RUÍNAS


Nosso redator Felipe Takehara discorre sobre um antigo e persistente drama humano: ainda há identidade quando aquilo que nos define como indivíduos se perde e sucumbe ante a enfermidade da mente?




Há pouco tempo li uma triste reportagem. Sua manchete dizia: “Tribunal condena mulher que mantinha pai com Parkinson e Alzheimer preso no quarto”, publicada dia 7 no jornal O Estado de S. Paulo. Quando leio seu conteúdo, fico pasmo: um homem velho, que sofria de Parkinson e Alzheimer, era mantido pela própria filha em um quarto trancado pelo lado de fora com uma corda. O homem ficava ali, esparramado em um colchonete fino, sem cama, abandonado, por quanto tempo não se sabe, mas certamente não foi pouco, pois seu corpo apresentava severos sinais de desnutrição, e os músculos estavam todos atrofiados. Abatido, quando foi encontrado pelos funcionários do município, tentou engatinhar em sua direção, com suas roupas e o colchonete encharcados de urina. O final é breve: após ser levado para tardio atendimento médico, morreu. Aponta o laudo que as causas da morte foram a desnutrição e as doenças degenerativas.

Nessa reportagem há uma série de temas que me despertam o interesse: a indiferença, o sofrer, a crueldade, a tragédia, a morte e a doença. Sobre esta última, aqui me atento especialmente ao Alzheimer, pois ele me faz refletir sobre a identidade. Interessam-me pela dramática contradição que carregam: sua participação no viver humano é verdadeiramente inexorável, ainda assim, todo nosso esforço, porquanto desagradáveis, é certo, sempre será no sentido de afastá-los ao máximo de nossas vidas – como se fosse possível viver em um mundo onde não exista nada disso. Ingenuidade ou teimosia? Sísifo sabe. Cada um de nós possui ou possuirá alguma experiência onde eles, ubíquos que são, mostrarão mais claramente suas cores. Comigo não foi diferente. Lendo a matéria, ocorreu-me uma importante experiência que tive no passado recente: o avô paterno de um amigo faleceu em função do avançado estágio do Alzheimer que lhe afligia.

O homem era um idoso feliz, forte, muito bem-humorado, gostava de contar histórias, piadas, e ria calorosamente. Meu amigo e eu íamos à casa de seus avós para jogar cartas ou simplesmente para lhes fazer companhia. Nessas idas, que foram há cinco anos, eu não havia percebido que o avô já estava apresentando os primeiros sinais da doença, fato que meu amigo só me explicou um pouco depois de sua morte. Como era um homem jocoso, pensei que as piadas que contava por repetidas vezes eram apenas reflexo do seu humor generoso. Infelizmente, não eram.

Elas foram, na verdade, um dos sintomas mais frequentes que ocorrem nos primeiros estágios de desenvolvimento da doença, isto é, a perda da memória recente. Quer dizer, agora pode-se afirmar que foram sintomas da doença, pois o desfecho já é sabido, mas naquele momento inicial, a não suspeita não foi negligência ou ignorância da família ou dos amigos, porquanto se sabe que a memória passa a ser mais criteriosa a partir de uma certa idade, e se lembrar dos nomes dos familiares, por exemplo, certamente é mais importante do que se lembrar se já se contou a mesma piada para a mesma pessoa em um mesmo dia.

Contudo, a medida que o tempo passou, os sintomas passaram a ser mais ostensivos, e a vida tornou-se complicada. O avô, um homem antigo de minha cidade natal, que a viu crescer e, portanto, conhecia-a muito bem, começou a se perder por caminhos que anteriormente percorria de olhos fechados. O homem era também um exímio motorista, mas seus reflexos se tornaram lentos e confusos, a ponto de em tal dia, quando saiu para fazer compras, teve de ligar para seu filho pedindo para que viesse buscá-lo, pois havia se perdido no centro da cidade – lugar que frequentava todos os dias – e não conseguia mais conduzir o carro.

A doença desde então começou a apresentar seus aspectos mais pungentes. O avô, que já demonstrava agressividade e apreensão, não reconheceu em um dia o seu neto, meu amigo. Este conta que naquele dia, como de costume, foi visitá-lo, dessa vez acompanhado de sua prima. Em um primeiro momento, cumprimentam-se ao chegar, com abraços e beijos, e se sentam nos sofás da sala de estar. Estavam conversando tranquilos, rindo até, quando o avô subitamente interrompe a conversa, diz que foi bom vê-los, os netos, essas pessoas – esses estranhos – e os conduz para fora da casa dizendo que a visita foi boa, mas que naquela hora, gente estranha deveria voltar para de onde vieram.

Aquilo foi um choque, naturalmente. Meu amigo e sua prima, já do lado de fora da casa, esperaram por alguns instantes para novamente tocar a campainha, mas agora chamavam por sua avó. O homem, ao ver os estranhos ali sendo deixados a entrar agora pela sua esposa, irrita-se, agarra sua mulher pelo braço, esbraveja dizendo que era para aqueles sujeitos saírem – são estranhos, afinal – e exclama xingamentos. A avó o segura, tenta acalmá-lo, e o leva para seu quarto, lá os dois conversam enquanto os netos, hesitantes, entram na sala. Após alguns minutos, o avô retorna, em prantos, e pede desculpa aos netos – agora os reconhece. Diz que está ficando doente, confuso, que não sabe o que está acontecendo, que não consegue se lembrar de nomes, de ruas, de pessoas, que isso o aborrece muito, se lamenta, e chora.

É nesse momento que a reflexão sobre a identidade me ocorre. Pois o avô, evidentemente, percebe uma divisão em seu sujeito, no que ele percebe como “ele”, isto é, nessa oscilação de identidades, há para ele dois sujeitos que dividem o mesmo corpo: o eu consciente, razoavelmente lúcido, que reconhece que há momentos de devaneio e que não consegue controlar suas decisões enquanto está alheado; e o eu outro – o eu enfermo – que demonstra os sintomas do Alzheimer ostensivamente. Quem é o avô agora, o lúcido ou o alheio? Ou ele é agora essa instabilidade?

Acho dramático acontecer isto a alguém: em um momento, saber que se está assim, lento, confuso, agressivo, que está por vezes machucando os queridos, e sofrer por saber que o faz; mas quando faz tudo isso, em outro momento, não ter mais a consciência de que o faz – não saber mais, esquecer-se – repetidamente. Agora, mais do que dramático, acho cruel o estágio terminal dessa enfermidade, quando o corpo passa a ter severas dificuldades motoras, e a cognição se arruína: há a dificuldade de comer, mastigar, engolir; dificuldade de se locomover, de mover os braços, as pernas, até mesmo de girar o pescoço; incapacidade de reconhecer os parentes, os amigos, objetos familiares; dificuldade de se expressar verbalmente, de se comunicar, e o pior – não ter a mínima consciência do que se passa ao seu redor ou consigo – alienação total, alienação de si mesmo. Isto tudo, o avô sofreu.

Vi a decadência de um homem. Vi a enfermidade lentamente reduzir um homem que era alegre, bem-disposto, independente, a um homem acabado, fraco, débil, encarcerado em seu próprio corpo, que já não sabe ao menos evacuar sozinho, quanto mais localizar-se em sua própria casa. O Alzheimer o apequenou. Onde está o homem, que poderia ser qualquer um, que é potencial, vigor, que é ação, que é liberdade? Não há mais ele. Há? De fato, o homem que vi definhando naquela cadeira de rodas ainda era o avô, o avô que era tudo aquilo? Seu corpo ainda está ali, vivo, mas e ele, perdeu-se? Morreu? Não, o corpo ainda vive. Mas como tudo o que em algum dia já foi algo, e decaiu, o que restou são os resíduos, resquícios por pouco não identificáveis – ruínas. Nesse estágio terminal, de completa perda da cognição e alienação absoluta, aparentemente, o Alzheimer erodiu o sujeito – aniquilou a identidade “avô”: todas as suas relações afetivas – seus amigos, seus filhos, seus netos, sua família – estão perdidas; todas as suas subjetividades – seus gostos, suas preferências, suas opiniões, suas piadas, seu credo, suas convicções – estão perdidas; tudo o que aquele homem mais amou, mais odiou – tudo isso que se guarda em forma de memórias, de raciocínios, de recordações, está para ele, agora, ininteligível – perdeu-se.

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