PRO LADO DE LÁ DA (NÃO-)DESISTÊNCIA

Você ja pensou em desistir alguma vez? As vezes, a vida realmente parece estar mais difícil do que deveria. Para falar sobre o assunto, a Gabi que é estudante do doutorado da EESP, compartilha sua experiência conosco no espaço aberto de hoje!

Oi, eu sou a Gabi. Estou aproveitando meus últimos meses como aluna do doutorado da EESP para tentar uma publicação na Gazeta. Sei que o negócio aqui é de “alunos para alunos” e estou usando minha carteirinha de aluna como passe livre. E não, este não será um texto técnico. É, na verdade, como o título anuncia, um texto sobre o ato de desistir, motivado pela minha experiência pessoal e pelo contato que tenho com os alunos da graduação.


Há três eventos na minha vida que explicam praticamente todas as minhas grandes decisões e a minha relação pessoal com a desistência:


1. Aos 9 anos comecei a fazer aulas de piano. Aos 12 eu desisti. Meus pais, que tiveram dificuldade em pagar as aulas e o instrumento, ficaram bem bravos. E nenhum novo projeto meu passou pelo crivo deles sem antes retomarem a lembrança desta minha primeira desistência.

2. Meu melhor amigo de infância teve um diagnóstico de câncer aos 7 anos de idade. O câncer foi descoberto depois de uma queda que ele teve enquanto brincávamos na escola. Ele morreu aos 12 anos depois de incontáveis cirurgias e sessões de quimioterapia. No fim, a vida desistiu dele.


3. Um grande amigo da minha adolescência era um cara sério, mas que sabia rir de si mesmo. Um dia, ele se suicidou. Eu não sei o motivo. Não teve carta, bilhete ou gravação que me explicasse. Se ele pediu ajuda, eu nunca percebi, infelizmente. Acho que uma hora ele desistiu da vida.

Estes três grandes eventos tornaram a desistência um tabu para mim. E eu (quase) nunca mais desisti de nada. Isso possivelmente ajuda a explicar por que eu fiquei quase 5 anos em um relacionamento abusivo. Eu, que nunca em um milhão de anos acharia que viveria isso, estava lá me sentindo presa pela minha própria insistência em fazer algo quebrado funcionar de novo. Eu não sabia desistir e esse foi um aprendizado que eu tive que ter. Porque sim, em muitas situações, desistir é fundamental. É, na verdade, um ato de coragem e a única chance para um recomeço.


No entanto, há um equilíbrio nisso. É verdade também que a maior parte das coisas que queremos frequentemente estão relacionadas com algo muito difícil de ser feito. Com isso, a resiliência foi essencial para diversos caminhos que eu trilhei e que vocês trilharão também. A faculdade de economia foi marcada, para mim, por diversos momentos de ponderação. Seria aquele o caminho certo para mim? Será que eu ia me realizar com a profissão? Por que algumas coisas tinham que ser tão chatas e/ou difíceis? Será que havia algo errado em mim por não gostar de tantas coisas que meus colegas adoravam? Será que existia alguma coisa que despertaria minha paixão um dia? Hoje eu sei que sim, e fico bem grata à Gabi do passado por não ter desistido da graduação em economia!


Isso não significa que minha trajetória tenha sido um mar de rosas. Eu sempre estive rodeada de gente muito inteligente e existem dois lados nisso: há uma gratidão por conhecer, conviver e aprender tanto com estas pessoas; ao mesmo tempo, porém, há uma frequente comparação que acaba minando a autoestima e autoconfiança. É fácil se perder de si mesmo em meio a tantas comparações.


Eu lembro de ter sido (e algumas vezes ainda ser) atormentada pela frequente sensação de que minha posição era fruto de pura sorte. Uma sensação engraçada de esperar uma ligação de alguém dizendo “Desculpa, miga, alguém errou alguma coisa aqui e você não faz sentido onde está. Volte 3 casas". A companhia constante de uma vozinha maldosa que me fazia achar que eu era uma impostora ali, que não era capaz e que deveria desistir. A gente demora muito para conseguir enxergar nosso próprio valor, eu acho.


Qual é, afinal, o ponto deste texto? É dizer que minhas (quase) três décadas de vida - de forma muito criativa e diversificada - me ensinaram que existe um ponto ótimo para a desistência. Bem alinhado com os modelos econômicos que hoje eu estudo e ensino. Há coisas das quais precisamos desistir para conseguir seguir em frente e conseguir coisas melhores. Há outras que precisamos enfrentar para conquistar coisas que queremos. E como então achar o ponto ótimo e saber quando vale a pena enfrentar nossos medos, e nos esforçar para superar as dificuldades?


Acho que o segredo está em separar o desconforto da infelicidade; o transitório do permanente. Estudar longas horas será desconfortável. Ir mal na prova será desconfortável. Não necessariamente tudo isso precisa causar infelicidade permanente. Obviamente, ninguém fica feliz em semana de provas ou recebendo um feedback negativo, mas as derrotas acadêmicas podem sempre ser encaradas como motivação para o aprendizado, em vez de um soco na nossa própria autoestima. Tô falando que é fácil ressignificar as coisas? Não! Tô falando que é possível. E que uma boa dose de ressignificação pode transformar uma experiência ruim em algo positivo.


Minha regra de bolso, que eu aprendi cedo demais, é que a vida uma hora vai, invariavelmente, desistir da gente. E que eu posso e devo desistir de qualquer coisa que me faça sequer cogitar desistir da vida. Porque o objetivo de todo mundo, no final das contas, é ser feliz. A gente estuda em busca disso. A gente estuda para deixar o mundo melhor, para deixar nossa própria vida melhor. É necessário entender que o caminho muitas vezes é árduo e é impossível ser feliz todo dia o dia todo. Precisamos sempre manter em mente o objetivo final e dar um jeito (sozinhos ou com ajuda!) de, mesmo nos dias mais desafiadores, acalmar nosso próprio coração, com a sensação de que estamos um dia mais próximos dos objetivos e sonhos que temos. O que a gente mais sonha pode estar exatamente do lado de lá da não-desistência.


Gabriela Fonseca

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