POR QUE A "CRACOLÂNDIA" MUDOU DE ENDEREÇO?





No último dia 21 de Março, a antiga "Cracolândia" ganhou um novo endereço: dos arredores da Praça Júlio Prestes, a concentração passou à Praça Princesa Isabel, a menos de três quarteirões de distância do antigo local. No dia 4 de Abril, o então governador João Doria autorizou a primeira grande limpeza na nova região após a migração, retirando barracas, lixos e móveis utilizados pelos usuários, o que foi criticado por ativistas sociais. Na segunda-feira (11), ainda havia um grande contingente de pessoas na praça da Avenida Rio Branco.

Funcionário retiram barracas e limpam Praça Princesa Isabel no Centro de São Paulo (Foto: ISAAC FONTANA/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO)



Mudando o Problema de Lugar


Para aqueles que visitam a Sala São Paulo em frente à Estação Júlio Prestes ou utilizam a Estação da Luz aos arredores da Alameda Dino Bueno e Rua Cleveland, tem um encontro inevitável para centenas de pessoas em situação de rua, usuários de drogas e traficantes, que compõem o triste cenário de vulnerabilidade social e abandono no coração da capital.


Entretanto, desde 21 de março, essas ruas estão abandonadas e não têm mais entulhos no chão, barulhos frequentes ao longo do dia e noite e odores fortes, o que agradou os moradores da região. Um dono de imóvel local que não quis ser identificado afirmou que possuía duas kitnets à venda há mais de dois anos, e desabafou: “Estava na luta para conseguir vender essas moradias, quando os clientes chegavam no lugar para ver o imóvel, não queriam nem entrar no prédio”. Na mesma semana de retirada, o proprietário recebeu uma oferta de compra e sente que haverá uma maior facilidade de conseguir agendar um cliente para visitar o local.


A menos de um quilômetro desse mesmo lugar, novos moradores enfrentam as mesmas antigas questões: barracas, colchões, sofás e sacos de lixo ao ar livre, sobre um chão coberto de entulho, integram a nova realidade da Praça Princesa Isabel, na Avenida Rio Branco. Guardas Civis Municipais e policiais militares patrulham o local, mas uma suposta “nova cracolândia” se fixa sob a figura de Duque de Caxias ao centro do quadrilátero.



Cenário panorâmico da Praça Princesa de Isabel rodeada de barracas, guarda chuvas, sujeiras, móveis e usuários de drogas.(Foto: Danilo Verpa/Folhapress)



Alexis Vargas, secretário executivo de Projetos Estratégicos da Prefeitura de São Paulo, em entrevista ao IstoÉ Dinheiro, negou que seja uma nova cracolândia na região: “Um contingente foi para a Praça Princesa Isabel, mas o local não chega a ter 100 pessoas. Alguns traficantes estão tentando se instalar ali, mas estamos monitorando esse e outros pontos, como o túnel que liga a Avenida Paulista com a Rebouças.”.


A fala do secretário parece maquiar a realidade, a qual, aos olhos de quem passa de carro na Avenida Rio Branco, é permeada por dependentes químicos, pessoas em situação de vulnerabilidade social e traficantes, em números que ultrapassam a marca de 500 pessoas.


Mas por que houve essa migração?


O Delegado da polícia civil Roberto Monteiro indicou que a mudança havia ocorrido por uma demanda de um líder de uma das facções da região, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Não há informações confirmadas, mas a suposição é factível ao analisar que o local permite um rápido escape de operações policiais e as barracas, contabilizadas 255 até o último 23 de março, mais a grande quantidade de árvores, dificultam a visualização pelos policiais, drones e satélites. Na antiga Praça Júlio Prestes, as operações da GCM se tornaram mais frequentes nas últimas semanas, obrigando os indivíduos a se deslocarem duas vezes por dia para que seja feita uma limpeza geral na região, o que faz com que muitos usuários de drogas sejam enquadrados na alameda Cleveland e na Helvetia.


As barracas, que são empecilhos para visualização do crime na região, também pertencem também a pessoas em situação de rua que não conseguiram se sustentar durante a Pandemia de COVID-19, o que dificulta a ação policial para retirar as barracas que estejam ligadas ao tráfico de drogas.


Outra hipótese para essa abrupta migração pode ser relacionada por motivações do governo e de empresas, e não necessariamente de milícias. O terreno da antiga Esquina dos Pneus, que fechava um quarteirão da Avenida Rio Branco, ergue agora, no mesmo local, o grande Hospital Pérola Byington. Esse Hospital faz parte de uma parceria público-privada com previsão de abertura no segundo semestre deste ano, o que pode significar a provável tentativa da prefeitura de expulsar os ocupantes da região do Campos Elíseos.


O padre Júlio Lancelloti, líder religioso que se dedica a ações sociais, comentou que a saída de diversos moradores repentinamente pode ser fruto de uma interferência do próprio governo com milícias. Ele comenta: “É um vazio repentino e não se deve a nenhuma intervenção social do Estado ou da Prefeitura. O fluxo foi pulverizado, desde a Praça Princesa Isabel até outros locais do centro. O repentino vazio sugere algum acordo com o tráfico e agentes públicos. Precisamos esclarecer o que está por trás desse repentino e inexplicável vazio", afirmou o fundador da organização Pastoral Povo de Rua.


Seja por motivações públicas, seja por motivações privadas, a cracolândia ainda é uma ferida aberta nas ruas de São Paulo que comove qualquer um que passa ao redor, e demanda muito mais do que meras políticas paliativas de migração para tapar o problema.


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Foto de Capa: ESTADÃO

Redação: Amanda Rocha

Revisão: André Rhinow e Guilherme Caruso


Referências


RODRIGUES, Artur. Folha de São Paulo, “Doria diz ter ordenado retirada de barracas da praça Princesa Isabel, a nova cracolândia”, 29 de Março de 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/03/doria-diz-ter-ordenado-retirada-de-barracas-da-praca-princesa-isabel-a-nova-cracolandia.shtml. Acesso em 9 de Abril


ZYLBERKAN, Mariana. Folha de São Paulo: “Facilidade de fuga motivou escolha da praça Princesa Isabel como nova cracolância.”, 24 de março. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/03/facilidade-de-fuga-motivaram-escolha-da-praca-princesa-isabel-como-nova-cracolandia.shtml. Acesso em 4 de Abril


Isto É Dinheiro: “Traficantes e usuários de drogas deixam Cracolândia e ocupam outras áreas de SP”, 22 de março de 2022. Disponível em:https://www.istoedinheiro.com.br/traficantes-e-usuarios-de-drogas-deixam-cracolandia-e-ocupam-outras-areas-de-sp/#:~:text=%E2%80%9CUm%20contingente%20foi%20para%20a,Isso%20%C3%A9%20din%C3%A2mico. Acesso em 6 de abril de 2022