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RELIGIÃO E POLÍTICA NÃO SE DISCUTE



Na obra Sapiens, de Yuval Noah Harari, o autor israelita formula a ideia de que os ideais de igualdade e de liberdade são incompatíveis. Isso porque, para que todos sejam iguais, alguém está deixando de lado certa liberdade. Tal análise se deve a um fator primordial da natureza humana: o fato de sermos completamente associativos e codependentes.


Tendo isso como pano de fundo, e devido à atualidade do tema, tentarei nos parágrafos seguintes, mostrar a você, leitor, que a discussão entre religião e política, hoje, são mais incidentes em períodos eleitorais como instrumento de persuasão, quando, na verdade, deveriam ser mais recorrentes nas escolas e na mídia em geral, de modo a informar a população.


Desde a colonização do Brasil, passando pelas últimas eleições do país, até o “recente” conflito árabe-israelense, vê-se um ponto em comum. Todos esses eventos históricos, que parecem, à primeira vista, independentes, convergem para um ponto: é inconcebível aos seres humanos serem tratados como iguais e serem de todo livre ao mesmo tempo. Portanto, é óbvio que os ideais de liberdade e igualdade são fundamentais ao pleno convívio humano, mas cabe ao indivíduo saber alterná-los para que ambos valores coexistam. Posto isso, a maneira de resolução mais importante ao problema é a comunicação.


A frase “religião e política não se discute” já se tornou ditado popular brasileiro de tão normalizada que é no contexto nacional. No entanto, o fato de ambos os temas se tornarem questões-tabu faz com que a comunicação seja afetada. Assim, agentes, tanto políticos quanto religiosos, recebem amplo espaço para permear entre esses dois campos, em busca de maior controle e poder de persuasão. Isso sem nenhum obstáculo e indignação por parte da sociedade, que, devido ao pouco conhecimento adquirido, é influenciada por essas figuras de poder. Talvez a frase que mais elucide esse processo seja a de Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.


Visando elucidar essa questão, trago alguns conteúdos históricos que ajudam na compreensão. O primeiro deles é a colonização no Brasil.


Para isso, é importante remontar o contexto europeu da época. Em meados dos anos de 1530 e 1540, a Europa se deleitava com os escritos, as pinturas e as esculturas renascentistas de personagens como Leonardo Da Vinci, Rafael e Michelangelo. Enquanto isso, floresceram, também, movimentos religiosos de vieses diferentes daqueles que a Igreja Católica pregava, tais quais o Anglicanismo, o Luteranismo e o Calvinismo. A história nomeou esse movimento das dissidências religiosas de Reforma Protestante. A Igreja Católica da época associou o movimento com a ampla tolerância e liberdade dada pelo Renascimento Cultural e Científico. Tal chaveamento de ideias levou a um contra-ataque ao processo reformista que a sociedade vivia: a Contrarreforma. Desse modo, foi criada a chamada Companhia de Jesus, que era encarregada de semear práticas favoráveis à Igreja Católica – como a luta contra os materiais filosóficos e as reflexões intelectuais que combatiam o dogmatismo católico. A Companhia tornou-se peça fundamental na História do Brasil, uma vez que os jesuítas, que compunham o grupo, foram influentes na catequização e subordinação cultural dos povos que aqui estavam.


Nessa realidade, é importante notar como a religião e a política andaram juntas. Ao passo que a Igreja Católica perdia fiéis aos movimentos religiosos dissidentes na Europa, as monarquias espanhola e portuguesa detinham territórios densamente povoados no continente Americano. Nesse cenário, o que foi feito foi unir o útil ao agradável, tanto à Coroa, quanto à Igreja. Lembrando que, desde os primórdios da Idade Média, a união Estado-Igreja já ocorria. Assim, Dom Manoel - rei de Portugal no período - não poupou esforços em logo fazer dos indígenas fiéis do catolicismo, como demonstração de força religiosa para as dissidências protestantes, e para facilitar o controle desses nativos que se tornariam também escravos dos europeus nos anos seguintes. Com isso, os jesuítas foram os primeiros responsáveis por implantar a cultura europeia nas terras tupiniquins, introduzindo o trabalho metódico, a monogamia e o latim no cotidiano dos nativos. Assim, a colônia nasceria sem as inquietações propostas pelo Renascimento e muito menos com hábitos das etnias autóctones. “A inteligência brasileira viria a constituir-se submetida à direção exclusiva da Companhia de Jesus, sob a égide da Contrarreforma”, como disse Wilson Martins, autor do livro A História da Inteligência Brasileira, “Esse desejo de perpetuar a ignorância condicionaria as perspectivas mentais do Brasil nos três séculos seguintes”.


O segundo evento que vou fazer uso para explicitar a relação religião-política foi o último período eleitoral, em 2022.


Mas, antes de trazer luz aos ocorridos em 2022, é importante lembrar do cenário político de 2018. Nele, Lula ainda estava em regime carcerário, Haddad o substituía em campanha e Jair Bolsonaro concorria com o lema: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Voltando agora o olhar ao ano passado, a existência de uma minúscula terceira via nas eleições trouxe ao debate público as individualidades de Lula e Bolsonaro. A clara tentativa de ambos candidatos em tornar o cenário político algo dicotômico ultrapassou o limite do debate marqueteiro, em que ambos os candidatos se vangloriavam dos seus feitos. Ao invés disso, a estratégia utilizada foi dar luz para aquilo em que o outro candidato pecava. Havia tempo que a política brasileira não invadia tanto a vida do cidadão, isso porque assuntos tratados como íntimos entraram em debate, tal qual a religião.


Relevante ressaltar que a presença de candidatos em ritos religiosos não é algo exclusivo aos anos recentes da política, o que é de fato instigante é que o tema tem sido cada vez mais utilizado no cenário político. Em pesquisa realizada pelo Ibope em 2018, mostra-se que 79% dos brasileiros vê como importante que o candidato ao Planalto acredite em Deus. Posto isso, entre os anos em mandato, Jair ocupou um lugar de relevância nesse tema que os opositores nunca figuraram, ou ao menos nunca ocuparam com tanta proeza. Com isso, em 2022, viu-se muito no segundo turno das eleições ambos os candidatos usando e abusando de conceitos religiosos como forma de persuasão. Lula, por exemplo, visitou freis franciscanos no dia de São Francisco de Assis e discursou acerca do segundo turno das eleições na ocasião. Enquanto isso, uma pesquisa da BBC News monitorou os perfis do senador Flávio Bolsonaro (PL), do deputado Eduardo Bolsonaro (PL) e do vereador Carlos Bolsonaro (PL); dos deputados Marco Feliciano (PL) e da Carla Zambelli (PL); e o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo no período entre 6 de agosto e 6 de setembro de 2022. E, ao analisar o movimento dos perfis, foram encontradas pelo menos 85 mensagens que usavam o temor de perseguição religiosa para "demonizar" adversários como Lula e Ciro Gomes.


Dessa forma, o contexto demonstra até onde a mistura entre religião e política cerceia a liberdade de escolha da pessoa.


O terceiro e último caso diz respeito ao conflito Árabe-Israelense.


É de extrema importância destacar o histórico conturbado da região. A área em questão já foi alvo de disputas entre romanos e mulçumanos e campo de batalha no conhecido movimento cruzadista. Já esteve sob domínio do Império Turco-Otomano. Durante a Primeira Guerra, ingleses e franceses instigaram árabes a se oporem ao Império Turco-Otomano que após sua dissolução, viu seu território ser controlado pelas duas superpotências europeias. No pós-Segunda Guerra, a região era zona de disputa entre URSS e EUA.


É evidente que a questão religiosa é igualmente relevante ao conflito, haja vista o fato da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, ser um dos principais focos de tensão nos últimos anos. No entanto, note que um conflito de forte caráter religioso ecoou de maneira global, o que demonstra que para além do conflito entre crenças, há interesses políticos de outras nações. Além disso, observar a posição do Brasil ajuda a elucidar a incorporação do caráter político na guerra. Com a exceção do influente apoio do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha na criação do Estado de Israel em 1948, quando presidia a Assembleia Geral da ONU, o Brasil pouco se ateve ao conflito nos últimos anos, salvo momentos esporádicos. Atualmente, como forma de recuperar seu prestígio no âmbito internacional, o Brasil tem sido mais participativo, haja vista a formulação de uma ideia de resolução do conflito, bem vista por todos do Conselho de Segurança da ONU, exceto os EUA, que vetaram a proposta.


Com isso, tem fundamento a ideia de que a religião novamente é utilizada como acessório político nas causas globais, uma vez que é evidente a mobilização internacional sobre o assunto. A guerra em questão tem fundamentos religiosos no seu seio, mas a resolução parece estar no meio político. Enquanto isso quem efetivamente sofre são os fiéis mulçumanos e judeus.


Portanto, haja vista as análises dos eventos históricos, é notável que religião e política têm um passado em comum e, hoje, encontram-se cada vez mais misturadas. O debate sobre religião tem de ser fomentado e não pode passar pela ofensa, uma vez que o não-debate tem ocasionado feridas irreversíveis na humanidade. O entendimento da religião do outro é o que a aproxima de seu motivo de existir: a fé como instrumento de vida; distanciando-se de seu uso político. Dessa maneira, tratar o outro como igual é compreender suas individualidades e lidar com isso de forma a gerar espaço ao convívio de todos. Ressalto, então, que a comunicação é o principal meio de pendular entre liberdade e igualdade.


Autoria: Vinicius Martins

Revisão: Luiza Parisi, Laura Freitas e Anna Cecilia Serrano

Imagem de capa: Poder 360


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