tô trabalhando. Migo, coloca essa camisa, depois que a gente acabar a reunião você sexta direito, haha. Pode passar atrás? Pode, tô só conversando com uns amigos, fala um oi aí pro pessoal mãe. Véi mais alguém desse grupo reparou que os livro atrás desse mano são iguais aos livros atrás do professor de quinta? Será que são parente?? Foi mal gente, isso foi meu gato. Pera aí pera aí pera aí. Pronto, desliguei, vai pode passar. Gente, quem reiniciou o modem? Tô trabalhando, quando for assim, me avisa, pô. Manooo o menino levando pito por tá fumando o cigarrão durante a aula kkkk. Como você tá no sábado pra essa call? Posso te ligar?

Há pouco mais de um ano, alguns de nós encaramos a necessidade de adequarmos nossas rotinas de uma forma bem radical: passaríamos a estudar e trabalhar de casa. No começo, todo mundo imaginava que a medida seria temporária, curta o suficiente para não perdermos o ritmo de nossas vidas, e longa o suficiente para frear o avanço de uma nova e perigosa doença que chegava ao Brasil. Um ano se passou. A grande maioria da sociedade, a qual não teve acesso ao luxo de esperar tudo passar de dentro das suas casas com sua renda e escolaridade intactas, foi avassalada por uma profunda crise humanitária e econômica. Inclusive, dá para se dizer que mesmo os que ficaram em casa também foram fortemente afetados, afinal, não é exagero pensar que ninguém esteve cem por cento a salvo de nada ao longo de 2020. Mas, é importante reconhecer o privilégio dos que, ao menos durante os primeiros momentos de tudo, estiveram em uma situação muito mais favorável dos que tinham que garantir o seu sustento em meio ao perigo fora de casa.


Com isso esclarecido, eu gostaria de refletir sobre algumas das coisas que eu, e talvez você, querido leitor, muito provavelmente vivemos de forma parecida ao longo deste ano em nossas casas, e agora temos em comum. A primeira delas é que os compromissos se tornaram muito mais fluídos: a gente marca, desmarca e comparece a eles com simples toques no mouse e no teclado. Se nós adotamos nesse compromisso a postura de espectador ou ouvinte, sem falas ou uma contribuição mais direta, podemos facilmente nos tornar invisíveis e participar enquanto almoçamos, fazemos exercício, tiramos um cochilo ou nos relacionamos com outras pessoas na aba do lado. Se levamos o famoso “bolo” em algo que marcamos com alguém, sem crise, fecha a aba, manda mensagem perguntando se a pessoa esqueceu de colocar na agenda e quer remarcar, e cinco minutos depois já estamos resignados e ocupados outra vez. Se estamos sem saco para determinados decoros, podemos comparecer com a câmera desligada a um compromisso deitados de nosso sofá, na rede, fumando um cigarro, comendo, sem camisa etc. Ou, no caso de algo mais descontraído, com as nossas imagens sendo transmitidas mesmo. E para quem vê de fora? Toda essa fluidez pode causar uma confusão compreensível. Como explicar para nosso pai, irmã, mãe ou qualquer outra pessoa que, às vezes, deitada no sofá, você está trabalhando, e, às vezes, na mesa de trabalho, você está no Instagram? E que, às vezes, é o contrário? Ou que, durante um lanche da tarde, você pode estar em uma conversa com amigos, e que não há necessidade de sentirem vergonha de interromper para perguntar em que prateleira você deixou o açúcar, mas que, em outros determinados momentos, você está em uma reunião com seu orientador e não dá para entrarem sem camisa no seu quarto? A verdade é que não existe resposta, e que é igualmente difícil para os que convivem conosco se adaptar a essa nova rotina.


A segunda coisa é que ficamos acostumados com a disponibilidade absoluta de tudo e todos, inclusive nós mesmos, em todos os momentos. Se, antes, um intervalo de meia hora entre uma reunião e outra coisa era usado para um café, uma conversa de corredor, ou simplesmente uma sessão de não fazer absolutamente nada, agora, nossos softwares de agendamento e calendário mostram aquele horário como disponível para preenchimento por qualquer demanda que nos apareça. Se já caímos na real há um tempo sobre o fato de que a tecnologia e a otimização do trabalho humano NÃO vieram para nos dar mais descanso, e sim mais produção, chegou a hora de também constatarmos que aquele tempo que pensaríamos economizar por não ter que se deslocar até os lugares foi fagocitado pelas reuniões e talks express. E como se não bastasse, perdemos completamente o semancol para horários e rotinas, nos tornando muito mais abertos a eventos em dias e horários que não nos eram convencionais. Isso pelo simples motivo de que tínhamos coisas mais interessantes para fazer (e sim, se em algum momento você tentou marcar uma reunião no domingo ou em dia de semana depois das oito da noite comigo, essa indireta em espaço institucional da Gazeta Vargas é para você).


A última reflexão que gostaria de trazer neste texto é a de que acabamos de fincar a cruz na enorme gama de possibilidades de relações saudáveis que poderíamos ter com nossos celulares. Salvo excepcionalíssimas exceções, já está bem claro que nossos aparelhos nos prestam a principal companhia que temos ao longo do dia, que o afastamento forçado do telefone nos causa um sentimento de fuga da rotina, em vez de normalidade, e que não mais podemos nos dar ao luxo de dispensar tal meio de comunicação como ferramenta de trabalho. A criação dos grupos de zap virou um ritual indispensável de formalização de relações, e neles a maneira como nos portamos vai dizer muito sobre como nos relacionaremos com aquelas pessoas na “vida real”. E em um mesmo aplicativo, nos relacionamos com nossos parentes que moram longe, tocamos aquele projeto das horas vagas, respondemos às demandas de nossos chefes, trocamos nudes, agendamos o dentista, checamos informações da faculdade no grupo da sala, brigamos com quem amamos, contamos fofocas, compartilhamos memes, comentamos reality-shows, fazemos e acompanhamos os prints expondo alguém, recebemos notícias falsas e verdadeiras, e ao que tudo indica em não muito tempo poderemos também realizar transações bancárias. Em UM aplicativo do telefone. É de se pensar o que mais estamos aglutinando em volta de um telefone inteiro e de um computador.


Um ano se passou. E a vida regida a toque de teclado e mouse aparentemente veio para ficar. Sabemos que, em algum momento, voltaremos para as ruas, para as escolas, e os trabalhos, mas sinto que, mesmo com a sonhada rotina com imunização, aglomeração e “normalidade” não parecem prometer nada parecido com o que estávamos acostumados em nossas relações tecnológicas até então. Estaremos nós, em março do ano que vem, resignados com uma live de carnaval?



Revisão: Julia Rodrigues

Imagem de capa: Maricho

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